Moacy & Cascudo

21 de julho de 2010 às 8:53 - 1 Comentário
Por Marcos Silva

Reflexão e reflexo: a vanguarda vai à tradição.

“Porque a formiga é a melhor amiga da cigarra”
(Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, “Cigarra”).

Moacy Cirne escreve sobre Literatura, Cinema e Quadrinhos desde os anos 60. Gerou textos, nessas áreas, que são importantes referências até hoje, além de ter animado, junto com outros companheiros potiguares, o Cine-clube Tirol em Natal, RN. Depois: Rio de Janeiro, Revista de cultura Vozes e Universidade Federal Fluminense, sem esquecer do Balaio vermelho sempre vivo. E também produz poesia de vanguarda a partir do final daquela década – tempo de tantas reivindicações transformadoras, dos hippies ao Maio de 1968, passando por redefinições dos socialismos: a revolução na próxima esquina que está tão longe.
Esse perfil de Cirne – espantar pela radicalidade – é muito conhecido. Um leitor imediatista pode pensar que ele não tem qualquer relação com tradições clássicas (de Homero a Haroldo de Campos), menos ainda com Câmara Cascudo e o folclore.
Moacy estuda, neste livro, desmandos editoriais em relação ao Dicionário do folclore brasileiro, de Luís da Câmara Cascudo. Ele nos convida a garantir que um clássico seja acessível através do que seu autor escreveu, livre de deformações que revisores e comentaristas fizeram com a pretensão falsificadora de transmitir aquela voz original supostamente atualizada.
Todo texto clássico é objeto de discussão e transformações… por outros textos, assinados por novos autores – revisores e comentaristas com responsabilidade sobre o que escrevem. Isso não se confunde com o ato de fazer versões fantasmagóricas de textos alheios, sem assumir que são outras interpretações daquele universo. E, pior ainda, agir como se as versões fossem o trabalho que o criador primeiro um dia realizou.
Câmara Cascudo escreveu algumas obras-primas ao longo da vida: Vaqueiros e cantadores, Literatura oral no Brasil, Dicionário do folclore brasileiro… Obrigação básica de editoras (bem como de universidades, outras instituições de pesquisa e leitores) é garantir a preservação digna desse patrimônio tal qual seu autor o elaborou. Já imaginaram o Palácio da Alvorada colorido como um edifício pós-moderno, incluindo mármores rosados e turquesas? Já conceberam a fase azul de Picasso retocada porque surgiram pigmentos novos na indústria de tintas? E já tentaram ouvir os versos de Cecília Meireles povoados de gírias recentes, em nome de uma pretensa informalidade coloquial? Já supuseram Guimarães Rosa sem neologismos nem arcaísmos para hipoteticamente facilitar a leitura de seus textos?
A gravidade de mudanças, resumos e omissões (“edição desfigurada”, “barbaridades”), operadas nessa versão mais recente do Dicionário do folclore brasileiro, vai tão longe que Moacy Cirne estabelece a distinção, para efeitos comparativos e de correção, entre “em Cascudo” e “na Global”. Fala mesmo em “edição confiável do DFB”, referindo-se ao que veio antes da última editora.
Quando Cirne se dedica a ler, comparativamente, a edição da Global e outras anteriores do Dicionário do folclore brasileiro, ele respeita: em primeiro lugar, Câmara Cascudo; em seguida, os leitores de Câmara Cascudo (inclusive especialistas que até agora nada disseram sobre o que se passa); e, por fim, os editores de Câmara Cascudo. Apontar erros e deformações de edição – alguns muito graves, surf na maionese estragada – é um trabalho intelectual da mais alta importância que inclui, ainda, imensa generosidade em relação às editoras e a outros responsáveis pela preservação do patrimônio intelectual que Câmara Cascudo nos legou. E abre perspectivas para uma tarefa urgente: realizar a edição crítica do Dicionário do folclore brasileiro e, a rigor, de todo o corpus cascudeano.
Moacy Cirne sabe que a vanguarda virou, ela mesma, tradição de ruptura. E que algumas tradições, no mundo da mercadoria onívora, viraram críticas do mercado. Ir à tradição desfigurada é retornar a si mesmo: espelho crítico, rainha má.
Ele escreve sobre Cascudo, defendendo-o e preservando-o, porque a vanguarda é a melhor amiga da tradição: uma e outra se inventam no mundo que elas mesmas inventam.

1 Comentário

  1. Jarbas Martins
    21 de julho de 2010

    Sim, Marcos. Abraços.

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    Vento nordeste
    10-02-2012 às 7:14 - Comentar
    Por Oreny Junior

    sopra
    meu vento nordeste
    sou todo seu
    feito de sol e sal
    visto as velas
    desse cais cansado
    que tanto me espera
    levado pelas caiçaras
    nos lemes canguleiros
    sopra
    meu vento nordeste
    a amada me aguarda
    o rancho está vazio
    aproveita a baixa da maré
    e me atraca
    joga essa âncora
    onde o tempo
    por uns dias
    será meu amigo
    sopra
    meu vento nordeste
    sopra
    sopra
    ..

    COMENTÁRIOS

    • Marcos Silva: Certamente, existem ONGs sérias. Infelizmente, a desqualificação geral tende a se tornar corriqueira. Lembro que ela aparece com todas as letras no filme Tropa de elite (I). - Brado retumbante
    • Marcos Silva: No diálogo de 2010 sobre esse tema aqui, SP, considerei o direito do feto como especialmente frágil, uma vez que é uma vida ainda sem voz. Prefiro que haja debate sobre esse e outros temas. Não procuro convencer ninguém. Apenas considero fundamental ocupar o espaço público com argumentos em confronto, evitar a política de cada macaco em seu galho. Sou homem, não engravido. Mas posso engravidar uma mulher. Para evitar isso, tomo as providências necessárias (camisinha, em especial). Se engravidasse alguém, defenderia o feto, sim - parte de mim, parte do direito ao meu corpo. Melhor conversar. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Marcos silva, discordo. O tema do aborto é tão absurdo que nem sequer deve ser debatido. Você não percebe que isso é exatamente o que os abortistas desejam? Eles desejam pôr em discussão um assunto que até então é evidente: a vida humana ganhou um valor intrínseco com o Cristianismo (todos são filhos de Deus, todos são irmãos), mas agora os que querem erradicar Cristo da sociedade estão querendo justamente questionar esse valor, "discuti-lo". Seria o mesmo que você propor que o tema da pedofilia é muito sério e precisa ser debatido, ou então que como alguns seres humanos têm tendência homicida, deveríamos debater o homicídio. A discussão em si já questiona o valor, e eu te asseguro que as pessoas que propõem isso sabem o que estão fazendo, porque eu estudei com essa gente que quer manipular a linguagem para mudar a sociedade. Elas nunca vão apresentar suas reais intenções, porque tais intenções não atrairiam ninguém, causariam repugnância. A propósito, desculpem-me: nos comentários anteriores errei o endereço. Querem ver se o aborto é algo a ser discutido? Assistam a esse vídeo: abort67.co.uk Abs - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Yuno Silva: Pelo visto dá para ver que o assunto é polêmico, cultural, um tabu histórico, e abordado com o lado emocional da racionalidade. Deixemos a cristandade de lado para um debate amadurecido. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
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    • Marcos Silva: Walter: Entendo que o grande equívoco foi terem implantado uma ditadura no país. Objetivamente, os guerrilheiros do Araguaia e outros não tinham poder de fogo para o enfrentamento com um Exército regular e minimamente equipado, que sustentatava o regime. Mas a guerrilha anunciou, tragicamente (porque muita gente morreu e sofreu - e não só os guerrilheiros propriamente ditos), que nem tudo era ditadura. Não anunciou sozinha, claro. Parte da produção artística (música popular, artes visuais, teatro, cinema, literatura) também o fez. A mesma situação se observou nos movimentos sociais que foram se estruturando contra o regime. A "milicada" não precisava de treinamento, já era bem treinada e o demonstrou desde o começo do regime, oprimindo os adversários. É possível que a guerrilha tenha servido como álibi para o regime. Mas uma ditadura, quando não tem álibi, inventa, como o Nazismo o fez em relação aos judeus. - À sombra da ditadura
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