Notícias de Casa – Entre cartas e uma câmera a observar NYC

Marcos Aurélio Felipe
AudiovisualDestaque

Notícias de Casa (News From Home, 1977) é um documentário da diretora belga Chantal Akerman, que começou a realizar filmes ainda no final da década de 60, que legou uma filmografia com mais de 50 títulos e morreu aos 65 anos, em Paris, no ano de 2015.

A partir das cartas que recebe da sua mãe, que vive em Bruxelas, Bélgica, Akerman apresenta, sobretudo, um invólucro de sentimentos e angústias que domina as palavras daquela que a colocou no mundo. De longe, sofre com a distância da filha, angustia-se com as cartas não recebidas e com as que demoram a chegar; padece com as cartas que não são tão frequentes (o que significa dizer – semanais) e, algumas vezes, não são respondidas (com o imediatismo desejado); e que, em sua maioria, não trazem informações mais detalhadas sobre a vida da jovem Chantal Akerman, em NYC, onde morou no final da década de 70. Por meio destas cartas, que nunca vemos, mas que ouvimos através da voz de Akerman em off, que as lê como se fosse sua própria mãe, adentramos na intimidade de uma família belga de classe média. São cartas que nos informam sobre o contexto de preocupações e angústias pessoais e financeiras.

À medida que o documentário transcorre, essas cartas vão revelando as histórias que não se consolidam; a pretensão em se comprar uma nova casa, os problemas com a loja, clientes que aparecem e desaparecem; as viagens de lazer, as enfermidades permanentes, temporadas de calor extremo etc. Pouco a pouco, Notícias de Casa ganha uma estrutura de filme-epistolar, ligando corpos e sentimentos separados entre o Novo e Velho Mundo. Desse novelo íntimo, Chantal Akerman, ao mesmo tempo, que mergulha de forma etérea messe universo íntimo e familiar, afasta-se, friamente, com a realização de imagens físicas e frontais da cidade de Nova York. Plano a plano, com quadros do amanhecer e noturnos, iluminados e escuros, tomados de silêncios e vazios e com texturas diversas, Chantal Akerman filma Nova York: um espaço, cinematograficamente, arquétipo – memória de obras incontornáveis, como Táxi Driver (1976) e Um Filme para Nick (1980), por exemplo.

A partir das lentes de Akerman, a cidade de NY vai se descortinando, com takes de suas ruas, prédios, becos, fachadas, bares, restaurantes, carros, metrô, pessoas em movimento e paradas, de pessoas conversando etc. Apesar de Chantal Akerman colocar a câmera em movimento – dentro de um carro ou vagão de metrô –; e, com ela, o espaço enquadrado e a cidade em seu transcorrer pela janela, em sua maioria, são os planos estáticos e os de longa duração que predominam. Por extensão, permitem-nos olhar a paisagem urbana por mais tempo, com maior atenção, imersão e oticidade. São estes planos que abrem as portas para vemos os espaços que constituem NYC, seus mapas internos, os meandros do cotidiano e da malha invisível que, às pressas, quase sempre passam despercebidos. Em Notícias de Casa, somos guiados por quadros sem artifícios que miram a cidade, como nos moldes do cinema direto norte-americano de Robert Drew, Frederick Wiseman e dos irmãos Maysles, Albert e David.

A diretora nunca interfere na realidade que filma, não pede para entrevistar (nem entrevista) os transeuntes, nem se interessa por aquilo que não seja a materialidade espontânea de NYC em sua fisicidade (como a imagem daquela senhora sentada na calçada, o casal que se encontra na plataforma do metrô, um balcão de um bar vazio, os silêncios da Grande Maçã). Mesmo quando um senhor encara o olho da câmera, o que acontece, especialmente, em um segmento narrativo dentro de um dos vagões do metrô, Chantal Akerman mantém-se impassível, tentando registrar o real que se move como se, naturalmente, assim sempre fizesse. Nesse documentário, ao mesmo tempo em que faz um filme focado na intimidade, e que expressa, de uma certa maneira, os lugares mais recônditos da intimidade de uma família – essencialmente, a relação afetiva entre mãe-filha que nos chega pelas cartas, Akerman dedica o seu olhar e sensibilidade a cidade de Nova York, sobretudo a materialidade de um corpo urbano, com a valorização dos tempos mortos e dos espaços vazios.

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Marcos Aurélio Felipe

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