Crônicas e Artigos

Não se abandona o barco

Praia de Maracajaú – Natal

“A ação humana, quando lhe precede a grandeza, tem, como no sino da aldeia de Fernando Pessoa, um som de repetida já à primeira pancada.” (Francisco Fausto Paula de Medeiros, in “O vinho negro da paixão”, 1998).

O meu amor pela arte, destacadamente a literária, equivale à paixão que nutro pela ruptura e pela quebra de paradigmas, alguns ultrapassados pela própria natureza e pelo tempo, outros necessitando de intervenções humanas certeiras, ousadas e decididas. Sou dos que pensam que não vale a pena a acomodação e não se deve abandonar o barco das transformações, até porque ele singra os mares tendo como comandante o ser intimorato que reconhece o seu papel e a sua missão, não se acovardando diante das intempéries e armadilhas que teimam em se colocar à sua proa, nas grandes travessias.

Quanto à arte, à grande arte, acredito que nenhum dos que a produziram se deixaram vencer, algum dia, pelas intimidações dos medíocres ou pelos falsos chamados dos hipócritas. E existem muitos desses na (tentativa de) arte literária, jamais logrando êxito quando não se aproximam da verdade visceral que faz com que, de súbito, apareça a beleza e o profundo reflexo da humanidade, do humanismo.

Os burocratas da arte são assim. Falseiam o suporte e simulam tintas e cores e palavras e sons que àquele se agregarão. Mas não há magia. Não há sangue limpo nesses “artistas”. Não há coragem, posto que abandonam o barco no primeiro instante em que se deparam com a possibilidade da beleza. Decidem não ver o que há além de um horizonte misterioso e alvissareiro. Não se encantam. Não ultrapassam o limite de seus quadriláteros miseráveis. Fazem circunvoluções em torno do próprio umbigo e da cadeira cheia de cupins, guardada no quarto que desaba. Jamais imortalizam imagens elevadas. Nem estéticas e nem éticas. O lixo da história e do tempo perdido se acumula em suas veias ressecadas, ressentidas e acinzentadas.

Nos mergulhos que experimentei por esses dias, lá nos verdazuis mares de Maracajaú, pude experimentar a importância de prosseguir no barco, mesmo que o motor entre em pane e que a tempestade pareça se aproximar. Não desistir. Não abandonar a embarcação. Seguir enlouquecido de alegria, diante da possibilidade de alcançar águas mais cristalinas e a beleza da visão subaquática, ali onde se encontram as sedutoras e sensuais combinações de cores e de luzes. Fui ao mergulho e mergulhei. Não quis nem saber quais perigos existiam ao redor. Talvez algum peixe velho e cheio de dentes disposto a me rasgar ao meio. Não quis nem saber. Rasgaria-o.

Não quero saber. Não quero saber de algo que não se aproxime da verdade expressa na arte. Não quero viver sem essa verdade. Não vou. Atenderei sempre ao que a intuição disser que vale a pena ser perseguido nesse caminho. O caminho marítimo da arte literária é o caminho em que quero estar. Posso até errar e eventualmente ter que percorrer mares em sentido oposto, mas não ancorarei em nenhum cais onde não esteja esse desejo, essa madeira náutica firme e indestrutível, esse móvel íntimo, essa força que se espraia pela alma. Antes disso ser alcançado, jamais abandonarei a nau que guio e que me guia, velas ou motores, rochas e mares e ventos e faróis que compõem a tela da vida inteira. É nesse rumo que todas as coisas ganham sentido e norte. É esse norte que sigo e seguirei.

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Lívio Oliveira

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