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Murilo Zatú lançará “Romance Bad” dia 16 no Mahalila Café & Livros

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No próximo dia 16, às 18h, no Mahalila Café & Livros, acontecerá o lançamento do zine Romance Bad, do poeta Murilo Zatú. Em Romance Bad é retratado temas como relacionamentos e desabafos no contexto erótico.

É um trabalho experimental que o poeta está concebendo. Além do lançamento, também haverá um recital com a participação dos poetas Leonam Cunha e Gessyka Santos. 

O Leonam Cunha escreveu a apresentação do zine. Zine com apresentação? Oras, zine não é algo independente? Faz o que quer… E estamos aqui exibindo para vocês esse texto escrito pelo Leonam e mais alguns poemas que fazem parte do zine Romance Bad, de Murilo Zatú, para criarem gosto e aparecerem lá, no Mahalila, dia 16, garanto que vai ser massa.

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Por Leonam Cunha

Romance Bad, Bad Romance ou Journal de BAD

Conheci Murilo num recital. Antes de começar a falar seus poemas, ele desculpou-se por estar sem jeito; explicou que era a primeira vez que lia seus escritos para um público. Achei o gesto bonito, carregava algo de humildade. Entretanto, depois que ouvi seus versos, concluí que foram definitivamente desnecessários o pedido de desculpas e o estado envergonhado (apesar de inevitáveis naquele momento). Isso porque dava para identificar uma voz própria, mesmo que ainda nascente, mas já com alguma autenticidade.

Depois de um tempo, Murilo fez contato comigo e perguntou se eu poderia escrever uma espécie de apresentação para um zine que queria lançar. Falou que havia poemas com um tom sexual mais grosso, mas não há do que se arrepender. Poesia estapeia sem desculpar-se.

De fato, os poemas deste Romance Bad têm o erotismo como embrião e como guia. Em alguns versos, isso mal se apercebe; em outros, salta aos olhos e é uma delícia. Num primeiro momento já nos deparamos com: “Tímido, sentado no seu pau, eu pergunto:/ ‘Você curte beijar?’.” Indaguei-me sobre o porquê da timidez e da pergunta se já estava sentado no pau… Murilo me falou que se tratava de um casal se conhecendo: faz sentido.

Neste poema que acabo de citar, o eu-lírico é do gênero masculino e é homossexual. Porém, essa marca não finca pé em todo o zine, conferindo ao conjunto outras facetas. O poeta gosta das experimentações: em alguns momentos, o eu-lírico é mulher e heterossexual, em outros, homem e heterossexual, e assim mistura-se. Leva a crer que além do mero gênero e da mera sexualidade, importa mais a voz poética.

Quanto à linguagem, Murilo mostra ser um apreciador de bons adjetivos e substantivos para formar novas imagens. Faz referências inusitadas à lua e à figura dela: chama-a de Diana, dialoga com o deus lunar indiano Chandra, etc. Em determinadas passagens, o autor destes escritos dá vazão à confusão da linguagem, não se preocupando com a erudição nem com a coloquialidade, e apenas a permite fluir. Kill method também é um método.

Em uns poemas, Murilo tem um tom e um ritmo prosaicos, e também não se prende a temporalidades e estéticas pré-definidas. A uniformidade não é um almejo dele, e é justo: todx poeta tem a mão calejada e deve saber o que fazer com ela. Contudo, em suma, este zine já valeria a pena pela primeira estrofe do poema “Confissão de Celeste a Hércules”. Preciso enfatizar estes versos e vocês criarão gosto para degustar essas páginas. É isto e eu paro de falar aqui:
“Você sabe
Sempre soube…
Teu falo é alegórico
Meus lábios são eremíticos
Isso que chamam de… sexo?
É místico.”

Leonam Cunha, poeta.
(Natown_RN, januar de 2000e17)

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Abaixo seleção de poemas feita pelo autor

 

O fim de semana se foi
Com a sobretarde, com a Diana, com as estrelas
Quando eu, enfim, dormi.
Dormi com a cueca saburrosa.
A insônia despertou minha afrodisia.
Tu estavas em meu devaneio
Tua nuca, teu ombro, tua clavícula
Teu sopro, tua mordida, a lambidela da tua língua
Ao redor do meu seio
Tua barba, teu cabelo, teus pentelhos…

Quando demos tchau, eu sabia que fruiria a melancolia
Quando chegasse em casa
E entrasse no meu quarto.
Meu quarto só é miasma de porra e suor
E na estante tem Virginia, Danuza, Dalai Lama…

Eu, enfim, dormi
Quando se foi o fim de semana.
A cueca enodada
A lembrança salaz.

.:

O amor kitsch

Da última vez
Quando te deixei cinematografar nossa foda
Concordamos que na próxima noite
Eu faria um desenho do teu falo.
E eu fiz. Você nem precisou estar presente.
Tuas facetas estão já irrefutáveis em meu inconsciente.
Coloquei adereços no teu pau
Como coloquei no aniversário da sua filha
No final do borrão, fiquei boquiaberta
“Que pauzão alegórico”.

Naquela noite, tu chegaste extasiado do trabalho
Eu estava de calcinha e com tua camisa do Led Zeppelin
“Amor, fiz um retrato do teu pau”
Sério? Eu te comprei um regalo
Na vitrine, nem acreditei quando vi Silvia Saint
Na vitrine, usando aqueles trajes
Minha Silvia…
E esse pau nem parece o meu…

Ele foi dormir.
Eu tinha tomado banho
E me besuntado de óleo.
Homens aos 40 parecem tão sequelados.
Passei a noite como Silvia Saint…
Aquele vestido, um cigarro, um vinho.
Nós temos os súperos desejos
Mas nos falta o gás para concebê-los.

.:

Confissão de Celeste a Hércules

Não venhamos com conversas
Não vamos perder tempo
Deixai nosso tempo suceder debaixo das cobertas.
Quero poder dizer sem rodeios
Que arreganhada sou mais vulnerável.
Você sabe
Sempre soube…
Teu falo é alegórico
Meus lábios são eremíticos
Isso que chamam de… sexo?
É místico.

Hoje Vênus entrou em conjunção com Leão
Acho que sei falar de astrologia….
Mas, sabe,
Eu pensei que pudéssemos ter uma gozada daquelas.

.:

Se o amor é cíclico
e a vida, um espiral
espero sentado
ao canto
do pé do meu pé de laranja lima
ou um buraco para visitar Alice
só para dizer que as manhãs agora são perenes
e que por isso
é impossível acordar de um sonho. E que esse sonho
em que
sonho
é inverossímil romper o limite do que já se conhece por
realidade.
É um sonho em que sonhei
quando ainda nadava no mar amniótico
e a placenta do meu berço
me acolhia com um dulcificante aroma de alfazema
e afeto.

Se estou destinado a te amar
por incontáveis vidas
que seja nessa
o dia que descobrimos que o que temos é imperecível
para que amanhã
talvez
eu esteja deitado no teu colo
sorvendo o leite do seu peito
ou apenas correndo para chegar em algum lugar
e descobrir
que lugar nenhum.
Existe.

 

“Romance Bad”, Murilo Zatú, 2017

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