A monarquia do Rio Grande do Norte

Bruno Rebouças
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Existe pluralidade informacional, com oligarquias no controle da política e da comunicação? O Dia do Jornalista abre discussão sobre a relação do profissional da comunicação com o poder público e em como a formação não termina com os quatro anos de faculdade.

Muda o regime de governo. Mudam as leis. Mudam a estrutura e a força de trabalho, apenas legalmente. Seguem no poder os mesmos grupos, os mesmos políticos. O Estado, à época no norte do país, onde somente letrados podem votar, tem 240 mil habitantes.

O jornal mais lido do Estado, e praticamente o único, pertence a minha família.

Eu sou o partido.

Viro governador. Em seguida elejo meu cunhado, que elege meu irmão, que elege meu genro, que elege meu irmão outra vez; volta meu cunhado e indicamos um amigo de confiança. Governamos 26 anos.

Minha família se chama Maranhão. Eu, Pedro Velho. Meu cunhado, Ferreira Chaves; meu irmão, Alberto Maranhão (nome do teatro mais importante do estado), meu genro, Tavares Lyra, nosso amigo, Antônio José de Melo.

Monarquia ou capitania hereditária?

O título deste artigo é minha conclusão do livro A história das campanhas populares no Rio Grande do Norte, de José Ayrton de Lima, fruto de pesquisa científica do autor.

O Rio Grande do Norte é uma monarquia, cuja hereditariedade é fundamental na hora da sucessão dos principais cargos do estado, especialmente no campo político, sem esquecer que, socialmente, o estado está distribuído a partir de três, quatro famílias, no máximo.

Capitanias Hereditárias

Desde a chegada dos portugueses, no século XVI, modelo de terras loteadas entre famílias se repete.

Na política, no judiciário, no jornalismo, em que uma reunião sindical tem menos profissionais que a inauguração de um site de baladas.

Se o RN não é uma monarquia, é uma capitania hereditária. Mas não uma República. O Estado ‘nasce’ para este regime sendo o Estado da monarquia Maranhão.

Na virada dos anos 1960, os Alves alcançam o poder, mas o golpe militar interrompe os planos de Aluizio, que fez seu sucessor em Walfredo Gurgel e já tinha seu irmão, Agnelo, prefeito de Natal, e Garibaldi Alves deputado.

A conhecida ‘Cruzada da esperança’. Cassado pelos militares, Aluizio elege Henrique Eduardo Alves, cujo apresentação é desnecessária.

Aliados aos militares, os Maias viraram oligarquia a partir dos anos 1970, quando Tarcísio Maia vira governador biônico nomeado pelos militares.

Ele indica seu primo, Lavoisier Maia, que retribui o presente e nomeia José Agripino Maia prefeito biônico de Natal.

Em 1982, eleição direta para governador, acontece o clássico Alves versus Maia.

Vencem os Maias. José Agripino derrota Aluizio Alves. Os Maias governam o Rio Grande do Norte por 12 anos seguidos.

De lá até hoje, as duas famílias, proprietárias dos dois maiores sistemas midiáticos do Estado, dividem o poder fazendo governadores juntos ou separados, além dos filhos dos oligarcas, seguindo a hereditariedade típica do RN na manutenção do poder.

RN_Lavosier e Tarcisio Maia_Dom Adelino Dantas

Final dos anos 1970: Durante visita a Carnaúba dos Dantas, para a inauguração do sistema de abastecimento d’água, primos Lavoisier e Tarcísio Maia, este governador do Estado, aquele sucessor no comando dos potiguares, são acompanhados por Dom Adelino Dantas (dir); família Maia detém um dos principais sistemas de comunicação do Estado.

Oligarquias do Rio Grande do Norte e os meios de comunicação

Todas as famílias que podem ser consideradas oligarquias detinham ou detém meios de comunicação a seu serviço. E o pior de tudo, nessa característica, é que eles são concessionários de outorgas de radiodifusão.

É o serviço público a favor do privado. Em um estado não tão forte economicamente, cabe aos políticos, com seus mandatos eletivos, sustentarem os meios e, estes, apoiarem os grupos políticos.

É digno de menção que o artigo 54 da Constituição proíbe senadores e deputados de firmar ou manter contrato com empresas concessionários de serviços públicos, sendo que o artigo 55 prevê a perda do mandato em caso de descumprimento.

É bem verdade que os políticos, e o senador Agripino, recentemente à Folha de S.Paulo disse o mesmo, usam o artigo 38 do Código Brasileiro de Telecomunicação (CBT) como defesa.

Diz o citado artigo que parlamentares não podem exercer cargos de direção e gerência em meios de comunicação durante o mandato.

Evidentemente é necessário entrar no tema das brechas legais que todas as leis brasileiras, propositalmente ou não, têm. Assim, o CBT proíbe a direção ou gerência, mas não proíbe a propriedade.

Porém, a Constituição proíbe. E isso deveria bastar para uma realocação da concessão ou a não outorga da mesma, conseguida pelos Maias, Alves e demais famílias políticas do Nordeste, durante o governo Sarney e a compra de voto com concessões para a aprovação da emenda constitucional que garantiu cinco anos de mandato para presidentes.

Magazine Journalism

Dia do Jornalista…

A lei tem brechas legais que permitem políticos com mandato eletivo adquirirem concessões e as usar politicamente. Se não para apoiar candidaturas, para prejudicar adversários, a oposição, afastando-os da pauta diária, dos telejornais e do espaço plural que os meios de comunicação deveriam representar.

Mas podemos falar de pluralidade informacional diária no Rio Grande do Norte? Acredito que não.

Em 07 de abril se celebra o dia do jornalista, humano incrível que necessita de superpoderes para exercer a profissão.

Porém, antes das felicitações merecidas, acredito na necessidade de uma reflexão sobre a profissão. E tocar em um ponto fundamental: a formação do jornalista.

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“[…] há que se investir em uma formação mais humana, com mais história, sociologia, cultura, artes em geral”.

A nossa formação é constante, nunca termina. Muito menos com os quatro anos de faculdade. Por motivos óbvios, como acadêmico, apoio e acredito na formação universitária. Porém, no caso brasileiro, nós profissionais temos que rever algumas coisas.

A começar pela amplitude do curso. Ele precisa ser mais universal, mais amplo. As teorias são importantes, evidente. Mas há que se investir em uma formação mais humana, com mais história, sociologia, cultura, artes em geral.

O jornalista pode investir nisso sem depender de uma grade acadêmica. Pode ser autodidata. É necessário entender que nós jornalistas somos profissionais intelectuais (ou deveríamos ser). Pensadores. Não meros reprodutores do que nos contam.

Não somos batedores de release, embora a maioria seja.

Jornalistas no mercado desconhecem fragmentos da história fundamentais em qualquer nação; muitos saem da faculdade sem ter lido ao menos um livro. Ou leu o que reforça convicções e ideias sobre a política, o mundo, a economia.

Há que se terminar com o especialista em generalidades. A objetividade jornalística não vem e nunca veio da neutralidade. A objetividade é subjetiva e requer equilíbrio.

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Empresas de comunicação do mundo estão direcionando estratégias para o regionalismo.

Ódio ideológico contamina jornalistas

Em tempos de expansão do ódio ‘ideológico’, na qual, praticamente todos os partidos são do centro, salvo raras exceções à esquerda, até porque são oposição, como era o Partido dos Trabalhadores, o que se nota é que os jornalistas entraram no critério da discussão dogmática, na qual tudo é manipulação (e não que ela não exista), golpe.

Nada contra o que se acredita é verdade. O que é falso, pois corrupto preso não é preso político.

A grande questão de um Estado como Rio Grande do Norte está no fato que os jornalistas locais se preocupam muito mais com os fatos que ocorrem no Brasil que no próprio Estado. Isso está bem, mas tudo começa na rua das nossas casas.

E um exemplo disso é sobre a questão da relação de trabalho entre os profissionais e as empresas. A questão do levantamento do número de meios de comunicação sob propriedade política e como isso atinge e prejudica a liberdade do exercício da profissão.

É muito mais interessante discutir porque um profissional supostamente bem qualificado escreve uma reportagem pela manhã em um meio informativo, e a tarde ele mesmo responde na assessoria de imprensa onde também trabalha.

Todas as empresas de comunicação do mundo estão direcionando suas estratégias para o regionalismo. Alguns Estados do Nordeste seguem contra a tendência universal, o Rio Grande do Norte, salvo poucas exceções, principalmente. E isso inclui os profissionais.

Bradar que a mídia nacional é golpista é um direito de todos. Mas um profissional deveria focar sua atenção no fato que os deputados federais e senadores locais, donos de televisão, rádio e jornal, votaram a favor do impeachment, e através de seus meios informam o que querem e os jornalistas sabem que não é verdade.

Até onde colaboramos na manipulação?

A mídia é o que ela é e acredito que é um pouco prepotente querer mudar o país sem antes lutar para mudar as nossas cidades, nossos estados, nossa profissão.

Nos dias atuais, na qual qualquer um dá uma informação e pode viralizar, com a verdade ou a mentira, os Jornalistas bem formados são fundamentais para controlar o caos informacional e para evitar a vitória dos idiotas, agora aglomerados nas redes sociais divulgando mentiras e falsidades, antes resumidas às mesas dos bares e reuniões privadas.

E pensar que o artigo começou falando da monarquia que caracteriza o Estado, sua hereditariedade e sua falta de mérito em determinados cargos e funções, como prevê o regime republicano.

Mas isso está conectado diretamente com as empresas informativas e seus profissionais, os jornalistas e o foco de suas atenções e pautas.

José Ayrton de Lima fala que não há renovação na política no Rio Grande do Norte.

O jornalismo não necessariamente muda o panorama político. O jornalismo muda a sociedade e a sociedade muda o cenário eleitoral.

Escrevinhadores no campo de centeio

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“A grande questão de um Estado como Rio Grande do Norte está no fato que os jornalistas locais se preocupam muito mais com os fatos que ocorrem no Brasil que no próprio Estado”.

O escritor espanhol Javier Marías cita William Faulkner (Nobel de Literatura): “O que a literatura faz é o mesmo que acender um fósforo no campo no meio da noite. Um fósforo não ilumina quase nada, mas nos permite ver quanta escuridão existe ao redor”.

Esse mesmo fósforo é o Jornalismo. E quem deve acendê-lo é o Jornalista, tal qual o farol que Walter Lippmann disse que a imprensa é: a que traz da escuridão os temas relevantes dando luz a cada um deles para sociedade enxerga-los.

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Bruno Rebouças

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