Não é o que parece

Por Phydia de Athayde
Carta Capital

A crônica de como se fez uma das capas de disco mais premiadas da história da MPB: Todos os Olhos, de Tom Zé

Procura-se um motel. Na São Paulo de 1972 isso não é lá tão fácil de encontrar. O jeito é pegar a rodovia Raposo Tavares e afastar-se alguns quilômetros da cidade para estacionar o Fuscão 1500 bordô ao lado de caminhões que descansam sob a placa “Retiro Rodoviário”. O rapaz tem 22 anos, é cabeludo, usa faixa na cabeça e calça boca-de-sino. A moça tem vinte e poucos, é bonita, loira de cabelos compridos, tem os olhos claros, pinta de hippie e, assim como ele, é fã da Tropicália. Acessórios trazidos: uma máquina fotográfica alemã Praktika sem flash, quatro filmes Kodacolor ASA 100, dois abajures com lâmpadas de 100 W, fortíssimas, e uma caixa de… Bolinhas de gude?

Esses são os elementos usados na composição da foto da capa deTodos os Olhos, álbum do tropicalista baiano Tom Zé, lançado em 1973.

Tempo de ditadura. Toda a produção cultural, letras, músicas e arte-final do LP passam por censores antes de ir às lojas. Apesar da noite no “Retiro Rodoviário” não ser a única necessária para conseguir a foto da capa do disco, um ano depois dela Todos os Olhos vem ao mundo.

Os censores não atinaram para o que seria aquele fundo róseo com uma gema ao centro. Ainda bem. Tom Zé, o artista tropicalista, sabia que a circunferência no centro da capa era uma bolinha de gude. A repousar sobre uma parte verdadeiramente íntima do corpo humano, aquela mais abaixo do final das costas.

A idéia – de assombrosa afronta à censura – foi do poeta vanguardista Décio Pignatari, grande amigo de Tom Zé. Não eram tempos de brincar com a sorte. E toda a equipe de criação do álbum guardou muito bem o segredo.

Por ironia, logo após Todos os Olhos, Tom Zé caiu em um ostracismo e quase encerrou sua carreira. Em 1990, o americano David Byrne, ao pesquisar world music, descobriu o baiano. Produziu, então, o CD The Best of Tom Zé: Massive Hits e lançou-o nos EUA. Seria o início da retomada artística de Tom Zé, em franca atividade e produção até hoje. No encarte desse CD, torna-se pública a explicação do que está na capa de Todos os Olhos.

A transgressão vira troféu. Tom Zé torna-se cult. E o olho, róseo, pode enfim ser entendido como tal. E é uma das capas mais premiadas da música brasileira. Em 2001, quase 200 personalidades da música elegeram-na, na Folha de S.Paulo, a segunda melhor capa da MPB de todos os tempos, atrás apenas do primeiro disco dos Secos & Molhados, também de 1973.

O sutil e vitorioso acinte à ditadura ganha, naturalmente, a condição de capítulo fundamental na história da Tropicália – citado até em uma reportagem especial do jornal inglês The Guardian, em 2003.

E a história seria essa. Seria. Não fosse a revelação sobre o que, de fato, aconteceu naquela noite no “Retiro Rodoviário”. O suficiente para que se afirme: o olho de Todos os Olhos não é o que parece.

O protagonista do “Retiro” era Reinaldo Moraes. Ele trabalhava como assistente de estúdio na agência de publicidade E=mc2, que tinha como sócio Décio Pignatari, já um grande nome da poesia concretista. O chefe encomenda-lhe a foto. E tudo fica por conta do assistente. Inclusive providenciar a modelo.

“Queria muito participar desse jogo de afronta, queria muito executar uma idéia do Décio Pignatari, de quem eu era fã”, diz Reinaldo, 33 anos depois, já grisalho e não mais o “boy hippie marxista”, como se definia. Hoje, é escritor de inspiração beatnik, autor do desbocado Tanto Faz (Azougue Editorial), entre outros.

Aos 22 anos, e diante de tamanha missão, Reinaldo pensa em Vera (nome fictício), uma namorada bissexta, para modelo. Aproveitando um clima de reconciliação, lança um “sabe o Tom Zé?”, para introduzir o assunto.

No exato instante, o próprio Tom Zé, nascido e criado em Irará, sertão da Bahia, agonizava com a simples idéia de que se pedisse uma coisa dessas a uma moça:

– Fiquei apavorado quando o Pignatari me falou que tinham encontrado a modelo. E ele retrucou: “Como é que você quer traseiro sem modelo?”.

Vera, fã dos tropicalistas e de seu ripongo namorado Reinaldo, aceita o convite. E lá se vão, Vera e Reinaldo, de Fusca até o “Retiro Rodoviário”.

A sessão de fotos. No quartinho mal-arrumado do motel, Vera, empolgada, deita-se de costas na lateral da cama. No chão, as bolinhas de gude. Reinaldo posiciona os abajures na diagonal, de modo que a luz incida diretamente sobre o alvo. A lente é uma de 50 mm colocada no avesso para fazer a função de macro, e fica a apenas 20 centímetros do corpo da garota, já quase de cabeça para baixo.

Começam os problemas técnicos. A bolinha não pára. Cai, rola costas abaixo. Tentam-se novas posições. E mais outras. Nada da bolinha estacionar. Reinaldo descreve o desconforto:

– Ela ficou constrangida, quis parar, mas eu estava obstinado. Continuamos tentando. Foi bem complicado…

A bizarra cena transformou-se em mal-estar. Quando beirava o insuportável, uma das bolinhas parou quieta. Reinaldo descarregou cliques. Consumiu todos os filmes. Testou velocidades, posições da luz, enfim. Fez-se de tudo, menos sexo. Deixaram para trás um quarto cheio de bolinhas pelo chão, sem coragem de se olhar nos olhos.

No dia seguinte, Reinaldo leva o resultado para a apreciação na agência:

– Foi uma atitude poética. Como foto, algumas ficaram ótimas. Mas, mesmo nas melhores, era evidente do que se tratava.

Décio e Marcão, o diretor de arte da agência, ficam desolados. Décio, então, pede nova tentativa ao assistente. E lá vai Reinaldo falar de novo com Vera sobre Tropicalismo… Desta vez, nada de motel. Vão à casa de uma amiga. E, antes que repetissem a luta contra a obviedade fisiológica, uma nova idéia.

Vera tem a boca grossa. Lábios cheios de carne bem rósea. Vale tentar. Ela topa. Prefere. Senta-se no chão com a cabeça jogada na cama e faz biquinho. Uma bolinha é colocada e dali não sai. Os lábios contraídos formam frisos que em muito se parecem com o que devem parecer. Uma única série de cliques basta para, finalmente, realizar a idéia de Pignatari.

Aquele não era tempo de Photoshops, e a imagem é impressa sem retoques. Uma boca se fazendo passar por seu extremo oposto. Simples assim. Nos créditos do LP (reproduzidos em sua reedição em CD) constam: direção de arte de Marcão, fotografia de Reinaldo Moraes.

Vera não quis ver as fotos. Deixou pra lá. Depois de mais outras idas e vindas, também deixou Reinaldo pra lá. Ele soube que ela mora no interior de São Paulo, é dona de uma pensão e não se casou.

Já o autor da idéia, Décio Pignatari, recusa-se a comentar o fato. Interrompeu um telefonema, que atendeu desprevenido, ao ouvir as palavras Todos os Olhos:

– Olha aqui! Eu já falei muito desse assunto e não tenho mais nada pra dizer sobre isso, viu?

Desligou, solenemente, na cara. Procurado outras oito vezes em uma semana, mandou dizer pela secretária que não fala sobre isso.

Já Tom Zé ouve atenciosamente a verdadeira história da capa de disco mais importante de sua carreira. E cai numa gostosa gargalhada:

– Hahaha! Então me enganaram esse tempo todo! F.d.p., me enganaram! Hahaha! …E que alívio! A moça não precisa mais ter vergonha. E pode se congratular de ter sido personagem de uma rebeldia.

Ainda sob o choque da notícia, pede a capa à esposa, Neusa. Em silêncio, põe o vinil em frente aos olhos, analisa-o como se fosse a primeira vez, e matuta:

– …É. Agora que você falou, dá pra viajar. Mas a gente não duvidava não… Pode ser uma boca mesmo, hehehe… Pode ser que seja mesmo, hahaha… E até ontem isso aí era oficialmente outra coisa.

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A câmera stalinista

Reinaldo Moraes
FSP

São Paulo, 1972

EU DEVIA TER UNS 20 ANOS NESSA FOTO, dos primórdios jurássicos dos anos 70, em que posso ser visto ocupadíssimo a me autorretratar diante de um espelho. A máquina é uma Praktica, contrafação alemã oriental das câmeras fotográficas reflex de boa qualidade, japonesas na maioria, que eram os xodós de todo fotógrafo, amador ou profissional.

Os fotógrafos de hoje, pelo menos os amadores, talvez se sintam menos atraídos pelo design e pelas características técnicas de uma boa reflex, na qual a imagem captada pelo visor é a mesma sugada pela lente única da máquina.

Isso é bastante compreensível numa era em que milhões de proprietários de celular com câmera digital produzem todos os dias zilhões de fotos de qualidade técnica inalcançável naquela época por mim e minha alemãzinha comunista, alimentada a filmes de celulose, com a qual cheguei a fazer vários trabalhos profissionais.

Escolhi a Praktica numa tradicional “foto-cine-ótica” do centro de São Paulo porque ela custava a metade do preço de uma Pentax ou de uma Nikon, meus sonhos de consumo. A Praktica era a reflex mais barata do mercado, e o fato de ter sido feita num país comunista (hoje reintegrado à capitalista Alemanha) liderado por stalinistas devoradores de criancinhas, curiosamente não impediu sua entrada comercial numa ditadura brucutu de direita, como a que vigorava no Patropi, já em plena era Médici, que muita gente presenciou de ponta-cabeça pendurada num pau-de-arara.

Com esse nome que mais parecia uma auto-onomatopéia, pois mimetizava o barulhão de mecanismo tosco que fazia ao se avançar o frame do filme e disparar o obturador, e com sua modesta lente F:2.8 de baixa luminosidade, aliada a uma velocidade de obturação máxima de apenas 1/500, minha pouco prática Praktica quebrava um galhão. Com ela fiz, por exemplo, a foto da capa do disco “Todos os Olhos”, do Tom Zé, que mostra o mais polêmico orifício humano emoldurando uma bolinha de gude verde.

O artista e a agência de publicidade responsável pela ideia trocadilhesca da capa (“Todos os Olhos”, inclusive o do extremo inferior do tubo digestivo) sempre alardearam que aquilo era mesmo o que parecia -mas não era.

Depois de várias tentativas algo grotescas de fixar uma bolinha de gude no ânus de uma complacente amiga, e de fotografar a “instalação” improvisando uma macro-lente com a 50 mm da minha Praktica virada ao contrário, vimos todos lá na agência que a imagem carecia da ambiguidade demandada pelo trocadilho visual que se queria evocar, pois a verdadeira natureza anatômica do dito “olho” não se deixava disfarçar.

Vai daí, em nova sessão de fotos focando a bolinha encaixada nos mickjaggerianos lábios da mesma moça, chegamos ao resultado que se pode ver na celebrada capa do LP.

A ideia da capa, a frustrada primeira sessão de fotos para tentar realizá-la (o estúdio era um quarto de hotel para caminhoneiros na Régis Bittencourt que fazia as vezes de motel), a barba & cabelão do fotógrafo, o despudor desencanado da namorada-modelo, o próprio disco do Tom Zé, um ovni pós-tropicalista barrado no baile do sucesso fonográfico -tudo isso tinha um deliciosamente obsoleto sabor hippie-guerrilheiro-dadaísta, típico dos anos 60/70.

Hoje, quando conto essa história, longe de chocar minha audiência, o máximo que arranco dos meus jovens interlocutores é a indefectível pergunta: “Lavou a bolinha antes da segunda sessão de fotos?”.

Tácito Costa

Jornalista formado em 1984 pela UFRN. Trabalhou nos principais veículos de comunicação e assessorias de imprensa do RN. Foi professor da UNP, editou a revista PREÁ e coordenou o Concurso de Poesia Luís Carlos Guimarães.

4 Comments

  1. Avatar
    Ayrton Mugnaini Jr. julho 30, 2012

    Eu já sabia disso desde 1984, quando editei um fanzine independente (ASAS) sobre Tom Zé (primeiro trabalho grande sobre ele, escrito por mim e Cida Santos, hoje emérita jornalista esportiva, e Lia Nuzzi. Tom Zé nos contou que a foto era de uma boca maquiada e confirmou que realmente a intenção era fotografar o olho que não enxerga, mas na última hora ele pensou que seria uma traição com a gravadora, que sempre o tratava muito bem.

    Este fanzine trazia também a primeira grande discografia de Tom Zé, que serviu de base para a utilizada na página dele na Internet anos mais tarde.

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