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O Brasil hamletiano

O nosso País, nos últimos tempos, vive intensamente a dúvida do Príncipe da Dinamarca, ser ou não ser. Aliás, Oswald de Andrade, em seu Manifesto Antropofágico, já havia abrasileirado a expressão com trocadilho genial: “Tupi or not tupi, that is the question”. Ser ou não ser, eis a questão. O monólogo do príncipe Hamlet, na obra imortal de Shakespeare, mereceu infinitas citações e vária interpretação. Em uma destas, autores lembram que o to be em português e em espanhol, diferentemente das outras línguas, pode significar “ser” ou “estar”.

Um dia, levei o Mestre Câmara Cascudo para uma comemoração shakespeariana na então Galeria Arte na Praça André de Albuquerque. Em sua palestra, ele disse que considerava o português um código de guerra, língua única, flexível, inimitável, mas para a qual era difícil tradução. Assim, a tradução daquele “or” seria, ao mesmo tempo, ser “ou” não ser e ser “e” não ser, ou seja, uma alternativa e a outra aditiva.

De qualquer maneira, a dicção na tragédia inspira uma dúvida, hesitação. É mais que uma questão filosófica, é existencial, a vigília ou o sonho, sofrer a situação ultrajante ou resistir armado, continuar vivendo ou morrer.

O brasileiro normal, comum, que acredita no valor do trabalho, da honradez, da Justiça, da natural integridade, vive sob tensão, sem tempo para refletir. Convive com dilemas sucessivos. Não é previsível o que poderá acontecer, os caminhos se bifurcam, ninguém sabe ao certo que rumo tomará o País.

No plano político, o Congresso duvida, mas afasta a presidente eleita. Por duas vezes, o presidente Temer correu o mesmo risco, mas foi mantido na função. Daí ressurge a ideia da mudança de modelo: adotaremos o presidencialismo, o parlamentarismo, ou continuaremos com essa forma híbrida de regime? Ou ainda: persistiremos com essa forma mista? O voto deve ser obrigatório ou opcional, dispensável por ser ineficaz? Já se consultou o povo acerca do desejo de restauração da Monarquia? Esta, possivelmente, seja a melhor opção para que a ritualística e dignidade da realeza fosse assimilada por novos políticos e dirigentes na conquista da estabilidade da nação.

Com a crise de insegurança, já tem gente com saudade dos rigores do regime militar passado.

Ter ou não ter, eis a questão. O ter é básico para a harmonia social, a diminuição da nossa degradante desigualdade econômico-social que acarreta outros desequilíbrios comunitários.

De todas as perplexidades, a mais grave é procurar prever se o comportamento político e social adotará a decência ou permanecerá na corrupção sistêmica. De um lado, está a Justiça com a Lava-jato; do outro lado, os apontados por ela que querem barrar a Operação.

No dia a dia, o brasileiro deixa o entusiasmo constante, a euforia pela apatia cívica, gerada pela decepção. A mídia relata desmandos e nomina novos políticos criminosos.

Com tudo isso, mesmo deitado eternamente em berço esplêndido, o Brasil não dorme. Apesar da mais profunda crise político-jurídica, o Brasil volta a crescer na economia e na moral pública. Tem razão o Mestre Cascudo: “O melhor produto do Brasil ainda é o brasileiro”.

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Diógenes da Cunha Lima

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