Não basta ser pai, tem de ir ver o América perder

Tácito Costa
Destaque

Foto/Destaque: Canindé Pereira

Virei um torcedor que só vai ao estádio em decisões. Atendendo, sempre, aos pedidos de uma torcedora especial, a caçula Clarice, americana “doente”, de arengar com vizinho e chorar quando o América perde.

Até a adolescência eu não perdia nem treino e tinha time de botão torneado, um sonho que alcancei depois de muita luta (o timaço de 1973, Ubirajara, Hélcio, Santa Cruz, Mário Braga, Scala, Ivan Silva…).

Equipe campeã da Taça Almir, 1973: Scala, Ivan Silva, Nunes, Paúra, Mário Braga, Ubirajara, Emidio e Dr. Maeterlinck (em pé); Macarrão (massagista), Almir, Careca, Santa Cruz, Hélcio e Gilson Porto. (Foto: Ribamar Cavalcante/Arquivo Pessoal)

No meio da semana passada ela começou a jogar umas indiretas sobre o jogo América e Juazeirense. Crente, como todo torcedor genuíno, que era possível o milagre de uma vitória por uma diferença de três gols, sem sofrer nenhum.

Sem muito entusiasmo fui enrolando. Resisti até o almoço do domingo, quando ela dominou a bola e chutou no ângulo sem chance alguma para o velho americano: “eu pago o ingresso, presente do Dia dos Pais”.

Foi a segunda vez que assisti a um jogo no Arena. A pedido dela, que já estava com a camisa oficial do clube, comprei uma bandeira do Mecão na entrada do estádio e fizemos fotos na entrada e na arquibancada.

O estádio estava bonito. Ocupado pelo vermelho. Fizemos nossa parte. Gritamos o “Eu Acredito!” e demais palavras de ordem. Mas não deu. Não somos o Barcelona!

Depois do jogo comentei com meu filho, que também estava no estádio, em outra área, com os amigos, é sócio torcedor e acompanha o dia-a-dia do América, o desempenho sofrível do time. Só Cascata se salvou. Ele justificou que a obrigação de vencer por três gols de diferença atrapalhou o América. Não fiquei muito convencido da explicação e deixei pra lá.

Voltamos, eu e Clarice, macambúzios para casa. Eu, menos pela derrota em si, e mais pela cara de tristeza dela. Ainda tive de aguentar gozações dos abecedistas dos grupos do WhatsApp da família e do trabalho, onde postei minha foto no estádio (rs).

Saímos um pouco antes de o jogo acabar. Ouvi pelo rádio sobre as depredações. Hoje vi as fotos. Lamentável. Não são torcedores estes elementos. São arruaceiros, desordeiros, e como tais devem ser tratados. Bani-los do estádio é o melhor a fazer.

Eu tive a sorte de ficar numa cadeira ao lado de um típico torcedor. Não ficou calado um instante. Entre um palavrão e outro, gritou com os jogadores (“Olha a marcação”, “Lança, lança”, “Chuta, chuta”, “burro”), pediu substituição, reclamou da cera, xingou juiz e bandeirinha, até ficar rouco.

Não ganhou, mas fez sua catarse e deve ter dormido tranquilo, apesar da derrota. Para muitos torcedores, mais importante do que vencer é extravasar dores, revezes e tristezas de vidas e cotidianos sem alegria, poesia e futuro.

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Tácito Costa

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