O Brasil em “guerra cultural”

Tácito Costa
CulturaDestaque

Nos últimos meses não foram poucos os que escreveram sobre a ausência das pessoas nas ruas, ou de panelas batendo em varandas gourmets, contra a corrupção. Alguns, mais otimistas, argumentando que seria possível juntar todas as correntes políticas nas ruas. Afinal, todos são contra a corrupção. Isso bastaria para mobilizar a população.

No entanto, a questão é mais complexa do que pensam algumas cabeças à direita e à esquerda. O combate à corrupção é apenas um dos aspectos que remetem a profunda cisão da sociedade brasileira atualmente.

Eu já tinha intuído isso. Mas foi lendo o ensaio “A sociedade como campo de batalha”, de Guilherme Freitas, publicado na excelente revista Serrote, que as coisas clarearam de vez.

O texto foi escrito antes dos recentes episódios de censura, moralismo e obscurantismo de parte da sociedade, liderada pelo pessoal do MBL, com endosso de figuras políticas como João Dória e Marcelo Crivella e oportunistas menos votados ou sem voto, a peças de teatro e exposições em museus.

O autor emprega o termo “guerra cultural” para explicar o que está acontecendo. E olhando a realidade, sobretudo a partir das redes sociais, constatamos exatamente isso.

Por isso, parece-me impossível a proposta de reunir gregos e troianos políticos nas ruas contra a corrupção e retirar Temer e sua gang do poder. E se há um relativo consenso contra a corrupção, não há concordância em praticamente mais nada.

Pontos cruciais para a direita e a esquerda, afastam a possibilidade de reunir todos no mesmo quadrado. Entre outras, poderia citar questões relativas à liberação do porte de armas, “escola sem partido”, privatizações, estado laico, aborto, “intervenção militar”, casamento homossexual, homofobia, feminismo, índios, Amazônia, MST… O leque é amplo e variado.

Seria bem extravagante, surreal mesmo, uma manifestação contra a corrupção com parte das pessoas portando cartazes defendendo “intervenção militar”, Moro, Bolsonaro, Mourão e Dória, que não houve golpe, redução da maioridade penal, censura, ataques às religiões afros, “escola sem partido”; e outras a favor do aborto, das cotas, da Bolsa Família, dos direitos humanos, de Lula, Dilma e Luciana Genro, contra a homofobia, Moro e “Fora Temer” e dizendo que houve golpe.

Sem condições. Água e óleo. Impossível a mistura. Algumas dessas bandeiras acima transcendem as lideranças e partidos políticos e as pessoas não abrirão mão de defendê-las.

Esse choque, ou “guerra cultural”, para usar o conceito de Guilherme Freitas, deverá se acirrar nos próximos anos no Brasil. Aliás, já estamos vivendo isso, com os recentes surtos de moralismo e intolerância contra manifestações artísticas. Essa histeria tem precedentes históricos – a “arte degenerada”, na Alemanha, na década de 1930, por exemplo – que podem nos ensinar alguma coisa.

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Tácito Costa

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