No entanto, ela se move
4 de setembro de 2009 às 8:30 - ComentarEncontrei na web um texto que achou identidade entre duas mulheres separadas por épocas históricas, espaços geográficos e até pela realidade, porque uma delas é somente ficção. Antígona e Zuzu Angel. Antígona é uma mulher lendária, personagem-título da tragédia grega de Sófocles, é a moça que enfrentou o Rei de Tebas, Creonte, pelo direito de enterrar o irmão, o qual morrera lutando contra Tebas. Pela Lei de Creonte, inimigos não podiam ser enterrados, mas pelas leis dos deuses, o enterro era um direito sagrado. Antígona foi enterrada viva numa caverna, por determinação de Creonte, pelo fato de tê-lo enfrentado e de ter questionado suas leis, contrapondo a elas aquele direito sagrado.
Zuleika Angel era mãe de Stuart, torturado e morto nos porões da ditadura. Porões aqui uso em sentido figurado, porque Stuart foi morto a céu aberto, arrastado por um carro com a boca presa a seu cano de escape, uma das mortes mais horrendas daquele período. Seu corpo nunca foi encontrado, dizia-se à época que havia sido jogado ao mar. Zuzu, sua mãe, invocando o sagrado direito de enterrar o filho, protestou contra a ditadura, através do seu trabalho. Ela era estilista e sua marca registrada eram as estampas de anjos, que, depois da morte de Stuart, se tornaram feridos, ensangüentados, atacados e machucados. Em 1976, Zuzu sofreu um acidente de trânsito fatal e muito suspeito, em um túnel no Rio de Janeiro.
Curioso Antígona e Zuzu terem ambas morrido em cavernas. O túnel carioca repetiu a função da caverna grega, a função simbólica da ocultação. Porque precisam ser ocultadas, o que tinham, uma e outra, para ameaçar os poderes que as massacraram?
E o que possuía Galileu, além da razão, para dizer que a terra se movia, embora o poder da Igreja dissesse o contrário? Galileu desdisse a sua afirmação, mas, mesmo assim, foi mantido recluso até a sua morte. Escondido, oculto. Se insistisse em falar contra os dogmas da época, seria destinado à tortura e morte no calabouço.
Antígona e Zuzu, preferiram falar dos seus direitos considerados sagrados. Também Joana d’Arc o fez, sendo morta na fogueira da inquisição pela defesa ardente de suas convicções e de suas visões, tidas como bruxarias e apostasias.
Se pode tanto o poder, porque calar a impotência? O que pode a impotência? Geralmente, essa impotência só possui uma coisa: a razão. E brande sua razão contra a insanidade do poder. Por isso, a relação do poder com a impotência é perpassada pelo medo que o primeiro tem da segunda. Um paradoxo que sempre conduz a tristes tragédias. No livro, “O Deus das Pequenas Coisas”, da indiana Arundhati Roy, há uma cena de tortura e assassinato, que leva o narrador a uma digressão sobre esse medo. O personagem morto havia sido despojado de tudo, de todo e qualquer direito. Aliás, já nascera despojado, pelo sistema de castas da sociedade indiana. Mas, para o poder, encarnado no livro por policiais torturadores, era preciso que se despojasse de si mesmo.
Ou morrer, ou negar-se a si mesmo, como fez Galileu. Mas, a despeito dos podres poderes e tiranias de qualquer tempo e lugar, “ela se move” e continuará se movendo. Move-se, ainda quando só tem espaço para incomodar as disfarçadas tiranias do dia-a-dia, mais terríveis do que aparentam, mesmo sem matar.


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