Notícia do sarau Marize-Prévert

5 de maio de 2010 às 21:46 - Comentar
Por Nelson Patriota

As comemorações do ano da França no Brasil se restringiram oficialmente ao ano de 2009. A rigor, porém, a agenda de aproximações aberta entre brasileiros e franceses prossegue este ano. A Aliança Francesa de Natal, por exemplo, tem larga experiência nessa área, desde os tempos áureos do diretor Bernard Alléguède, nos anos 1970 e, pelo visto, esse processo está em plena renovação. O sarau Marize de Castro/Jacques Prévert, abrindo a temporada 2010 na quinta-feira passada, mostrou o grande potencial que eventos dessa espécie sempre apresenta. E não deixou de funcionar como um contraponto “acidental” ao evento luso-brasileiro reunido por estes dias no Teatro Alberto Maranhão.

Conduzido com humor e irreverência pelo mestre-de-cerimônias Rodrigo Bico caracterizado de palhaço circense, e pela professora Selma Bezerra, mas também com a própria poeta natalense, o sarau alternou poemas de Marize com poemas do francês Prévert sem qualquer preocupação em estabelecer paralelos, apontar coincidências ou diferenças, mostrar afinidades etc. Pelo contrário, o que prevaleceu foi um confronto sem ranhuras nem estranhamentos entre dois poetas de épocas muito distintas. Por que haveriam de se confrontar, se o primeiro já tem o seu lugar definido nas letras francesas como um poeta “menor”, enquanto a segunda, como observou o poeta Dorian Gray, é um nome que já ocupa posição destacada na poesia potiguar?

A distância tranquilizadora entre os dois poetas permitiu que viessem à tona outras componentes próprias a um sarau poético tão singular. Sobretudo no que respeita à poesia de Marize Castro, cuja sujeição a um exercício frequente de oralidade parece aí encontrar um espaço propício ao seu crescimento.

De fato, surpreende como a poesia de Marize parece se renovar quando falada. Em parte, a explicação pode ser encontrada na composição específica dos seus versos, ao mesmo tempo cáusticos e sutis, incisivos e discretos, passando ao leitor (ou ouvinte) a ideia de que algo ficou por dizer. Quem sabe, o próximo poema desfaça essa impressão? Novo engano, em parte. Porque o poema que se lê a seguir diz algo de si, não do poema anterior. Que recurso, então, restaria ao desamparado leitor? Ler mais Marize, na esperança de que o círculo se feche e a verdade poética que parece em fragmentada mil poemas por fim se some num todo harmônico e acabado.

É evidente que essa impressão, a qual tem tudo a ver com a magia do poema enquanto instância particular da linguagem, pode ser captada na leitura silenciosa. Mas ouvi-la de viva voz num auditório voltado exclusivamente para esse fim parece acrescentar um grão de sal a cada verso, independentemente de que a leitura provenha de Rito, de Marrons Crepons Marfins, de Esperado Ouro etc.

Se a cada poeta é dado escrever um único livro – como alguém já propôs –, não importa que multiplicado por dez, vinte ou mais, com mais razão Marize Castro persegue o seu poema em cada um de seus livros, pois cada um acrescenta um verso que retoma o ponto em que o anterior foi interrompido. E aí talvez se explique a necessidade de lê-los um a um a fim de recolher os versos que prosseguem nos livros seguintes…

A leitura da poesia de Jacques Prévert, por sua vez, se prestou a um caráter “didático”, haja vista que é um poeta pouco ou nada conhecido pelo leitor brasileiro mediano de poesia, mas que apresenta um atrativo próprio que reside na decantação da poesia do cotidiano. Não se pode esquecer também que um de seus poemas ganhou notoriedade internacional, depois de musicado por J. Kosma. Referimo-nos, é claro, a “Les Feuilles Mortes”, grande sucesso na voz de Yves Montand e Mireille Mathieu, entre outros grandes intérpretes da canção francesa. Em sua carreira internacional, ganhou versão inglesa, chamando-se “The Falling Leaves”, e é um hit atemporal da canção americana.

Postar Comentário

AGENDA

  • Pinacoteca está com Edital aberto para ocupação das Salas de Exposições

    Artistas plásticos e visuais ainda podem se inscrever no Edital de Ocupação das Salas de Exposição da Pinacoteca Potiguar para todo o ano de 2012.

    mais informações »

  • Rede Cinemark exibe direto de Londres a temporada 2012 de óperas e balés do The Royal Opera House

    Espetáculos serão transmitidos em mais de 30 complexos espalhados pelo Brasil, sendo dois ao vivo. Natal-RN participa da programação e os ingressos já estão à venda

    A Rede Cinemark traz para o Brasil, com exclusividade, a temporada 2012 de óperas e balés do The Royal Opera House (ROH), de Londres, a partir do dia 25 de fevereiro.

    mais informações »

  • Museu de Arte Moderna do Rio abre mostra cancelada de Nan Goldin

    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

    aqui

  • OUTROS EVENTOS

POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
    • Jóis Alberto: Poema muito bom! - "Je f'rai un domain où l'amour sera roi"
    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Jarbas Martins: Muito bom, Bortolotto.Mas eu não trocaria um parágrafo de Adriano de Souza, ou um capítulo de um ciberfolhetim de Carlão, por tua prosa requentada. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente