Narrativas de Pablo Capistrano namoram o fantástico

Dos três contos que compõem “É preciso ter sorte quando se está em guerra”, novo livro de Pablo Capistrano, dois seguramente se filiam “espontaneamente” ao gênero fantástico. Referimo-nos a “A Escada de Jacó” e “O Sutra do Girassol”. “Saudades do amor”, porém, guarda um clima que, embora se desenrole em terreno realista, resvala ao fim numa fronteira tão indistinta que irmana seu personagem à mesma grei dos protagonistas das narrativas fantásticas já aludidas.

É ao tema do duplo, elemento clássico das narrativas fantásticas desde Jean-Paul Richter e T.E.A. Hoffmann, que se filia o primeiro conto, remetendo o narrador a confessar um crime que lhe parece não um delito, sim uma redenção. E só a novela gótica oferece terreno propício para essa espécie de alucinação. Não obstante essas raízes clássicas, “A Escada de Jacó” lida com elementos típicos da pós-modernidade, como sites de relacionamento e e-mails, aliados a ocorrências aparentemente gratuitas mas revestidas de uma força irresistível, como um toque fatídico do destino. A referência direta ao mito bíblico, à celebrada “luta com o anjo” travada por Jacó, lança um pouco mais de luz a essa história que, sob alguns aspectos, se mostra vacilante, como se o narrador hesitasse ante a fragilidade do seu argumento.

“Saudades do amor” remete diretamente às questões de gênero, talvez a marca mais “pessoal”, por enquanto, de nossa época. A cegueira da pulsão erótico-amorosa, de fonte freudiana, mostra sua fragilidade. Como no romance “Libido aos pedaços”, de Carlos Trigueiro, a pulsão do desejo se confunde. Mas não lhe é próprio retrair-se, terá de ir até as últimas consequências, deparando frustração e solidão.

“O Sutra do Girassol”, narrativa final, abre caminho, dessa vez, na companhia de um ser fantástico que lembra muito de perto o Odradek kafiano ou o Horlá do último Guy de Maupassant. Em ambos os casos, se trata de um sucessor do homem na escola zoológica mas, na pena de Pablo Capistrano, esse tema ganha contornos mais prosaicos, destituídos que são de qualquer condimento trágico. E tudo isso acontece após um porre a que se dá o protagonista, de nome Ariel, justo no momento em que sobrevém uma convulsão cósmica subitânea. A partir daí a vida do personagem se transforma tão profundamente que ele se torna irreconhecível aos amigos e passa a se nutrir de um único pensamento: a superação do homem atual. E esse ser começa a rondar fantasmagoricamente a vida do transtornado Ariel. Vê-lo parado no corredor, deixa o pobre Ariel atônito, como aquele narrador que depara com um ser estranho que se autonomeia Odradek ou Horlá, conforme a narrativa selecionada.

Os personagens de Pablo Capistrano são, como ele, jovens saudáveis, joviais, otimistas, que costumam se enturmar nos fins de semana para frequentar bares, boates, casas de amigos etc. Os sebos e as livrarias também costumam estar no caminho por onde trafegam, como ilustra a triste história de Rudá e sua paixão equivocada.

Afora isso, o autor se dá toda a liberdade providencial que a ficção põe ao seu alcance e, ao fazer suas escolhas, suas preferências recaem sempre sobre o insólito que se disfarça por trás da normalidade aparente. E quem poderia criticá-lo, se esse é justamente o trabalho do escritor? No caso de Pablo, trata-se não apenas de um escritor bem informado do ponto de vista literário, mas também de um filósofo, o que lhe permite recuar para a condição de um “terceiro narrador” que se entrega a lucubrações de ordem filosófica sobre o que é, ou sobre o que são os diversos sentidos do amor, inclusive em sua tríade grega, e que o faz ainda ser coisas que mal se adivinham.

O diálogo com outros textos literários é uma constante na escrita de Pablo Capistrano. Nesse seu novo livro, isso se evidencia no conto “Saudades do amor”, quando Rudá, após se embriagar literalmente, se embriaga efetivamente, agora com a leitura do celebrado poema “O Uivo” (“Howl”), de Allen Ginsberg, que é reproduzido na tradução de Claudio Willer. Isso confere ao livro um ar se não cosmopolita, ao menos sem compromissos explícitos com a aldeia “tolstoiana”.

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