Nem tudo é Montanha

8 de julho de 2010 às 22:15 - 3 Comentários
Por Carmen Vasconcelos

… Já o despojamento é uma coisa bem mais difícil. Agora mesmo preciso me despojar de um bocado de cansaço para escrever este escrito. A noite às vezes me quer alerta, e eu não tenho nenhuma ingerência sobre as decisões da noite. Mas no dia seguinte, neste dia seguinte, o resultado é desastroso. Meço cansaço em quilômetros. Enfim, despojar-se é custoso, que o diga o meu São João da Cruz, que se despojou todo, se desanuviou todo, para encontrar-se em Deus.

Às vezes, na ânsia de ser, a gente acaba assumindo personas demais, papéis demais e não consegue dar conta deles. As personas tomam conta da gente, mesmo quando não dão certo, mesmo não se realizam como queríamos. Podem até virar obsessões. A gente fica dependente delas, de tal modo crente nelas, de tal modo inundado delas, que não consegue nem imaginar a salvação no despojamento. Pois a salvação existe, está no despojamento difícil e saudável. Quando a gente se despoja de um monte de auto-enganos, sempre sobra alguma coisa e essa alguma coisa somos nós. O despojamento (valei-me São João da Cruz) é uma subida. Acredite, é um monte bem alto, a se escalar em noites escuras da alma.

O nós às vezes se esconde por trás das personas lindas e cheias de glamour que sonhamos, às vezes é engolido por elas. Mas tem uma hora que a gente descobre nas personas apenas véus de maia, ilusões. E a gente tem de tirar o nós lá da neblina. Não vale a pena jogar fora aquilo que somos pelo apego ao que não somos.

O melhor é admitir-se. Era muito bom sermos perfeitamente amados, tremendamente lindos, bem sucedidos, bem resolvidos, muito talentosos, totalmente saudáveis, com filhos ainda mais tudo isso e por aí vai. Não somos, pelo menos, não somos todos assim. Uma ínfima parte da população pode até ser e quem o for, goze das suas personas. Quem não for tudo isso, despoje-se de seus fingimentos, principalmente para si mesmo, faça-se esse favor. Não negue os seus desejos, mas também não seja escravo do impossível, principalmente se aquilo que você deseja depende da vontade alheia. É válido correr atrás dos sonhos, mas também tem validade despojar-se deles. Tudo depende do momento e do discernimento.

É preciso coragem para tudo nesta vida, até para desistir. É preciso um monte de coragem para despojar-se. São João da Cruz, co-fundador da ordem carmelita descalça, é o santo do despojamento, despojamento esse que, para ele, tornou-se a senda mística, a subida espiritual do Monte Carmelo, o encontro de Deus.
Já o despojamento do qual falo não é místico, mas racional. Não busca Deus, mas a humanidade em nós. São João da Cruz é uma inspiração, porém a minha devoção por ele é literária, não mística. Já está de bom tamanho encarar-se, esse despojamento é tão difícil quanto o outro e, se não proporciona um encontro com Deus, seguramente, às vezes, esconjura demônios. Em suas obras, São João da Cruz mostra os passos do despojamento místico. Nós, os que querem despojar-se para nos recuperar a nós mesmos, não sabemos às vezes por onde começar. Mas é bom que comecemos logo, antes que as personas nos engolfem.

3 Comentários

  1. Jarbas Martins
    9 de julho de 2010

    Li sua belíssima crônica com a mesma devoção que dedico à leitura da grande poesia, como a de São João da Cruz.Beijos.

  2. Carmen Vasconcelos
    9 de julho de 2010

    Gratíssima pelo carinho, Jarbas.

  3. Tião Carneiro
    10 de julho de 2010

    Prezada Carmen Vasconcelos,
    Não tenho seu e-mail, por isso estou ocupando este espaço, hoje, 10 de julho, para me reportar a um assunto, digamos, melindroso. Melindroso e vegonhoso. Pra mim, evidentemente.
    Ocorreu o seguinte, Carmen. Escrevi um romance. O bicho chama-se “A Senhora 2 e o Senhor 2″. Pois muito bem! A Daniela, editora de cultura do JH, publicou, na edição de ontem, 9/07, uma entrevista comigo. A entrevista se deu por e-mail, tendo em vista ela se encontrar acamada. Na ânsia de me ver nas “folhas”, respondi-lhe de imediato, sem a devida revisão. Pois muito bem! Lá pras tantas, a Daniela indaga: “Quais os escritores potiguares que você admira?” Respondo-lhe, dizendo que, entre outros, admirava o seu texto, dando-lhe nota 10. Só que, Carmen, a chamei de Carmem, assim mesmo, com “m” no final. Como desgraça pouca é besteira, taquei-lhe um “Lúcia” de sobrenome.
    Pode um negócio desse? A Daniela, coitada, em sua mantanhosa bondade, confiando em meu taco, publicou do jeitinho que escrevi (perdão, viu, Daniela?).
    Por favor, Carmen, desculpe este pobre escrevinhador. Você não está me vendo, mas me encontro ajoelhado, olhos no além, mãos unidas, no clássico gesto de contrição.
    Você vai me perdoar, não vai?
    Do admirador,
    Tião

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    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
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POESIA

    Aconchego
    11-02-2012 às 14:37 - Comentar

    Por Suely Nobre Felipe

    Quando partires do meu tempo,
    Leva-me entrelaçada em teus braços,
    Dividas comigo o teu novo regaço,
    Deixe-me provar da leveza do teu céu,
    Onde ali, repousada entre nuvens,
    Desfiarei nossos melhores sonhos.
    E, por entre os fios dos nossos cabelos
    – Já não tão negros como a noite,
    Confundiremos deliciosos segredos.
    Pois, não tardará o tempo
    Em que haveremos de desfiar
    Capuchos de solidão.

    ACONCHEGO

    Suely Nobre Felipe

    __________

    Quando partires do meu tempo,

    Leva-me entrelaçada em teus braços,

    Dividas comigo o teu novo regaço,

    Deixe-me provar da leveza do teu céu,

    Onde ali, repousada entre nuvens,

    Desfiarei nossos melhores sonhos.

    E, por entre os fios dos nossos cabelos

    – Já não tão negros como a noite,

    Confundiremos deliciosos segredos.

    Pois, não tardará o tempo

    Em que haveremos de desfiar

    Capuchos de solidão

    COMENTÁRIOS

    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente
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    • Marcos Silva: Gosto muito daquela canção de Paulinho da Viola que diz: "Faça como o velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar". - À sombra da ditadura
    • gustavo de castro: E quem disse que os valores cristãos é que devem predominar? Foi Cristo ou os cristãos? - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Anchieta Rolim: Oreny, bela poesia! - Vento nordeste
    • Anchieta Rolim: Concordo marcos, inclusive quando João Carlos voltou da guerrilha continuou sua luta junto a artistas como Gonzaguinha, Paulinho da Viola e vários outros... Fazia parte do grupo o ex-jogador Afonsinho (aquele que lutou pela lei do passe livre para os jogadores de futebol), e também o cantor e compositor Potiguar Mirabô Dantas. - À sombra da ditadura
    • Marcos Silva: Certamente, existem ONGs sérias. Infelizmente, a desqualificação geral tende a se tornar corriqueira. Lembro que ela aparece com todas as letras no filme Tropa de elite (I). - Brado retumbante