Teatro

No vazio do teatro

mongianei

Um famoso ator italiano, Giovanni Mongiano, representava, recentemente, um monólogo no Teatro do Povo na Lombardia. Estava sendo maquiado quando um funcionário aproxima-se dizendo: “Maestro, estou constrangido de dizer, mas nenhum ingresso foi vendido”.

Surpreso, ele parou um pouco. Depois, mandou que continuassem a maquiagem. Fez a sua performance para o enorme teatro vazio.
Foi ato personalíssimo, de alta dignidade profissional. O insólito do acontecimento bombou nas redes sociais (aqui).

No cinema, os atores repetem a representação até ser fixado definitivamente. O filme logo estará pronto para ser exibido. No teatro, a atuação é repetida todos os dias, sempre com sutis diferenciações, feitas pelo talento do intérprete.

Foi no século V a.C., o primeiro monólogo que a história registra. A peça foi realizada em honra de Dionísio, o deus do teatro na mitologia grega. O ator compareceu com máscara, que seria a primeira forma da maquiagem.

Lembro-me do filme, premiado com o Oscar, “All That Jazz”, conhecido como “O Show Deve Continuar”. Trata de um artista, mulherengo e trabalhador incansável, que sente a proximidade da morte, mas continua o seu trabalho criativo. Uma linda e sedutora mulher aparece-lhe vestida de branco. Isso não impede que ele continue com o seu show. O roteirista fez história autobiográfica. Ele faleceu logo depois de terminar o filme.

Todo bom ator costuma fazer um diálogo consigo mesmo, um solilóquio. Para ele, representar é viver. Para viver não é necessário nem plateia, nem aplausos, que são apenas circunstâncias ideais. Quem sabe se os velhos atores são encantados fantasmas no Teatro Alberto Maranhão? Com divina autorização, continuam a representar no escuro do teatro vazio. Rodolfo Mayer recitando “As Mãos de Eurídice” e Procópio Ferreira com “Deus lhe Pague”, Sandoval Wanderley e quantos outros bons artistas da terra interpretam no histórico edifício, uma vez que o teatro está fechado há tanto tempo. Ali também se prova que representar é um ato de amor que a morte não faz terminar.

Um acontecimento provocou em mim uma grande emoção. No tempo em que ainda havia circo com animais adestrados (1999), foi prestada singular homenagem às arvores. O dono de um circo soube da existência, ouvindo histórias, do Baobá do Poeta. Convocou o seu elenco. Os artistas se entusiasmaram e fizeram uma apresentação em louvor da velha árvore. Levaram elefantes, camelos, bailarinas, palhaços. Vestidas de odaliscas e de mãos dadas, as mocinhas dançaram em redor do baobá, os palhaços fizeram o que costumam fazer. A magia estava presente. Os animais desfilaram com poses ensinadas. O elefante mostrou a sua leveza, levantando uma perna e porte ao conduzir as moças. Eu estava fora do País. Quando cheguei de viagem, recebi as fotografias do acontecimento. Em vez do monólogo, de um único ator representando muitos, foram muitos a representar para um ser, que festejaria se pudesse ver e ouvir.

Giovanni declarou que fez apenas um gesto de amor e provocação. De fato, ele quebrou a relação, até então imprescindível, entre o palco e a plateia, fazendo uma experiência memorável. O estranho, às vezes, estimula reflexão e consequentes ações.

Para mim, foram grandes lições de vida. O trabalho humano deve provir do mais íntimo da nossa consciência, do nosso coração, da nossa alma. Devemos refletir sobre o que sabemos e o que devemos fazer. A nossa ação deve independer das plateias, do aplauso, de qualquer prêmio!

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