Neruda, o feiticeiro!
6 de junho de 2010 às 22:15 - 2 ComentáriosNesses dias em que viver está cada vez mais dificultoso é sempre bom rever O Carteiro e o Poeta, do diretor inglês Michael Radford, filme delicado, sutil e poético.
Nascido numa ilha de pescadores na Itália, cuja população é composta de analfabetos, Mario Ruoppolo, desempregado e semiletrado passa a trabalhar no correio para atender a um único destinatário, o famoso poeta chileno Pablo Neruda que fora exilado de sua terra natal, o Chile, por sua posições políticas.
Dia após dia, o carteiro sobe em sua bicicleta a encosta íngreme para entregar a correspondência do poeta.
Mario desde o primeiro momento encanta-se com Neruda por acreditar que o poeta exerce verdadeiro fascínio sobre as mulheres com seus “poemas de amor”.
Aos poucos, o afeto cresce entre os dois, despertando gradativamente em Mario a capacidade de pensar, de criar e de fazer poesia.
Há uma passagem no filme onde Mario pergunta ao poeta “o que são metáforas?”. Neruda, rindo: _ Metáforas?… Metáforas são… Como posso explicar? Quando se fala uma coisa comparando-a com outra.
Mario: _ Isso é algo que se usa na poesia?
Neruda: _ Sim, também.
_ Mario: _ Por exemplo?
Neruda: _ Por exemplo, quando se diz “o céu chora” o que está querendo dizer?
Mario: _ Que está chovendo.
Mario pergunta ao poeta se também é uma metáfora: “O cheiro de uma barbearia me faz soluçar em voz alta”.
Neruda: _ Não exatamente.
Mario: _ Também gostei quando escreveu: “Estou cansado de ser um homem”. Isso também acontece comigo, mas nunca soube como dizer.”
Mario: _ “Por que o cheiro de uma barbearia me faz soluçar em voz alta?”.
Neruda: _ Você vai ver, Mario, eu não poderia lhe dizer com palavras diferentes das que usei. Quando você a explica, a poesia fica banal. Melhor do que qualquer explicação é a experiência de sentimentos que a poesia pode revelar a uma alma suficientemente aberta para entendê-la.
Em Mario é despertado o desejo de ser poeta e ele indaga?
_ Eu também gostaria de ser poeta… Como alguém vira poeta?
Neruda: _ Tente caminhar lentamente pela costa até a baía e olhando á sua volta.
Mario: _ E elas virão para mim, as metáforas? Certamente, afirma Neruda.
Um dia em que o poeta recitava os versos:
Aqui na ilha há tanto mar,
O mar e mais o mar.
Ele transborda de tempo em tempo.
Diz que sim, depois que não,
Diz sim e de novo não.
No azul, na espuma, em galope
Ele diz não e novamente sim.
Não fica tranqüilo, não consegue parar.
Meu nome é mar ele repete
Batendo numa pedra, mas sem convencê-la.
Depois com as sete línguas verdes
De sete tigres verdes, de sete cães verdes,
De sete mares verdes
Ele a acaricia, a beija e a umedece;
E escorre em seu peito
Repetindo seu próprio nome.
Mario diz que se sentiu estranho enquanto o poeta recitava com as palavras indo para frente e para trás como o mar. “Na verdade me senti enjoado. Por que… Não sei explicar. Eu me senti… Como um barco balançando na volta dessas palavras”.
Para surpresa de Mario, o poeta lhe diz que ele acabara de criar uma metáfora.
Quando Mario se apaixona por Beatrice passa a inventar metáforas para conquistá-la.
Merece igualmente destaque a cena em que a tia de Beatrice entra em seu quarto e pergunta o que ela está fazendo.
Beatrice diz que pensando em metáforas e a tia quer saber que metáforas ele fez para ela.
E Beatrice: ¬ Fez? Ele disse! Disse que meu sorriso se espalha como borboletas”.
Seu sorriso é como uma rosa,
Uma lança descoberta,
É o bater das águas
Seu riso uma onda prateada repentina
A tia já nervosa insiste em saber o que ele fez depois “pois seu carteiro, além de boca tem duas mãos”. A tia fica ainda mais estupefata ao saber que o carteiro não encostara a mão em Beatrice e que trocaram apenas palavras e olhares, mas Beatrice sentiu como se ele tivesse tocado em seus cabelos. “Já chega”, diz a tia: “Quando um homem começa a lhe tocar com palavras, não está longe de lhe tocar com as mãos”.
A sobrinha lhe diz que não há nada de errado com as palavras e a tia responde: “Palavras são as piores coisas que existem. Eu prefiro um bêbado no bar tocando seu traseiro do que alguém que lhe diz: “seu sorriso voa como uma borboleta”.
E Beatrice lhe corrige dizendo que é: “espalha-se como uma borboleta”.
Dona Rosa, sua tia, vai se queixar a Neruda dizendo-lhe que Mario seduziu a sua sobrinha com metáforas… “Ele a deixou tão quente quanto um forno com suas metáforas… Sua boca está cheia de feitiços”.
A complicação só aumenta quando Dona Rosa, deduz que Mario está a desfrutar de Beatrice ao ver o poema:
“Nua, você é delicada como um grão de trigo
Nua, você é azul como uma noite cubana
Você tem videiras e estrelas no cabelo
Nua, você é vasta e dourada como o verão numa igreja”.
Há uma cena no filme, em que o carteiro, na casa onde se hospedara Neruda, agora vazia, grava de forma singela a presença viva da poesia, mas principalmente do poeta. Mário inicia a gravação com uma mensagem para Neruda: “Quando você foi embora pensei que tivesse levado as coisas belas daqui, mas agora percebi que deixou algo para mim”.
E Mario sai pela ilha a captar o barulho das ondas do mar, o som do vento nos rochedos, o badalar dos sinos, a batida do coração do filho ainda no ventre da mãe, o farfalhar dos arbustos e das redes tristes do pai pescador e a noite estrelada na ilha:
Número um:
ondas em Cali Sott:. Pequenas.
Número dois: Ondas grandes.
Número três: Vento nos rochedos.
Número quatro…Vento nos arbustos.
Número cinco… Redes tristes do meu pai.
Número seis… O sino da igreja. Com padre.
“Belo. Não havia notado antes
como era tudo tão belo”!.
Número sete… Céu estrelado na ilha.
Número oito… O coração de Pablito.
Os olhos de Mario captam a poesia presente na vida mesma da pequena ilha.
Como bem disse Mario na cena em que Neruda se recusa a fazer uma poesia para sua amada Beatrice Russo: “a poesia não pertence àqueles que a escrevem, mas a quem precisa dela”.
Mario concebe seu poema longe do Mestre, ele agora mestre!



2 Comentários
Filme delicado, lindo- chorei mto, já sabia q o ator morria de verdade dias depois do final do filme- mto triste.
Tão frágil ele estava…
O Neruda é fantástico. Agradeço a indicação do filme. Vou alugar.