O arco e a lira

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Em entrevista ao professor Marcel Lúcio, poeta Antonio Ronaldo rememora encontro com o compositor Sérgio Sampaio em Natal no início dos anos 90, proporcionando um passeio pela história recente da MPB e da literatura potiguar.

O compositor Sérgio Sampaio (1947-1994) se apresentou em Natal duas vezes nos anos 90. Na segunda passagem pela Cidade do Sol em 1992, o músico capixaba “acampou” por um período de aproximadamente quinze dias no apartamento de Antonio Ronaldo. Nesta entrevista, o poeta norte-rio-grandense revela a influência de Sampaio sobre sua poesia e relata particularidades da convivência com o músico capixaba.

Sérgio Sampaio é considerado um importante nome da MPB. Cantor e compositor, suas letras transitam por vários estilos musicais, percorrendo um caminho que vai do samba ao rock’n roll. Lançou os seguintes discos: Eu quero é botar meu bloco na rua (1973); Tem que acontecer (1976); Sinceramente (1982); Cruel (2006, póstumo). Em 1998, foi organizado o disco Balaio do Sampaio que reúne vários intérpretes cantando composições do artista.

Antonio Ronaldo é um artista representativo no cenário da poesia contemporânea do RN. Nos anos 70 e 80, sua produção literária foi relacionada à estética da poesia marginal. Em seus textos, estabelece um constante diálogo entre a MPB e literatura. Publicou em 1978 o livro mimeografado Usura colonial ou do incesto histórico entre nós e eles, em parceria com Adriano de Sousa. Ainda em formato mimeógrafo, publicou Matéria plástica (1980) e Amante Ladino (1985). Em 2000, lançou o livro Badulaques bombons/ Stars afins/ Certas canções insertas e, em 2003, publicou a coletânea de poemas Jeans avariado. No campo musical, participou, em 2008, do CD Zila Mamede: o exercício da palavra cantada, musicando oito poemas da poeta potiguar; lançou em 2009 o CD autoral Sátiro; e em 2010 o CD Novos Caetés, no qual assina todas as faixas que são interpretadas por outros artistas. No mês de março do corrente ano, o poeta lançou a obra Ao Judas atraente, livro de poemas mais um CD-encarte.

Com a palavra: Antonio Ronaldo; na memória: Sérgio Sampaio.

Como foram os shows de Sérgio Sampaio aqui em Natal?
Antonio Ronaldo: No início dos anos 90 estávamos mobilizados aqui em Natal, eu e vários companheiros músicos, numa espécie de coletivo que chamamos de TRAMPPO – Trabalho de Música Popular Potiguar. Além de mim, havia Manassés Campos, Leão Neto, Sueldo Soares, Odhaires, Romildo Soares e Edimar Costa. Questionávamos a pouca efetividade da carreira dos músicos potiguares, em termos de projeção nacional, tal como acontecia nos estados vizinhos, à luz da decantada “maldição de Cascudo” (Natal não consagra nem desconsagra ninguém). Partimos da hipótese de que o isolamento é que nos enfraquecia. Assim, propusemos a união desses artistas como experiência de trabalho conexo ou compartilhado, no tocante às estratégias de divulgação do que estávamos fazendo. No final de 1991, já havíamos amealhado um público digamos, razoável, para as agitações que promovíamos, geralmente festa-bar. Aparecia um ou outro convite para o grupo e foi nesse contexto que pintou a proposta do concerto do Casablanca, como janela para o show de Sampaio. O show foi, digamos, idiossincrático, tendo em vista alguns incidentes, como o fato de Sérgio não se conformar com o burburinho da plateia, embora fosse, para nós do Tramppo, uma coisa previsível naquele tipo de ambiente. Ele apelou várias vezes para que fizessem silêncio, mas sem sucesso. Acabou bebendo além do recomendável e foi dando o seu “piti” musicalmente, conforme ficou registrado em áudio. Acho que esse tipo de performance já era recorrente e muito característico daqueles tempos tão precários. Foi na noite de 29.11.1991, conforme reza o cartaz do evento, a partir das 22h. No ano seguinte, acho que no mês de setembro, Sérgio voltou a Natal, dessa vez para um evento de campanha a prefeito de Natal do candidato Henrique Alves. A proposta veio do jornalista Miranda Sá, que possivelmente integrava a equipe de marketing daquele candidato. O local era o Mario’s Bar, no CCAB-Sul, mas eu não compareci ao evento. Fui nesse final de semana para Mossoró. Alguns dias depois, já em Natal, recebi uma ligação de Tetê Bezerra me perguntando se Sérgio poderia ficar hospedado no meu apartamento. Eu topei de cara, pois tinha muita admiração e apreço por ele. Ele ainda fez um show num bar localizado no edifício Djalma Maranhão, que era gerenciado por Nazareno Vieira. Esse show eu assisti e foi perfeito. Intimista, sóbrio e sem tropeços. Não recordo o nome daquele bar.

Como se deu o seu encontro com Sérgio Sampaio?

Antonio Ronaldo: O primeiro encontro foi quando ele chegou no Casablanca, vindo do aeroporto, na noite anterior à do show de 1991. Estávamos bebendo, ele estava tocando para mim e um amigo. Havia outras pessoas que não recordo. Houve um momento em que esse amigo pediu que eu cantasse “Camisa de Força”, mas quando eu toquei o cara não gostou e reclamou, alegando que eu já estava bêbado. Foi quando Sérgio veio em minha defesa, alegando que eu estava tocando o violão direito. Acho que, por timidez, eu bebia além da conta para criar coragem de estar ali naquele convívio. No ano seguinte, ele ficou hospedado em minha casa, creio que por mais de quinze dias. Havia sempre muitos amigos, reuniões festivas, descíamos para beber numa cigarreira do condomínio. Após esse período de convívio, ele sempre me mandava recados, me aconselhando a controlar a bebida. Fez questão de ressarcir todas as despesas com interurbanos, apesar de eu não estar minimamente preocupado com isso.

Como estava a carreira e a vida de Sérgio Sampaio naquele momento, início dos anos 90?

Antonio Ronaldo: Naquele período a carreira dele estava estagnada. Há muito tempo sem gravadora, o último disco gravado tinha sido uma produção alternativa, o “Sinceramente”. Chamavam disco independente, o que significava dizer desvinculado da indústria fonográfica e geralmente, autofinanciado. Quando muito, financiado por amigos e incentivadores. Ele estava com um projeto em mente aqui em Natal e chegou a fazer uma fita demo contendo sete músicas inéditas: “Destino Trabalhador”, “Quero Encontrar um Amor”, “Uma Quase Mulher”, “Chuva Fina”, “A Rosa Púrpura de Cubatão”, “Pavio do Destino” e “Adiante”. Dessas canções todas foram gravadas e lançadas postumamente. Exceto “Adiante”, se não estou enganado ou desconhecendo fatos. É a canção que mais gosto dessas citadas. Mas aquele tempo foi marcado por falta de implementação dos projetos, pelo esquecimento por parte da mídia. Uma carreira sem nenhuma perspectiva àquela altura, justamente no momento em que a indústria fonográfica começava a ser desmontada. Fora do mercado e no ostracismo, paradoxalmente Sérgio estava cada vez mais criativo e qualificado em suas composições.

Qual a lembrança que ficou de Sérgio Sampaio?

Antonio Ronaldo: A lembrança mais marcante foi a de um sujeito mais experiente que se preocupava comigo, no sentido de me manter sóbrio, cuidar da saúde, embora ele fizesse exatamente o contrário. A imagem que ficou gravada dele foi a seguinte: quando eu ia dormir, ele ficava na sala, sentado junto à mesa com um telefone, cigarros e uma garrafa de pinga. Quando eu acordava para ir para o trabalho, ele ainda estava ali, do mesmo jeito. A rede armada bem ao lado, mas parece que ele nem se deitava. Embora áspero, era do tipo educado e respeitoso. Era um sujeito íntegro, pelo menos me parecia.

O que você sabe sobre a morte de Sergio Sampaio? Como foram os últimos anos do artista?

Antonio Ronaldo: Não tenho informações privilegiadas sobre isso. Sérgio havia me dito que tinha um vício associado de álcool com cocaína e que havia se livrado do pó. Todavia, a dependência ao álcool havia sido potencializada. Durante o período em que esteve em minha casa não teve nenhum problema de saúde, apenas bebia quase diariamente. Eu não tinha a menor ideia de que ele estava naquele estágio. Quando fui surpreendido com a notícia de sua morte, cheguei a sentir uma grande revolta. Fazia 15 dias que meu pai tinha morrido. Eu achei isso demais. Entre a última estada dele em Natal e a sua morte, cerca de um ano e meio. Nesse período ele articulava o projeto de gravação do disco que acabou sendo póstumo (Cruel).

Por que o talento de Sérgio Sampaio não é reconhecido pela crítica musical no país? Por que o nome dele não é lembrado quando se fala na produção musical dos anos 70?

Antonio Ronaldo: Penso que a crítica musical seguia a pauta da indústria fonográfica. Tudo cruel, tudo sistema. Sérgio estava alijado desse setor há algum tempo e não tinha um bom aporte em matéria de produção. Ele era arredio e não aceitava enquadramentos. Isso certamente o afastou de produções mais arrojadas, capazes de pautar a agenda dos críticos, ao longo de sua trajetória. Acho que ele já era um crítico desses críticos. Curiosamente, a letra de “Roda Morta”, assinada por Sergio Natureza parece se referir ou bem se aplicaria a essa situação com maestria. O mesmo posso dizer de “Meu Pobre Blues”, onde Sérgio critica acidamente os executivos dessa indústria.

Como e quando você conheceu a música de Sérgio Sampaio?

O “bloco na rua”² parece um start inexorável. Pois bem, eu acreditei nisso por muito tempo. Deixei lá para trás a época em que ouvia “Todo mundo está feliz aqui na Terra”, através da Rádio Rural de Mossoró. Acontece que, antes de morar em Natal, ainda em 1971, fiquei vidrado nessa canção. Mudei-me para cá no verão daquele mesmo ano e acabei me esquecendo da Sociedade da Grã-Ordem Kavernista. Levei alguns poucos anos para recuperar a memória. Naquela época, quando eu ouvia uma canção que me encantava, ficava fuçando o autor na expectativa de muitas e muitas outras peças deleitantes. Foi assim com Caetano, foi também assim com Sérgio. Durante muito tempo busquei o long-play “Eu quero é botar meu bloco na rua”, até que consegui em Mossoró, na Discofitas. Trouxe para Natal e apresentei aos amigos, compartilhando o prazer daquela audição. Não demorou para que esses amigos também se tornassem fãs do Sampaio e num circuito bem outsider, passou-se a cultuar a própria personalidade desse artista. Lembro que tocava “Leros e Leros e Boleros” na Rádio Rural de Natal. Sérgio para mim concentra características de várias gerações de artistas, mas eu somente compreendi o alcance disso depois de escutar o acervo que somente foi difundido após sua morte.

A música de Sérgio Sampaio influenciou a poesia e produção musical do poeta Antonio Ronaldo?

Antonio Ronaldo: Sempre. Ele dialogava constantemente com outras referências já postas no meu universo criativo, mas havia peculiaridades estéticas que me atraíram muito. Acho que todo artista possui uma personalidade que transcende o próprio talento. Isso faz com que o seu discurso encontre eco mais facilmente em nossa vida. Referências literárias também havia frequentemente na obra dele; essa interseção entre a poética formal e a cultura de massas por si já seria um grande viés de atração ou conexão entre o que ele fazia e o que eu sempre busquei fazer. Acho que tínhamos pelo samba e sua tradição o mesmo tipo de apreço.

Quais as melhores músicas de Sérgio Sampaio?

Antonio Ronaldo: Eu gosto sinceramente de quase todas, assim de uma forma entusiasmada. Poderia destacar “Cabras Pastando”, “Não Adianta”, “Meu Pobre Blues” e “Velho Bandido”, mas seria bastante injusto com relação às demais. Claro que o gosto pessoal prevalece numa indicação dessas. Grande parte do acervo eu somente conheci após a morte dele e isso representou uma redescoberta; uma ampliação daquele universo que eu vinha pesquisando e apreciando ao longo da minha vida. Tive que redimensionar a importância dele no contexto da MPB. Eu pensei que soubesse tudo…
No final dos anos 90 e início dos anos 2000, Sérgio Natureza e Zeca Baleiro produziram discos em homenagem a Sérgio Sampaio; vez ou outra um grande nome da MPB regrava uma música de Sampaio; há alguns anos artistas de Espírito Santo promovem festival em homenagem a Sampaio; em Natal também há uma mobilização no período de aniversário de Sampaio.

A poesia de Sérgio Sampaio tem algo a dizer para o público contemporâneo? A poesia de Sérgio Sampaio vive?

Antonio Ronaldo: Eu sempre responderia que sim, mas o tempo todo reclamei da falta de reconhecimento. Zeca faz um resgate valioso demais, acho muito altruísta a atitude dele. Ele estabelece uma conexão inicial entre o tempo de Sérgio e as novas gerações. Fiquei entusiasmado com o Festival Sérgio Sampaio, sobretudo por isso estar acontecendo em plagas capixabas. Sempre tive a impressão de que, embora “Filho do Espírito Santo”, Sérgio acabou sendo mais um carioca periférico do que propriamente um capixaba. Hoje existe bastante espaço para operações de resgate no âmbito da cultura e isso ajuda a valorizar essa obra tão contundente e relevante para a contemporaneidade. Estou na torcida, com bandeira na mão. Acho que os conteúdos existenciais incertos da cultura das últimas décadas sempre irão repercutir no presente e no futuro da cultura brasileira. Espero que o culto a Sérgio pelas novas gerações ganhe as proporções merecidas.

 

* Marcel Lúcio é professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira do IFRN – Campus Natal Cidade Alta

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