Crônicas e Artigos

Não serve pra nada

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A poesia não serve para nada.

É diferente de qualquer outro tipo de manifestação artística e outro tipo de olhar sobre as coisas, reais e imaginárias.

É diferente da música, propriamente dita – aquela feita com o auxílio de instrumentos – porque os ouvidos estão sempre abertos. São janelas escancaradas a escutar.

Já a poesia, essa precisa do olhar.

Aquele que não se encerra simplesmente em algumas piscadas. Tem de ser um olhar por dentro.

A poesia não é uma atividade prazerosa.

É trabalho.

Duro e sem salário.

E pouco importam as circunstâncias que levam a esse trabalho.

Poesia não é antídoto contra dor de corno; nem cura de ressaca.

Poesia não é carta de amor. Nem de desamor.

Poesia é arrancar a unhas o ritmo contido no tempo.

E matar o tempo, que é narrativa pura e simples.

Poesia não serve para deixar ninguém famoso; ou para aparecer em foto ou listinhas.

O título de poeta geralmente é exposto nas prateleiras de quem mais fala ser poeta e menos escreve.

Repare bem nos poetas.

São, por vezes, tímidos. Quietos. Econômicos na verborragia metalinguística do seu labor.

Amargurados em sua condição de enxergar o mundo sob a ótica de uma realidade pouco compreendida e bastante ignorada.

Escrever poesia é fazer uma corrida de costas, olhando nos olhos dos chavões que jorram fáceis e são convidativos.

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É cuspir um a um, e falar a mesma coisa, mas de um jeito único. Falar sobre nada e dar importância às coisas sem importância.

Aliás, poesia é o desnudamento da palavra, não do poeta.

Poesia é se refugiar no mato, para encontrar no meio das ervas um trevo de quatro folhas. Ou inventar um, que seja.

Poesia não é crença, nem faz milagres, nem salva ninguém.

Por isso que a poesia não serve para nada.

O mundo está muito ocupado para carecer de poesia.

Quem diabos quer saber de Bob Dylan e de T.S. Eliot?

Quem quer saber de Wislawa Szymborska?

A gente não sabe nem pronunciar direito o nome da criatura!

Dela eu peço emprestado um poema para encerrar essa crônica.

Somos filhos da época/ e a época é política/ Toda as tuas, nossas, vossas coisas/ são coisas políticas/ Querendo ou não querendo,/ teus genes têm um passado político,/ tua pele um matiz político,/ teus olhos, um aspecto político./  Até caminhando e cantando a canção/ você dá passos políticos/ sobre um solo político./ Versos apolíticos também são políticos./ e no alto a lua ilumina/ com um brilho já pouco lunar./ Ser ou não ser, eis a questão./ Qual questão, me dirão./ Uma questão política./ Não precisa nem mesmo ser gente/ para ter significado político./ Basta ser petróleo bruto,/ ração concentrada ou matéria reciclável./ Ou mesa de conferência cuja forma/ se discutia por meses a fio:/ deve-se arbitrar sobre a vida e a morte/ numa mesa redonda ou quadrada./ Enquanto isso matavam-se os homens,/ morriam os animais,/ ardiam as casas,/ ficavam ermos os campos,/ como em épocas passadas/ e menos políticas.

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Sheyla Azevedo

Comentários

2 comments

  1. José 18 outubro, 2016 at 17:27

    Fico deslumbrado, quase como numa catarse, diante de tanta sensibilidade literária dessa cronista Potiguar.

  2. Alexandre Carvalho 19 outubro, 2016 at 11:08

    Sheyloca, poesia é degustar um elaborado cardápio de palavras e suas combinações possíveis, apreciada por paladares sensiveis . Nestes tempos de fast food de 140 caracteres é um exercício necessário para alimentar o cérebro e a alma.
    Para variar, um belissimo texto.
    Beijo

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