Não é sempre, mas acontece

22 de julho de 2010 às 14:59 - 2 Comentários
Por Carmen Vasconcelos

NÃO É SEMPRE, MAS ACONTECE

Escrevi acima um dos versos que mais gosto de lembrar. É de Eugenio Montale. Gosto desse verso, ele fala das coisas raras e eu gosto das coisas raras, elas me dão uma sensação de sagrado. As coisas que não acontecem sempre, mas acontecem, sem “cerimônia ou maravilha”, e podem acontecer a qualquer momento. Poemas, por exemplo. Às vezes, os poemas acontecem, e não é sempre.

Às vezes eu faço poemas. Quero dizer, os poemas me fazem. Não é sempre, mas com eles aprendi algumas coisas. A proteger a sutileza com garras, portas e escuridões, mas nunca perdê-la. Os poemas têm um respeito espantado pelas coisas do mundo. Com eles aprendi a reverenciar o assombro.

Com os poemas aprendi a não temer (muito) esgarçar-me, puir-me. Aprendi a perder palavras para o mundo, sem estridência. Aprendi a não fazer incisivas afirmações, a não declarar nada de modo irreversível. Os poemas não prescindem de voltas e recomeços. Um poema de verdade se renova a cada leitura que fazemos dele.

Gostaria de fazer poemas como esses que se renovam a cada leitura. Como “A Gralha Negra em Tempo de Chuva”, de Sylvia Plath. Eu já li vezes sem conta, mas ultimamente tenho descoberto cada vez mais coisas nele. Esse poema tem sido a minha leitura mais desconcertante desafiante surpreendente.

Peço-vos, então, licença para transcrever “A Gralha Negra…” e desejo a vocês uma leitura tão assombrosa quanto a que faço cada vez que o encontro na “paisagem no interior dos meus olhos”:

“Lá no alto, num ramo firme/arqueia-se uma gralha negra toda molhada/arranjando e voltando a arranjar as penas à chuva./Não espero qualquer milagre/nem nada/que venha lançar fogo à paisagem/no interior dos meus olhos, nem procuro/mais no tempo inconstante qualquer desígnio/mas deixo as folhas manchadas cair conforme caem,/sem cerimônia ou maravilha./Embora – admito-o – deseje/ocasionalmente alguma resposta/do céu mudo, não posso honestamente queixar-me:/uma certa luz pode ainda/surgir incandescente/da mesa da cozinha ou da cadeira/como se um fogo celestial tornasse/seu, de um instante para outro, os mais estranhos objetos,/assim consagrando um intervalo/de outro modo inconseqüente/por nos dar grandeza e glória/ou até amor. De qualquer modo, caminho agora/atenta (pois isso poderia acontecer/mesmo nesta paisagem triste e arruinada); descrente,/mas astuta, ignorante/de que um anjo se decida a resplandecer/repentinamente a meu lado./Apenas sei que uma gralha/ordenando suas penas negras pode brilhar/de tal maneira que prenda a minha atenção, erga/as minhas pálpebras, e conceda/um breve repouso com medo/da neutralidade total. Com sorte/viajando teimosamente por esta estação/de fadiga, acabarei/por juntar um conjunto/de coisas. Os milagres acontecem/se gostares de invocar aqueles espasmódicos/gestos de luminosos milagres. A espera começou de novo,/a longa espera pelo anjo,/por essa rara, fortuita visita.

2 Comentários

  1. Jarbas Martins
    22 de julho de 2010

    Carmen não escreve: faz milagres. Por que é poetisa.Multiplica pães em forma de poemas, crônicas, ensaios.Como rotular textos como este, ó bajuladores da Teoria Literária ? Quando se ausenta espalha seus signos, que giram como um carrossel da minha infância angicana.Sua Presença…
    Ontem eu vi Carmen: uma Epifania.

  2. Carmen Vasconcelos
    22 de julho de 2010

    Jarbas, seu incentivo e gentileza se fazem bálsamo.

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AGENDA

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    Artistas plásticos e visuais ainda podem se inscrever no Edital de Ocupação das Salas de Exposição da Pinacoteca Potiguar para todo o ano de 2012.

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    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
    • Jóis Alberto: Poema muito bom! - "Je f'rai un domain où l'amour sera roi"
    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Jarbas Martins: Muito bom, Bortolotto.Mas eu não trocaria um parágrafo de Adriano de Souza, ou um capítulo de um ciberfolhetim de Carlão, por tua prosa requentada. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente