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Naturalmente, mãe?

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É naturalmente difícil ser mãe, ainda mais quando insistimos em propagar a ilusão da maternidade compulsória, O MITO DO INSTINTO MATERNO; isso é de uma violência sem tamanho, retira-nos o status de indivíduo e cria uma solidão imensa.

Ou sobre dutos mamários irrigados de seiva bendita

Antes de tudo, quero deixar claro que eu amo meu filho. Profundamente. Desde o dia em que soube da gravidez, eu o amei. E amarei até o fim dos meus dias.

Ressalva feita, vamos ao mês de maio, mês das mães, época do ano em que a romantização em torno da maternidade atinge picos insuportáveis.

Cada mãe vive a experiência da maternidade de modo muito singular. Entretanto, é muito comum a aplicação de juízos de valor em torno dos modos de criar um filho, da maneira de ser mãe.

Não é fácil fugir à regra: seja optando por uma cesariana, ou por não amamentar a criança. Há sempre mil olhos postos sobre nós, como se nosso corpo e nossas necessidades não fossem válidas.

Os que estão de fora, no entanto, desconhecem os mistérios que passam pela mente e pelo coração de uma mãe. Nós mesmas, às vezes, preferimos ignorar nossa humanidade que, não raro, coloca-nos diante de sentimentos controversos, como rejeição, medo, angústia, raiva, todos voltados àquele serzinho para quem deveríamos ser perfeitas. Mas não somos.

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A culpa e o amor andam juntos, fazem ciranda em nosso coração, ora com rastejo suave de pés, ora deixando ecoar o som dos grilhões que apertam nossos tornozelos.

E, por mais que essas sensações não sejam generalizadas e durem apenas alguns segundos, são mais comuns do que vocês pensam, e não nos tornam mães desnaturadas. Humanas, apenas.

Culpa enraizada na alma

A alegria secreta de colocar a criança na creche para, no meio de suas obrigações, botar as pernas pra cima e só pensar em si mesma; o desejo recôndito de que o bebê durma por cinco horas seguidas, ainda que a recomendação seja de que o acorde após três horas para alimentá-lo; escolher lavar uma pilha de louça suja ao invés de ficar com o filho, porque simplesmente significa que você pode ter uma escolha, além da de ser mãe; fingir que não ouviu o filho chorando de madrugada, obrigando o pai a niná-lo, na tentativa de recuperar algumas das milhares de horas de sono perdidas desde que engravidou.

Eu poderia descrever inúmeras situações em que uma mãe, teoricamente, desce do pedestal que lhe foi culturalmente levantado, para se colocar na posição de pessoa comum, com necessidades individuais e desejos complexos.

E se, ao ler essas descrições, passa por sua cabeça que tudo é feito envolto num manancial de prazer, sinto informar que não: há muita culpa em tudo. Ser mãe é a possibilidade de culpa enraizada na alma para toda a vida. Seja por qual motivo for.

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“Houve um dia em que tomei quase um garrafão de vinte litros de água, eu tinha que dar leite, toda mulher dava”.

Por mais ‘perfeita’ que você seja. A culpa e o amor andam juntos, fazem ciranda em nosso coração, ora com rastejo suave de pés, ora deixando ecoar o som dos grilhões que apertam nossos tornozelos.

Sonhos podem virar um inferno

É naturalmente difícil. E se torna ainda mais, quando insistimos em propagar a ilusão da maternidade compulsória, o mito do instinto materno.

Isso é de uma violência sem tamanho. Retira-nos o status de indivíduo, e, com essa despersonalização, fica uma solidão imensa.

Lembro-me de quando eu estava grávida de Iago, os sonhos tecidos, o sono intermitente. Na época, participei do Programa de Aleitamento Materno no hospital aqui de Currais Novos. Nas aulas, aprendi que toda mulher dá leite. Tome água, tome muita água. E o leite virá.

Iago nasceu um meninão. Com muita fome. E o meu leite não conseguia satisfazê-lo. A primeira semana foi um verdadeiro inferno. Eu não aceitava dar muito suplemento, temia que ele rejeitasse o meu leite, quando – e se – viesse com força.

O pouquinho de suplemento que eu lhe dava era em copo descartável, com receio de que ele rejeitasse o bico do meu peito depois. Houve um dia em que tomei quase um garrafão de vinte litros de água, eu tinha que dar leite, toda mulher dava. Mas eu não.

Tive que me conformar com o fato de que mentiram pra mim. De que tudo não era tão perfeito assim. Tive que lutar pra não me achar “menos mãe” por isso.

Mas acho que essa é uma luta de todas, seja qual for a limitação que a motive a se culpar por ser simplesmente quem é.

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“Talvez ele ainda não saiba, nem sequer intua, que é o filho imperfeito de uma mãe imperfeita”.

Abundância

Ainda amamentei Iaguinho durante seis meses. Tornando meu leite o complemento da sua alimentação,e não o protagonista, pude vivenciar a experiência dos dutos mamários se irrigando de seiva bendita, formigamentos internos incríveis que me faziam sentir tão plena.

E testemunhar a dor e a delícia de amamentar em abundância, o leite se espalhando pelos cantos da boca do meu filho, correndo pela minha pele, chegando ao chão, uma fonte de sonho, o oásis enfim conquistado.

E depois voltar à rotina normal, em que meu leite não era o prato principal.

Adivinha quem sobreviveu? Iago e eu.

Talvez, nos seus nove anos de vida, ele ainda não saiba, nem sequer intua, que é o filho imperfeito de uma mãe imperfeita. E que isso é normal. E que, só dentro da imperfeição, é que o amor é possível.

Eu sigo tentando, no dia-a-dia, descosturar minhas culpas, remendar meus erros, cerzir recomeços. Viver. Com toda a humanidade que me cabe.

Mãe de Iago, mãe d’agua, Iara. Antes de tudo.

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Iara Carvalho

Comentários

1 comment

  1. EDILBERTO CLEUTOM DOS SANTOS 3 maio, 2017 at 18:40

    Muito bom! amemos a nossa imperfeição, porque ela nos torna humanos!

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