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Nine fingers

Foto Ricardo Stukert

A dureza da vida nos ensinou a sentir empatia pelos outros.

Fotografia de capa: Ricardo Stuckert

Era uma tarde ventilada e caminhávamos pelas ruas do bairro de Petrópolis. O Governo Lula estava em seu apogeu com o crescimento econômico e sucesso nas políticas sociais.

Com a criação de novas universidades públicas; aumento de pobres nas universidades e faculdades privadas, através do financiamento governamental; a economia estável; mais pessoas viajando de avião e eu e meus companheiros de almoço, Mário Ivo, Danielle Brito e Augusto Lula, naquele momento e frente a essa nova realidade, brincávamos sobre nosso presidente ter uma coluna no New York Times.

Qual seria o nome dessa coluna? Lançávamos o desafio uns aos outros. E eu, num raro insight publicitário, disse: “Nine Fingers”. Todo mundo riu e concordou.

Nada mais emblemático no companheiro Lula que uma mão que falta um dedo. Símbolo de uma classe sofrida que labuta e, física ou metaforicamente, está sempre a correr riscos de perder dedos, mãos, pés e pernas. Devorados pelo capital e sua voracidade em lucros. Não precisamos ir longe para encontrar um exemplo.

A indústria têxtil – que tem um pretenso presidenciável, ávido por exaltar benesses do capital e da iniciativa privada – é uma das principais devoradoras de suas costureiras. Todos os dias são obrigadas a cumprir metas desumanas e trabalhar em máquinas que roubam o vigor do físico em poucos anos. Não apenas seus dedos são comprometidos, mas o corpo e a mente também.

O sujeito só omite no discurso que as benesses do capital são excelentes para uma pequena casta de empresários, que tentam enfraquecer o poder do Estado com discursos neoliberais, enquanto enchem os bolsos com empréstimos e financiamentos públicos, do BNDES.

Nine Fingers_SheylarPorque oriundo das raízes que nos fundam 

Mas, voltando ao personagem principal dessa história. Naquela tarde de conversa agradável, em que nós quatro dávamos vazão a sonhos coletivos e imaginávamos que Lula seria um estadista copiado em todo o mundo, jamais poderíamos supor o pesadelo que acontece agora, pelos rumos que a direita raivosa e inconformada tem orquestrado – sob as bênçãos de uma classe média ressentida e dos “protofascistas bolsonarianos”, que bradam insanidades e exaltam militarismo míope e ódio classista.

Tudo sob o manto de um golpe institucional “com o supremo com tudo” que estamos vendo acontecer descaradamente, com a ajuda e manipulação das grandes corporações de comunicação.

Em menos de quinze anos, saímos da alegria de deslumbrar um desenvolvimento nacional que contemplava os pobres, ao espanto de vermos antigos direitos sendo destroçados pela classe política.

Haja vista pensarmos que em tão pouco tempo a “austeridade” caquética do golpista Temer e a bancada legislativa da bala, do boi e da bíblia conseguiram derrubar conquistas trabalhistas e agora lutam pelo desmonte da previdência. Porque não basta “desdemocratizar” o presente, é preciso perpetuar a miséria no futuro.

No início desta semana, eu pensava sobre essas coisas e escrevi algo numa rede social acerca da situação tão precária em que se encontra nossa democracia; das ameaças contra os sonhos, o presente e o futuro dos brasileiros e que agora compartilho neste espaço.

Eu pensei no dono daquela coluna no New York Times e de como é estar preso. Encarcerado por um sistema seletivo, que pune uns e outros não numa operação de um juiz partidário, que até agora só avançou com sua “justiça” contra um único partido e seus filiados.

Pensei no Lula porque sei que ele, mesmo sem nunca ter me visto, já deve ter pensado em mim. Como eu faço com ele agora. Porque oriundos das raízes que nos fundam, somos pessoas que aprendemos com a dura vida a sentir empatia pelos outros. Pelos diferentes e pelos iguais.

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Aos que se deliciam com a prisão de Lula: “[…] eu penso que essas pessoas só podem estar esquecidas dos lugares de onde vieram”.

Cenas da infância

Nunca fui beneficiária de cotas. Mas sei o quão duro foi ter entrado na Universidade. Comecei a trabalhar aos 12 anos. Dava aula particular a Ericka, Rebecca, Pedro e Júlia, para conseguir o dinheiro da passagem do ônibus que me levava à escola.

De maneira que, durante o Governo Lula e Dilma, ver uma pessoa pobre, negra ou carente sentada nos bancos da universidade, aquecia meu coração. E eu torcia para que sua estrada fosse menos árdua, para que não pairasse o desejo de desistir.

Minha luta pela vida não é maior ou melhor que a vida de ninguém. Mas não tenho ganas de vingança, nem me tornei indiferente aos que ainda estão na linha de partida.

Quando eu vi nos treze anos do Governo PT – que, fato, se manchou com as falcatruas seculares de partidos oligárquicos e alheios à pobreza – mães alimentando filhos com o Bolsa Família, eu pensava que bom seria se diminuísse o número de pessoas pedindo “uma esmola pelo amor de Deus” nas portas das casas, cenas tão comuns desde a minha infância.

Eu sei que é pouco. Mas eu sei também que foi o máximo que já feito pelos pobres deste país.

Quando eu vejo gente que usufruiu de programas como Minha Casa Minha Vida e hoje se regozija com a prisão de Lula, eu penso que essas pessoas só podem estar esquecidas dos lugares de onde vieram e que estão dando muito “boa noite” para Willian Bonner.

10 05 2017 Curitiba PR Brasil o ex presidente Luiz Inacio Lula da Silva durante Ato jornada pela democracia em Curitiba Fotos Ricardo Stuckert

Curitiba, Paraná. Ato na Jornada pela Democracia. Foto: Ricardo Stuckert.

O colunista do New York Times

Tem aqueles também que saíram da pobreza e deram uma vida digna aos filhos, mas acham que isso é o suficiente. E que se já não são mais filhos da empregada ou do agricultor o resto que se exploda! O resto que permaneça comendo restos. Mal se dando conta eles que apenas lambem os pratos da elite e catam o lixo dos ricos de Miami.

Por isso, pela minha empatia, que parte de mim está lá agora com o Lula. Pela minha história. Pelo meu passado. Pela minha estrada. E parte de mim, aqui fora, lamenta pelos cegos e surdos da dor desumana da miséria financeira, intelectual e política pela qual passamos todos, ou a grande maioria no nosso país!

Porque nesse mar de desintegração dos direitos básicos, da desmoralização dos poderes constituídos, somos todos pobres e mal fadados. Cientes disso ou não.

Estão loucos para cortar nossos dedos e nossas asas. Não sei quanto aqueles outros companheiros de almoço, mas eu não aguento mais ver meu país afundando. Mais do que nunca aquela coluna no New York Times precisava ser realidade. Mais do que nunca precisamos disseminar a “ideia Lula”, nos multiplicarmos para voltar a sonhar e retomarmos o processo democrático.

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Sheyla Azevedo

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