No verso da conta

15 de março de 2010 às 19:53 - Comentar
Por Carlos Magno Araújo

Depois de descrever episódio nada edificante a que me submeti na semana passada, dividindo uma hora e meia com novos e estanhos parceiros numa fila de banco na agência do Banco do Brasil, na Ribeira, li um texto da poeta Nivaldete Ferreira {publicado no Novo Jornal} e percebi o quanto a chamada vida cotidiana pode nos roubar de prazer. E também o quanto minha pequenez se agiganta em momentos assim.

Diz ela, logo no começo, que de qualquer coisa pode-se fazer poesia. E tasca, para meu deleite e meu mais sincero sentimento de inveja, um poema obrado numa fila de banco, riscado na fatura de uma conta atrasada: “as contas não contam/não estou vencida/e viver não tem data”.

Na minha experiência, ao contrário, pensei em tudo enquanto estava na fila, até em voar no pescoço da mulher que azucrinava atrás, ou roubar e jogar longe o boné do aposentado que destratava o ABC. Menos em fazer poesia – o que, de verdade, não pensaria porque, acima de tudo, não sei. Nivaldete sabe.

A poeta não somente pensou em fazer ali, durante a experiência dela – muito provavelmente numa agência tão lotada quanto a minha -, mas escreveu nas costas do boleto vencido: “as contas fazem parte do conto da vida”.

Hoje que se celebra essa invenção genuinamente potiguar – embora não tenha sido por nós inventada nem seja lá tão genuína –, que bela notícia saber que no meio do fuzuê anárquico de uma fila bancária alguém pode trocar o desespero e a angústia das horas por versos. Bela homenagem essa de Nivaldete Ferreira no Dia da Poesia.

Fosse eu um banqueiro, tomaria logo o exemplo da poeta e contrataria gente assim, com o perfil de Nivaldete, para “entreter” as filas de banco. Mas banqueiro tem mais no que pensar – e tempo para ele é dinheiro, não versos.

Bastava o profissional da poesia – porque a poesia bem podia ser reconhecida como profissão – fazer uma ronda pelas agências mais cheias, sentir o ambiente e propor a um ou outro na fila os versos para apaziguar os espíritos.

Tem de ser cuidadoso, porque poeta é também bicho tinhoso, esquisito, estranho. Vai que não entendem, que achem frescura. Lá vai o pobre do poeta ser um chato a mais, um gauche na fila.

Os fiscais do Procon que vivem prometendo fiscalizar o descumprimento da lei que estabelece punição aos bancos com filas longas bem que poderiam exigir, na hora de lavrar a multa e diante do gerente: “meu amigo, cadê seu poeta? Não tem? Então, teje preso”.

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    NAN GOLDIN
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    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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POESIA

    Aconchego
    11-02-2012 às 14:37 - Comentar

    Por Suely Nobre Felipe

    Quando partires do meu tempo,
    Leva-me entrelaçada em teus braços,
    Dividas comigo o teu novo regaço,
    Deixe-me provar da leveza do teu céu,
    Onde ali, repousada entre nuvens,
    Desfiarei nossos melhores sonhos.
    E, por entre os fios dos nossos cabelos
    – Já não tão negros como a noite,
    Confundiremos deliciosos segredos.
    Pois, não tardará o tempo
    Em que haveremos de desfiar
    Capuchos de solidão.

    ACONCHEGO

    Suely Nobre Felipe

    __________

    Quando partires do meu tempo,

    Leva-me entrelaçada em teus braços,

    Dividas comigo o teu novo regaço,

    Deixe-me provar da leveza do teu céu,

    Onde ali, repousada entre nuvens,

    Desfiarei nossos melhores sonhos.

    E, por entre os fios dos nossos cabelos

    – Já não tão negros como a noite,

    Confundiremos deliciosos segredos.

    Pois, não tardará o tempo

    Em que haveremos de desfiar

    Capuchos de solidão

    COMENTÁRIOS

    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente
    • José de Paiva: Seja bem vinda Glória Braga Horta ao SP e obrigado por ler o meu texto. Obrigado também pela generosidade dos amigos de sempre. Clarissa Torres, gosto muito das obras de Schiele, elas me inspiram. - Rita louca
    • Marcos Silva: Gosto muito daquela canção de Paulinho da Viola que diz: "Faça como o velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar". - À sombra da ditadura
    • gustavo de castro: E quem disse que os valores cristãos é que devem predominar? Foi Cristo ou os cristãos? - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Anchieta Rolim: Oreny, bela poesia! - Vento nordeste
    • Anchieta Rolim: Concordo marcos, inclusive quando João Carlos voltou da guerrilha continuou sua luta junto a artistas como Gonzaguinha, Paulinho da Viola e vários outros... Fazia parte do grupo o ex-jogador Afonsinho (aquele que lutou pela lei do passe livre para os jogadores de futebol), e também o cantor e compositor Potiguar Mirabô Dantas. - À sombra da ditadura
    • Marcos Silva: Certamente, existem ONGs sérias. Infelizmente, a desqualificação geral tende a se tornar corriqueira. Lembro que ela aparece com todas as letras no filme Tropa de elite (I). - Brado retumbante