Noite de espera

Marcos Aurélio Felipe
DestaqueLiteratura

A cada janeiro, um colega lança o desafio literário do ano – desta vez, o #DesafioLiterário2018, que, diga-se de passagem, não tem nada de intransponível quanto ao seu cumprimento. Consiste em selecionar e ler apenas cinco livros que não façam parte da sua rotina profissional. Principalmente, aqueles que, há tempos, ficam a olhar para você – que, permanentemente, deles se esquiva e tenta fugir.

Para este ano de 2018, resolvi cumprir o desafio, já que nos anos anteriores a seleção era feita, mas acabava lendo outras obras que não estavam na lista inicial. Com o mês de janeiro já prestes a findar e a angustia crescente diante dos livros iniciados e não concluídos, somente após a terceira tentativa, consegui terminar um dos três que selecionei. Confesso que, pela segunda vez, Luz de Agosto, de William Faulkner (fotos/destaque e abaixo), ficou no meio do caminho. Um pecado – pois não se faz isso com o autor de O Som e a Fúria. Aliás, como da primeira vez, interrompi a leitura bem no começo, mesmo tendo sido totalmente absorvido pela travessia “solitária” e obstinada da personagem. Paro sempre no momento exato em que ela chega à casa do sujeito que lhe dá carona em uma carroça, que supomos ter visto sentado à beira da estrada. O mesmo sujeito que, mesmo sob um clima um tanto tenso com a presença da esposa ali a espreitar o que se passava, abriga-a em sua casa.

Travessias

Desde o primeiro momento, Luz de Agosto nos fisga com a personagem naquela travessia: a sua condição biológica, enquanto adolescente grávida prestes a parir no meio do nada e, sobretudo, sua decisão de se colocar em busca, arrastando-se por àquelas estradas solitárias levando uma criança na barriga do homem que espera encontrar em alguma serraria (porque ouviu alguém dizer que soube que ele estava na cidade seguinte… que nunca chega), além dos atravessamentos geográficos (a estrada) e afetivos (a busca do homem que amou e gerou o filho ainda sendo gestado) que marcam as primeiras linhas do livro. Sem contar a inversão de perspectiva que Faulkner imprime, no momento em que o carroceiro deixa de ser apenas um vulto nas bermas da estrada e assume o ponto de vista a partir de um certo momento, ao deslocar o lugar dos personagens no enredo e a nossa percepção sobre o que lemos (como já tinha feito em O Som e a Fúria).

A segunda tentativa frustrada de leitura neste início de 2018 aconteceu no último domingo. Mas, de certa forma, foi uma decisão deliberada e não por qualquer digressão provocada por um fato externo. Depois de perceber que não iria muito longe com Luz de Agosto, finalmente, escolhi uma obra de um desses geniais escritores argentinos do século passado. Quando Ulisses adormeceu, sentei-me na poltrona do nosso quarto, apoiei a cabeça no encosto, coloquei o livro no colo e comecei a percorrer a história de um personagem que também havia sentado na poltrona do seu escritório para ler um romance sobre amores secretos (ou quem sabe, sobre ele mesmo). Estávamos nós dois ali – eu e o personagem – a fazermos a mesma coisa…. lendo um livro. A leitura que ele fazia era, naturalmente, da história que logo eu também passei… a ler – ao mesmo tempo, por meio do livro que ele lia dentro do livro. Curiosamente, o personagem também tinha escolhido uma obra literária, havia sentado na poltrona do seu escritório e recostado a sua cabeça no encosto alto da poltrona, como eu havia feito há instantes. Foi inevitável que viessem a memória dois filmes de Philippe Garrel, que vi nas últimas semanas: Inocência Selvagem (2001) e Beijos de Emergência (1989) – que trabalham o filme dentro do filme, em simbiose.

Jogo de Espelhos

Na história que se delineia no livro dentro do livro, a partir de um encontro secreto entre dois amantes, o personagem do romance que está sendo lido pelo personagem do conto – e por mim também – se desloca para a sua casa após se despedir da mulher que vê partir no parque de carvalhos. Ao chegar à sua casa, adentra o recinto: “primeiro uma sala azul, depois uma varanda, uma escadaria atapetada”. Com o punhal na mão, percebe um sujeito sentado com um livro nas mãos, com a cabeça recostada no encosto alto da poltrona em deleite com a leitura que fazia. Nesse momento, o inusitado se instalou e, além de ter sido a razão pela qual resolvi deixar para continuar outro dia a leitura daquele livro, de imediato, a reação foi virar a cabeça para onde fica a porta do nosso quarto para saber se não havia ninguém segurando um punhal a me olhar, já que estava com a cabeça recostada na poltrona segurando um livro, cujo conto de abertura acabara de ler há instantes. Ao iniciá-lo, havia apenas um personagem: aos poucos, éramos quatro – fictícios, reais e imaginários. O livro é Final do Jogo. Um livro de contos, e não um romance. O autor: Julio Cortázar (foto). Continuidade dos Parques é o título do conto de abertura.

Mas, enfim, neste janeiro prestes a findar, minha terceira tentativa teve êxito. Li de cabo a rabo o romance Noite de Espera na manhã da última terça-feira: o último trabalho de Milton Hatoum (foto) e o primeiro de uma trilogia sobre os anos de chumbo pós 64. Um período conturbado, obscuro: uma noite de 21 anos – que muitos esperavam que acabasse. Pode ser que o título do romance jogue com esse duplo sentido: a espera do personagem Martin por sua mãe, em um quarto de hotel, durante toda uma noite; e a espera de toda uma geração pelo encerramento de um período extremo da nossa história – uma noite que durou mais de duas décadas. Confesso que, de Milton Hatoum, gosto mais das narrativas que envolvem cultura e a história dos imigrantes libaneses em Manaus, Amazonas, da qual descende e sobre a qual versa os seus primeiros romances: Relato de Um Certo Oriente (1989) e Dois Irmãos (2000). Neles, os personagens se movimentam nos espaços da memória, na cidade e na casa da infância; pelos objetos e cômodos; através dos seus pensamentos e imaginário; além, naturalmente, do narrador que quase sempre faz parte daquele mundo mesmo que nem sempre exista, permanentemente, como personagem físico.

Noite Obscura

Com Noite de Espera, temos um romance de geração sobre personagens em processo de descoberta e formação e a teia histórica que os vinculam. Basicamente, Hatoum situa a história entre 1967-1972, mas a partir do relato de Martin que, de 1978, no exílio em Paris, rebobina os fatos sobre si e os seus amigos de geração. O desenho um tanto esquemático e caricatural dos personagens talvez seja o seu ponto fraco (o líder estudantil – naturalmente, chama-se o Geólogo, com aqueles arroubos de coragem a discursar em tudo que é lugar; a mocinha porra-louca – que escreve poesia, delira e usa de tudo, além de ser filha de um senador atrelado ao poder; o jovem estudante de direito filho de embaixador, que encabeça a revista com viés da contracultura; o narrador a partir do exílio que, em Brasília onde tudo se passa, trabalha em uma livraria um tanto misteriosa, com um proprietário que, às escondidas, exibe filmes e promove debates um tanto indesejados pelo Governo etc.). Por outro lado, o mais impactante é o sentimento que Hatoum testemunha de um tempo que se esfacela e no qual habita um grupo de jovens em torno dos seus sonhos, desejos e ideais, como vemos no filme Plataforma (2000), de Jia Zhang-ke – dada as devidas diferenças políticas e históricas.

* * *

Do desafio literário proposto para 2018, infelizmente, Noite de Espera não estava entre os cinco livros que eu desviava e sempre deixava para depois, encontrando sempre uma desculpa para fugir do enfrentamento.

Buscando atender a empreitada, dentre outros, listei para ler em 2018:

I. Luz de Agosto – William Faulkner;
II. Final do Jogo – Julio Cortázar;
III. Crime e Castigo – Dostoiévski
IV. A Autobiografia de Alice B. Toklas – Gertrude Stein;
V. Stoner – John Williams
Veremos!

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Marcos Aurélio Felipe

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