Neve, Literatura e Tarso Cadore
10 de setembro de 2009 às 22:46 - ComentarTenho um amigo que sonha ser escritor. É um inédito.
É assim que ele se lamenta, choramingando, quando me telefona. “Meu Deus, a cada dia fico mais velho e mais inédito” – a virgindade editorial pesando-lhe como um cancro.
Vez por outra meu amigo se flagra em surtos que ele chama psicóticos ao constatar, frustrado: por mais que tente ser criativo, a realidade sempre o supera.
Toda vez que se acha suficientemente abastecido da tal inspiração e se ajeita na cadeira para iniciar o romance que vai mudar a história da humanidade leva uma rasteira da vida real.
Seu tarja preta muitas vezes é as páginas de jornal, onde repousam também, habitadas em colunas e fotografias, os motivos de sua frustração.
Da última vez que julgou-se pronto para o “start” que o levaria à glória das academias deu de cara com aquela notícia anunciando o projeto revolucionário de retirar as pedras portuguesas do calçadão de Ponta Negra a fim de permitir às mulheres passear ali de salto alto.
Daria um conto lindo, acha ele. Meu amigo pensou num concurso Miss Brasil, talvez um Miss Universo, promovido ali, no calçadão de Ponta Negra, com todas as beldades exibindo sua destreza e sua malemolência num salto quinze. Emoldurando tudo, o nosso Morro do Careca.
Mas seria só uma emenda – a idéia original não fora dele. E ele detesta co-autoria.
Agora que se preparava para o ritual que o defloraria, editorialmente falando, novo debacle.
Me ligou desiludido hoje quando leu sobre o projeto de lei apresentado pela vereadora Sargento Regina sugerindo a criação do evento festivo “Natal o ano inteiro”
Nada contra a iniciativa, me disse ele, mas a proposta de criar neve artificial em datas e horários programados, uma vila encantada com Papai Noel e renas decorativas, o fez mergulhar numa depressão profunda.
Como eu ou Gabriel Garcia Marquez não pensamos nisso antes? – ele bradava ao telefone, na hora do café.
Suspeito que ele vivia mais um momento “tarso cadore” quando elocubrou: você já pensou tudo isso em Ponta Negra? As meninas desfilando no calçadão sem pedras portuguesas, de salto quinze, e um Papai Noel descendo o Morro do Careca num ski-bunda? No pé do morro, renas decorativas…Na hora de premiar a nova Miss Universo helicópteros derramando sobre nós neve artificial. No palco ao lado, a banda Grafite tocando, a emoção transpirando, flor da pele mesmo, “We are the Champion”…Queria ver tirarem a Copa do Mundo daqui???
Não sei se ele chorava ou se ria, mas enchi o peito de coragem e dei meu diagnóstico, pondo fim à novela: seu caso, amigo, é de internação ou de academia de letras mesmo.


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