DestaqueLiteratura

No rasto de um romancista que nasce pronto

Possidônio

Fruto de um homem, definitivamente, das letras, que já havia passeado antes pela poesia, ensaios e outros livros, o romance Rastejo levou cerca de quinze anos para ser finalizado.

O autor é Humberto Hermenegildo de Araújo, professor de literatura aposentado da UFRN, colaborador do Núcleo Câmara Cascudo de Estudos Norte-rio-grandenses da UFRN, uma reconhecida figura afável de Natal, onde aportou desde 1972, tendo nascido em Acari. E também agora é o mais recente imortal da Academia Norte-rio-grandense de Letras. O livro, editado pelo Caravela Selo Cultural, será lançado no próximo dia 20 de abril, às 18h30, na Academia Norte-rio-grandense de Letras (ANL), e custará R$ 30.

O tempo de maturação do texto se deve ao fato de que, segundo ele, a produção ocorria somente nos recessos das atividades acadêmicas da Universidade. Quando a aposentadoria chegou, ele teve maior disponibilidade para retomar a narrativa e dar o ponto final no seu romance. O texto parcial, numa primeira versão, chegou a ganhar a Menção Honrosa do Concurso literário Câmara Cascudo, da Fundação Capitania das Artes (Prefeitura do Natal), na versão do ano 2000. Mas aquele texto era, talvez, noventa por cento diferente da versão final publicada”, revela, acrescentando: “Foram muitas idas e vindas e, um ano antes da versão final, ainda contei com a leitura de uns dez ex-orientandos e amigos que se reuniram numa tarde, na varanda da minha casa no Pium, para uma discussão sobre o texto apresentado a eles, os primeiros e voluntários leitores, a quem sou muito grato”.

Indagado sobre o fato de, notadamente, existirem mais poetas que romancistas no Estado, Hermenegildo (que tem mestrado em Teoria e História Literária, doutorado em Letras e pós-doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada) acredita que esse fenômeno talvez se explique pela formação tardia, dentro do sistema literário brasileiro e também do ponto de vista social. “A geração de um romance requer a existência de uma sociedade complexa e amplamente integrada ao mundo do capital, que é gerido por uma classe dominante. Evidentemente, desde sempre tivemos a presença desse elemento, porque o Brasil já nasce integrado ao sistema mercantil, do qual fazia parte a Colônia. No entanto, o Rio Grande do Norte ainda não tinha traços de uma identidade própria, na fase em que pertencia ao que poderia ser uma nação ‘pernambucana’, e só veio a se constituir plenamente como um espaço autônomo no período da República”, explica.

E segue com a fluidez que lhe é inerente, pedindo mais aspas: “No andar dessa carruagem, o primeiro autor com vocação de romancista foi Policarpo Feitosa (Antônio José de Melo e Sousa). Depois dele, destaco José Bezerra Gomes e Eulício Farias de Lacerda, ambos representando o mundo regional. Isso, do ponto de vista da historiografia. Se voltarmos, contudo, os olhos para a cena contemporânea, é possível verificar que há um bom número de autores que escrevem em prosa, nos diversos gêneros. Se há um número menor de romancistas, o fato talvez se deva às dificuldades do gênero e esse é, provavelmente, um fenômeno nacional”.

Segundo explica, Rastejo é a história de um bancário, contada em primeira pessoa, na interação com pelo menos três personagens marcantes: o avô paterno, o pai e a mãe do narrador. Se há um quê de autobiográfico, ele admite que sim. Mas só até um certo momento: “Pode-se dizer que a migração daquela família inspirou a migração da família de Pedro da Costa. A chegada ao bairro do Alecrim é a mesma, mas depois desse episódio eu fui juntando histórias de outras famílias e de personagens populares, anônimas, para compor o enredo. Quanto ao bancário, por exemplo, eu cheguei a prestar concurso para trabalhar na Caixa Econômica Federal, mas fui reprovado no teste de datilografia. E sempre imaginei como seria a minha vida como bancário, se eu tivesse seguido aquela profissão naquelas circunstâncias. Posso dizer, então, que há dois elementos fortes que mantém um vínculo com a minha biografia: a história do avô Possidônio e a vinda para Natal em cima de um caminhão. Tudo o mais é pura invenção e pode ter sido vivido por qualquer desterrado que veio para Natal no início dos anos 1970”.

O nome Rastejo foi inspirado em um relato oral que ele ouviu sobre o seu avô. Tanto de pessoas próximas como o próprio pai, quanto por escritores como Paulo Bezerra e Oswaldo Lamartine, que os contaram as peripécias do rastejador em um episódio que ficou marcado na memória de muitos moradores antigos de Acari. “Segundo Oswaldo Lamartine, Possidônio era um Mestre, capaz de ‘tirar um rasto’, conforme declara em Sertões do Seridó (1980, p. 194): “Mestre como o velho Possidônio Avelino da Costa, morador na Serra do Padre (Acari-RN), que lá pelas idas de quarenta, rastejou por toda uma noite de lua pelo lombo da Serra do Bico até Gargalheiras – os cabras que haviam assaltado seu vizinho – o velho Claudino Gogó”. “Daí, vem o título do romance, mas o episódio é alvo de uma apropriação à narrativa em apenas um capítulo ilustrativo da história do avô do narrador que, na realidade, é urbano, ou seja, um típico morador de bairros populares da cidade do Natal.

Rastejo_Humberto Hermenegildo

 

Lançamento de Livro – Rastejo

Dia: 20 de abril

Hora: 18h30

Local: Academia Norte-rio-grandense de Letras

Preço: R$ 30

 

Share:
Sheyla Azevedo

Comentários

Leave a reply