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O buraco

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Lindalva gostou do lugar em que viveria dali para frente. Era uma casa de barro vermelho — deixando à mostra a estrutura feita de varas de marmeleiro — com sala, cozinha e dois quartos. Era cercada por algumas árvores, entre elas um juazeiro frondoso, que garantia sombra na maioria do dia, além de outros pés de frutas, como abacate, goiaba e manga. A casa não era muito maior do que a dos pais, mas não teria que dividir com sete irmãos, somente com o marido João e com os filhos que não tardariam a vir.

Andou mais para trás, onde conheceu o “buraco”, como ela começou a chamar o barranco de uns dez metros de altura onde terminava o terreno, localizado na parte mais alta do precipício. Lá embaixo, no fim do declive, ela pôde ver a cacimba comunitária — com cerca de um metro e meio de diâmetro, sustentada internamente por tábuas na parte superior, e única fonte de água da vizinhança.

— É alto, mas é perto — amenizou João ao ver a expressão de desânimo dela ao se deparar com o barranco.

Lindalva prestou atenção não só na inclinação acentuada, mas também no terreno irregular, com um caminho estreito, espremido entre plantas e pedras, que exigia habilidade tanto na descida quanto na subida. Ficou imaginando o sofrimento de subir com a água todos os dias, pois naquele pequeno contrato matrimonial caberia a ela as tarefas domésticas.

— Quando as coisas melhorar, nois constrói uma casa lá embaixo, num terreno mais perto da cacimba — disse João procurando fincar um sorriso no rosto para que a mulher não terminasse aquele dia desanimada com o novo lar. O sítio fora herança de família e a casa de taipa e a cacimba já estavam lá desde que ele se entendia por gente.

— Carece não, João. Tá bom assim. Como ocê falou, o buraco é fundo, mas a cacimba é perto… Evita andar léguas e léguas carregando lata d’água na cabeça — respondeu Lindalva de forma sincera, embora no fundo a ideia de construir uma casa mais próxima da cacimba não saiu de todo da sua cabeça, mesmo não sabendo se João tinha falado com convicção ou apenas tentara agradá-la. Na verdade, a necessidade de uma nova morada apenas cresceu com o tempo, com o trabalho diário, que se mostrou repetitivo e extremamente exaustivo, principalmente com a vinda dos filhos — nove ao todo, dos que vingaram, pois era um tempo de grandes famílias e de grandes perdas também.

Cada filho que nascia era a certeza de mais trabalho, embora trouxesse também uma esperança: a possibilidade de que as crianças pudessem, com o tempo, ajudá-la nas tarefas domésticas, que incluíam, além do transporte da água, rotinas como varrer a casa, cortar a lenha para o fogão, lavar a roupa e cuidar das galinhas e de um ou outro bicho doméstico. Só que, devido à dificuldade de alimentar muitas bocas, os meninos, quando chegavam na idade que permitisse o manuseio da enxada, iam para a roça com o pai; já as meninas iam, ainda novinhas, para a cidade trabalhar nas casas de família, sempre deixando para ela as tarefas mais pesadas, principalmente a lida diária com o “buraco”. Era como a pena imposta a Sísifo, condenado na Mitologia Grega a rolar montanha acima uma grande pedra, que sempre rolava para baixo quando chegava ao cume.

Assim como Sísifo, cuja rolagem da pedra era o único objetivo de sua existência, o fardo de carregar latas d´águas para cima e para baixo naquela subida difícil e perigosa tomou uma dimensão muito grande na vida de Lindalva, eclipsando todas as suas outras tarefas. Com o tempo, o “buraco” personificou o próprio sofrimento diário de uma existência penosa, monótona e eternamente presa àquele lugar. Não que ela tenha em algum momento pensado em outra vida que não aquela — que tinha sido a vida de sua mãe, da avó, da mãe da avó… Viu algumas irmãs, primas e vizinhas irem para a cidade trabalhar como empregada doméstica. Visitou a cidade algumas poucas vezes, mas nunca teve vontade de deixar a vida no sítio e na pequena vila. Para ela, a cidade era grande, desconhecida e desorganizada, diferentemente da vila, onde todos se conheciam. Gostava das missas aos domingos, d0s festejos e quermesses que mobilizavam todos na comunidade; dos banhos de rios e dos namoros por trás da igreja. Embora ajudasse a mãe nas tarefas domésticas, o trabalho era dividido e não se tornava tão pesado, diferentemente da sua rotina solitária de dona de casa, principalmente no grande esforço em transportar a água, esforço de uma dimensão não imaginada por ela.

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Assim que começou a rotina de descer e subir o Buraco, Lindalva notou um terreno próximo da cacimba e ainda dentro da propriedade da família de João. Enquanto equilibrava a lata cheia na cabeça, com cuidado para não escorregar numa pedra ou se enganchar numa raiz mal enterrada, ficava imaginando sua nova casa naquele terreno que ainda era em grande parte coberto pelo mato. Esses pensamentos a faziam ganhar força para enfrentar o peso da lata e a dificuldade do declive. Ficava mesmo imaginando detalhes da nova casa: vislumbrava-a maior do que a atual e com algumas melhorias planejadas por ela. Chegava a sonhar à noite com a mudança e uma nova vida sem o “buraco”.

Com o local em mente, veio o momento de falar com o marido. Escolheu uma hora em que ele estava tranquilo, no começo da noite, sentado no chão da pequena varanda da frente da casa, fumando um cigarro que tinha acabado de enrolar e esperando o sono chegar. Lindalva contou do terreno, da proximidade da água, da possibilidade de novas melhorias na residência. Não lembrou da promessa dele de construir uma casa nova para não parecer cobrança.

Enquanto a mulher falava, João continuou a olhar impassível para cima, como se procurasse identificar uma estrela entre as tantas que apareciam no céu ou estivesse mesmo com a cabeça em outro lugar. Quando a mulher terminou, ele se virou.

— Num esqueci da promessa de levantar uma casa mais perto da cacimba. Mas ocê sabe a dificuldade dessa empreitada. O trabalho que vai dá. As coisas num tá fácil. A roça num pode parar… Vou vê um jeito, vou vê se arranjo ajuda dos meus irmãos…

Depois de responder, virou-se de volta e continuou a fumar olhando para o céu, sem dar chance a qualquer questionamento da mulher.

Lindalva sabia que não adiantava falar mais nada. Conhecia o jeito duro do marido — não diferente dos outros homens da região. Qualquer coisa que falasse ia ter o efeito de apenas enfezá-lo e tornar mais longe o projeto da casa nova. Até porque ela sabia também o trabalho e a dificuldade que era construir uma casa, que envolvia não só a construção em si, que já demandava muito esforço, mas também a limpeza do terreno, o corte da madeira para varas, linhas, colunas, portas e janelas, além da fabricação das telhas e do preparo do barro. O melhor era esperar para voltar ao assunto mais na frente, o que fez durante anos.

Tentou por diversas vezes sensibilizar o marido, mas sempre a resposta, com uma ou outra pequena alteração, era praticamente a mesma: o trabalho para construção, a dificuldade de deixar a roça, a vaga esperança de que um dia poderiam começar a construção. Nem quando o trabalho doméstico aumentou, devido ao nascimento dos filhos, ela conseguiu melhor resposta do marido, o que a deixou, intimamente, decepcionada com a insensibilidade dele. No entanto, isso não a desanimou do seu projeto: tinha realmente esperança de um dia conseguir a nova casa e a esperança lhe dava forças e motivo para enfrentar o dia a dia pesado do sítio.

Viveu assim, entre realidade e sonho por muito tempo, mesmo com a idade já avançada e com a doença nos ossos, que terminaram por liberá-la do “buraco”. Foi substituída por uma das filhas que voltou da cidade com a neta adolescente para ajudar no sítio. No entanto, Lindalva não deixou de pensar na construção da nova casa, seja para liberar sua filha e neta do trabalho pesado com a água, seja por sua luta pessoal com o “buraco”.

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— Mãe, a senhora podia comprar algo para levar para casa… Esse queijo está com a cara boa… — disse uma das filhas para Lindalva enquanto andavam no mercado público, numa das poucas visitas da mãe aos filhos e netos que moravam na cidade.

— Num tem precisão. Num falta comida lá em casa.

Por essa época, Lindalva passou a receber uma aposentadoria do Estado. Viu como a grande chance de realizar o seu sonho, que deixava de ser uma vaga esperança para, enfim, se concretizar. Só que agora não era mais uma casa de taipa que ela queria construir, mas uma de alvenaria com luz elétrica e água encanada e localizada na antiga vila — que tinha crescido e tomado jeito de uma pequena cidade. Começou então a guardar tudo o que recebia, cada centavo, para esse fim.

— A senhora tem que deixar de gastar todo o seu dinheiro com a construção dessa casa, com esse desejo besta e pensar mais na senhora, em comer melhor, cuidar da saúde, se vestir…

Lindalva virou-se de forma brusca e apressou o passo, deixando a filha falando sozinha. Não gostava que os filhos ou ninguém se intrometesse na sua vida. Durante todos esses anos, cuidou muito bem do sítio, do marido e dos filhos, sem interferência de ninguém, pois João, o único com autoridade para tanto, quase nunca ligava para o que ela estava fazendo, envolvido em suas próprias coisas. Aprendera a se virar praticamente sozinha, o que, com o tempo, a deixou mais dura, calejada e sem muita paciência, principalmente para discutir sobre seu projeto de construir a casa e se livrar definitivamente do “precipício devorador de vidas” — como ela já estava tratando o barranco nos últimos tempos.

Não adiantava falar que todo esse esforço não tinha mais serventia para ela, que já não retirava mais água da cacimba, e nem para ninguém: havia a intenção de instalar um motor na cacimba para bombear a água para cima — resultado da melhora da situação financeira da família e da chegada de energia elétrica no sítio. “Daqui que isso aconteça, num vou tá nem mais viva”, pensava ela, não colocando muita fé nas promessas dos filhos, como aprendeu a não acreditar na disposição de João de erguer uma nova casa.

Decidida, primeiro juntou dinheiro para comprar o terreno onde seria construída a casa de alvenaria. Depois fez o mesmo para todo o material necessário e, por fim, para levantar a casa. Mas o destino não foi muito bom com ela. Sua doença intensificou-se exatamente no período em que a nova casa estava terminando de ser construída. Morreu poucos dias antes da casa ser entregue. E tão logo a família mudou-se para o novo lar, bateu na porta uma vizinha, bem mais nova que Lindalva e carregando uma grande e pesada mala.

– Eu sou viúva e agora que ocê tá viúvo, eu vim morar com ocê – disse ela para um espantado João, já velho e sem muito o que esperar da vida.

Sem Lindalva, foi a vizinha quem terminou por usufruir da casa e de seus benefícios.

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