O antropólogo de shopping, “gauche” na vida
22 de setembro de 2009 às 11:07 - Comentar
“O Vendedor”, de Tarsila do Amaral
Deve ser a alma danada ou uma praga jogada por algum desses especialistas em gestão de negócios ou gerência de RH.
Se o amigo de vez em quando for como eu, um antropólogo de shopping ou um sociólogo de botequim, talvez perceba o mesmo.
E como eu, também, quem sabe, sofra de saudades do antanho, aquele tempo em que a gente sabia o nome do padeiro, do açougueiro e do atendente da farmácia.
E todos eles, ciosos do dever, eram acima de tudo discretos – e atenciosos.
Hoje a reserva é artigo raro no comércio e, vá lá, no trânsito, no trabalho, na fila do banco, do supermercado.
Ninguém faz questão de se portar de maneira distinta, guardando ao menos, no caso de alguns vendedores, o recato da função.
Isso parece papo careta, eu sei. Mas quando a gente se coloca no papel formal do tal do consumidor, dá nos nervos.
Tento saber o preço de um livro, mas os dois funcionários conversam.
Reclamam do plantão do próximo domingo – um tenta passar a vez para o outro. Eu aguardo atendimento. Mas, besta, sinto vergonha, deixo o livro ali mesmo junto do caixa e vou procurar outra livraria.
Como na música de Cazuza, eu não causei mal nenhum a não ser a mim mesmo.
Os dois nem notam minha saída, mezzo à francesa, mezzo sertanejo brucutu entediado.
Já do lado de fora, olho para a vitrine e digo, me dirigindo aos livros, pobres e fiéis depositários da minha ira temporária: “meu amigo, que tenho eu a ver com seus plantões dominicais?”. Já não bastam os meus problemas?
Sei que vou morrer logo. Às vezes penso que sou o irascível de espelho, o que se tranca no banheiro e esmurra o vidro do xampu, o que despeja a raiva disparando a descarga do vaso sanitário.
Saio lívido, sereno, dessas experiências – puto com o ser humano, essa experiência fracassada.
Na lanchonete, as duas funcionárias não me notam, embora o ambiente esteja… vazio.
Peço uma coxinha e um refrigerante. O monstro que habita em mim tem fome.
Elas nem aí. Uma quer vender as férias. A outra aconselha: “fala com ele, a gente tá precisando mesmo; não posso ficar atendendo sozinha”. A primeira filosofa: “Mulher, será?”
Até olham para mim, mas sou inútil ali; não sou do Ministério do Trabalho, penso logo. Sou menos importante do que aquela bandeja de chucrutes, que ferve no óleo como o fogo do inferno.
Quero só um lanche besta, rápido, desses que só servem mesmo para adormecer a fera.
Triste, quase um juiz de conciliação, assisto a mais essa cena.
As pudicas que me perdoem, mas eu pensei sim: que consumidor chibata eu sou.
Experimento passar os olhos em volta e vejo lojas, quiosques e vendedores.
Todos batendo papo, conversando as besteiras alheias ao serviço. O consumidor, mero detalhe que, aliás, só vem atrapalhar.
Num quiosque onde se vende óculos modernérrimos, um dos vendedores saltita, quase numa perna só. Não está machucado – ouve música eletrônica, às alturas, enquanto alguém tenta perguntar algo.
Aqui e ali o dito cujo vendedor ainda sacode o cabelo e estala os dedos. Graças a Deus não há ali um globo colorido. Ele ia pensar que era boate e aí, mano, duvido quem o segurasse.
Quando me vejo em ambiente tão antropologicamente rico, mastigo feito pasto uma certeza, das poucas que tenho: toda vez que visto a camisa para sair de casa e ir “ao comércio” (ah! as saudades do antanho) deve vir junto, como uma etiqueta, algum acessório ou adereço que só eu não enxergo. É uma faixa drummondiana escrito assim: vai, consumidor, ser besta na vida.


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