Musical faz releitura equivocada de Milton

Tácito Costa
DestaqueMúsica

A ausência de negros no musical “Milton Nascimento – Nada Será como Antes”, apresentado sábado na Ribeira, monopolizou as críticas nas redes sociais. Foi a primeira coisa que me chamou atenção tão logo o espetáculo iniciou.

Mas esse não é o único problema do musical, criado pela dupla Charles Möeller & Claudio Botelho. Os dois tem experiência e são responsáveis por musicais de sucesso, como “Beatles num Céu de Diamantes” e “O Mágico de Oz”

Não tive tempo de ler nada sobre o musical antes. Então, estava cheio de expectativas. Dos grandes da MPB o mineiro é o que ouço com mais frequência. A força, poesia e engajamentos político e social da música de Milton me emocionam sempre.

E eu esperava que o musical provocasse algum tipo de emoção forte em mim. Não rolou. Não sei se foi impressão minha, já tomado pela decepção, mas até os aplausos da numerosa platéia foram sem vigor. Pareceu-me mero exercício de educação.

milton

Tudo muito arrumadinho, branquinho, mas sem a potência da música de Milton, sem as forças telúricas de Minas e da América, tão presentes em seu repertório. Remetendo a um comercial de tv ou um desses clipes,  que fazem sucesso estrondoso por alguns dias e depois ninguém ouve mais falar. As cantoras, umas galegonas de botas, mais parecendo nórdicas.

Silêncio sobre o universo do cantor e compositor, um dos mais importantes do país. Um espetáculo sem alma. Ou com uma alma que não é a nossa. Nesse último caso até cabe cantar “Canção da América” em… inglês.

Não achei sentido na divisão do musical por estações do ano. Senti falta de contextualização histórica. A produção se limita a apresentar um grupo de rapazes e moças tocando e cantando música atrás de música de Milton, num cenário que remete a uma casa no interior de Minas.

A rapidez com que se passa de uma música para outra nega ao espectador a oportunidade de frui-las em todas suas intensidade e beleza. Achei o espetáculo uma releitura bem estranha da obra de Milton. Não me convenceu.

Ainda bem que tinha uma lua muito bonita se pondo para os lados do rio Potengi. Foi o que salvou a noite.

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Tácito Costa

Comentários

3 comments

  1. Tânia 31 agosto, 2017 at 13:56

    Boa análise. Também achei tudo muito sem alma! Faltou raízes brasileiras. Aquela mistura onde a beleza da negritude não pode faltar. Ainda mais sendo Milton negro.

  2. Rita Alencar 3 setembro, 2017 at 15:04

    Achei que ficou tudo muito plástico, artificial, limpinho sem identificação. Em nenhum momento senti Minas Gerais nem a grandiosidade de Milton Nascimento. Parecia Noruega, Suécia…

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