O abismo entre mídia e redes sociais

Tácito Costa
DestaquePolítica

Inegável e profundo o abismo entre as redes sociais e a mídia. Principalmente, quando o assunto é política. Na segunda-feira, 12, se o leitor/espectador fosse depender dos quatro mais importantes jornais do país (FSP, O Globo, Valor e Estado) e da cobertura da Rede Globo, ficaria muito mal informado sobre a contundente crítica social levada à Sapucaí pela escola de samba Paraíso do Tuiuti no domingo, dia 11.

Enquanto as redes sociais pegavam fogo discutindo e repercutindo a apresentação, os veículos citados acima fizeram de tudo para minimizá-lo, escondê-lo. A Globo mesmo levou 12 horas após o desfile para identificar o vampiro como Temer, sem falar no constrangimento dos comentaristas na transmissão ao vivo, todos “cheios de dedo” para narrar o que estavam presenciando.

Elementar, meu caro editor Conrado!

Um desfile memorável, totalmente fora do script global, com criações impagáveis, como os “manifestoches”. Somente as irreverência e humor cariocas para criar um neologismo tão acachapante e definitivo.

O que me leva a conclusão de que as redes sociais são uma desgraça, também tem seus filtros e ideologias e interesses financeiros, mas no caso brasileiro seria bem pior sem elas para fazer um mínimo de contraponto à leitura enviesada da grande mídia brasileira.

A leitura sobre a apresentação da Tuiuti, cujo samba enredo era “Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão? dividiu até os negros. Alguns consideraram que o eixo era a escravidão e não o governo Temer, como foi amplamente disseminado. Eu acho que cabem as duas coisas no mesmo balaio. Sobre isso leia no final o texto publicado no Facebook pela professora Ivana Bentes.

Que bom que o carnaval, apesar dos pesares, continua indomável, resistindo por um lado à patrulha ultra radical politicamente correta, que quer proibir até fantasias de índio e papangu, e por outro denunciando com irreverência e humor caústicos o poder e os poderosos.

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Por Ivana Bentes

O visto e o dito. Enquanto o Sambódromo “gritava” o samba contra a reforma trabalhista e da previdência, contra Temer e contra o golpe em momento catártico na Sapucaí contra as novas formas de escravidão e precarização do trabalho, os comentaristas da Globo em momento nenhum falavam das alegorias da Paraíso do Tuiuti e nem comentavam a evolução do enredo. Presidente vampiro, manifestantes fantoches, a CLT e a carteira de trabalho detonadas foram o não-dito da cobertura televisiva que só narrava a escravidão e seus horrores, afinal essa “acabou” historicamente, apesar do desfile justamente mostrar que não em nosso capitalismo racista e neoescravocrata. Hoje o G1 dá nome aos personagens, mas decide editorialmente que na TV e ao vivo para milhões não pode! Existe um temor de tudo que é popular e que foge da narrativa midiática. Impressiona o esvaziamento de tudo que é político e fala do presente urgente, mesmo um samba enredo e alegorias de Carnaval! E já estão dizendo que o MBL vai lançar o movimento “Escola de Samba Sem Partido” para coibir essas escolas de samba esquerdopatas!

P.S. E antes que alguém me pergunte o que isso muda no processo político, eu não sei, só sei que a “anestesia está passando” e a catarse faz parte desse processo de purgação do estado de perturbação psíquica coletiva e da nuvem tóxica em que ainda estamos. Além disso, fato é que a narrativa redentora do impeachment não sobreviveu nem a um carnaval! Evoé! #Carnaval #ParaísodoTuiuti’.

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Tácito Costa

Comentários

3 comments

  1. Geraldo Alves Spinelli Júnior 14 fevereiro, 2018 at 21:51

    Caro Tácito, sou cético com relações as tais redes sociais, que na verdade não sei bem o que é, e talvez por não sentir falta possa falar à vontade. Quem enreda quem ? Vejo na verdade a disseminação de informações desconectadas, com ar de de superioridade. Ora, se as tais redes não desmascararem as mídias, serão inócuas. As mídias representam o poder social, e as tais redes sociais ( o que é isso mesmo ?) não oferecem alternativa para explicar a realidade, sabe por que ? Não fazem as devidas conexões. Ou seja, as mídias desconectam as pessoas da realidade, e as redes sociais (?) conectam a desconexão às desconexões, num simulacro de realidade, pois não conectam o que a mídia desconecta. Ex tente ligar num todo coerente o que as tais redes propagam nesse momento. Nada absolutamente nada pode ser construído.

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