O antropólogo de shopping, “gauche” na vida

22 de setembro de 2009 às 11:07 - Comentar
Por Carlos Magno Araújo

tarsila“O Vendedor”, de Tarsila do Amaral

Deve ser a alma danada ou uma praga jogada por algum desses especialistas em gestão de negócios ou gerência de RH.

Se o amigo de vez em quando for como eu, um antropólogo de shopping ou um sociólogo de botequim, talvez perceba o mesmo.

E como eu, também, quem sabe, sofra de saudades do antanho, aquele tempo em que a gente sabia o nome do padeiro, do açougueiro e do atendente da farmácia.

E todos eles, ciosos do dever, eram acima de tudo discretos – e atenciosos.

Hoje a reserva é artigo raro no comércio e, vá lá, no trânsito, no trabalho, na fila do banco, do supermercado.

Ninguém faz questão de se portar de maneira distinta, guardando ao menos, no caso de alguns vendedores, o recato da função.

Isso parece papo careta, eu sei. Mas quando a gente se coloca no papel formal do tal do consumidor, dá nos nervos.

Tento saber o preço de um livro, mas os dois funcionários conversam.

Reclamam do plantão do próximo domingo – um tenta passar a vez para o outro. Eu aguardo atendimento. Mas, besta, sinto vergonha, deixo o livro ali mesmo junto do caixa e vou procurar outra livraria.

Como na música de Cazuza, eu não causei mal nenhum a não ser a mim mesmo.

Os dois nem notam minha saída, mezzo à francesa, mezzo sertanejo brucutu entediado.

Já do lado de fora, olho para a vitrine e digo, me dirigindo aos livros, pobres e fiéis depositários da minha ira temporária: “meu amigo, que tenho eu a ver com seus plantões dominicais?”. Já não bastam os meus problemas?

Sei que vou morrer logo. Às vezes penso que sou o irascível de espelho, o que se tranca no banheiro e esmurra o vidro do xampu, o que despeja a raiva disparando a descarga do vaso sanitário.

Saio lívido, sereno, dessas experiências – puto com o ser humano, essa experiência fracassada.

Na lanchonete, as duas funcionárias não me notam, embora o ambiente esteja… vazio.

Peço uma coxinha e um refrigerante. O monstro que habita em mim tem fome.

Elas nem aí. Uma quer vender as férias. A outra aconselha: “fala com ele, a gente tá precisando mesmo; não posso ficar atendendo sozinha”. A primeira filosofa: “Mulher, será?”

Até olham para mim, mas sou inútil ali; não sou do Ministério do Trabalho, penso logo. Sou menos importante do que aquela bandeja de chucrutes, que ferve no óleo como o fogo do inferno.

Quero só um lanche besta, rápido, desses que só servem mesmo para adormecer a fera.

Triste, quase um juiz de conciliação, assisto a mais essa cena.

As pudicas que me perdoem, mas eu pensei sim: que consumidor chibata eu sou.

Experimento passar os olhos em volta e vejo lojas, quiosques e vendedores.

Todos batendo papo, conversando as besteiras alheias ao serviço. O consumidor, mero detalhe que, aliás, só vem atrapalhar.

Num quiosque onde se vende óculos modernérrimos, um dos vendedores saltita, quase numa perna só. Não está machucado – ouve música eletrônica, às alturas, enquanto alguém tenta perguntar algo.

Aqui e ali o dito cujo vendedor ainda sacode o cabelo e estala os dedos. Graças a Deus não há ali um globo colorido. Ele ia pensar que era boate e aí, mano, duvido quem o segurasse.

Quando me vejo em ambiente tão antropologicamente rico, mastigo feito pasto uma certeza, das poucas que tenho: toda vez que visto a camisa para sair de casa e ir “ao comércio” (ah! as saudades do antanho) deve vir junto, como uma etiqueta, algum acessório ou adereço que só eu não enxergo. É uma faixa drummondiana escrito assim: vai, consumidor, ser besta na vida.

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  • Museu de Arte Moderna do Rio abre mostra cancelada de Nan Goldin

    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: eu faço do meu corpo o que quero foi conquista a greve do ventres vem desde os gregos quem possui o direito sobre o corpo feminino? voce, o estado, o papa, Deus"! todos falharam como inquisidores. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Roberta Aymar: Beleza e Proibição... coisas necessárias e, ao mesmo tempo, contingentes nas curvas dos "Plurais Substantivos"... Eu que agradeço, João. - A Viúva Negra
    • João da Mata: domingo é dia de fazer niente nem tente! - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: O inquisidor Um dia ele organizou um livro e não selecionou Outro dia ele foi o júri de concurso de poesia e não entrei nem na menção honrosa. Outro dia eu quis abortar e ele disse não pode mas foi taõ bom!. Não pode! Depois disse que e eu não sou Outra vez disse conheço a lei Sou procurador. Como juiz ele errou Como cristo acho que não voga - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Marcos Silva: Alex: Faltou acrescentar que Maria engravidou sem contato sexual com José por vontade de Deus, não é? Dessacralização do coito, embora Deus deva ter pênis e bolsa escrotal pois Adão foi feito a sua imagem e semelhança, e Eva tenha recebido vagina por obra e graça de Quem a fez. Jesus não engravidou porque não quis. Nem precisaria ser inseminado por outro homem, Ele poderia inseminar-Se, se o quisesse, ou Deus poderia usar o mesmo procedimento ocorrido em relação a Maria. Nada disso se deu, pelo que se sabe e que vc, gentilmente, nos trouxe à lembrança. Quanto a Maria Madalena, nada sei. O conhecimento histórico sobre o tempo dela e de Jesus é muito limitado (alguma coisa a partir de Arqueologia), os Evangelhos são escritos de devoção, não propriamente fontes literais de informação (ou são informação sobre eles mesmos). De qualquer maneira, muito obrigado pelas preciosas informações. Aproveito para lembrar que uma coisa é o Cristianismo ideal (todos filhos de Deus etc.). Outra coisa é o Cristianismo histórico, como Cruzadas e Inquisição bem o demonstraram: ou os hereges não eram filhos de Deus (quer dizer: nem todos o são) ou, se o fossem, mereciam morrer por desagradarem aos representantes do Pai. Até Leonardo Boff, há poucos anos, foi punido pelo órgão que ocupou as funções da Inquisição na Igreja Católica, submetido a "Silêncio obsequioso", não é? E durante o Nazismo, o Vaticano manteve um silêncio nada obsequioso diante do Holocausto... Mas diga-se a favor de alguns membros da Igreja Católica (não do Papado) que muitos deles apoiaram os perseguidos pelo Nazismo e até morreram em campos de concentração, como Claudio Galvão estudou, a partir de um caso específico, no livro "Campo da esperança" (EDUSC). Mas Nietzsche já ensinou: a Morte de Deus não é papo para beira de piscina, é um acontecimento mais que gigantesco. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
    • Jóis Alberto: Poema muito bom! - "Je f'rai un domain où l'amour sera roi"
    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”