O Canto de Pedro

Sheyla Azevedo
DestaqueMúsica

– Pois vá!

Foi a frase enfática e um tanto impaciente que o menino Pedro ouviu da mãe, após dois insistentes anos em pedir-lhe para ensaiar na banda de música do Colégio Padre Miguelinho.

Três situações distintas o levariam àquela determinação: o vizinho da sua casa no Alecrim, vendedor de peixe “avoador” na Feira, e que tinha uma vitrola e um único disco, com duas músicas de cada lado do bolachão; um outro vizinho aposentado – que só vivia de pijamas – e sua esposa e filhas que tinham e ouviam um rádio, e que ele conseguia ouvir do lado do seu quintal ou na calçada de casa os prefixos e dobrados das bandas de música, que anunciavam os noticiários; e os primos alguns anos mais velhos, Adilson e Francisco, que estudavam na mesma escola que ele, a João Tibúrcio, e sempre falavam das lições que recebiam do professor da banda, que se reunia com os alunos debaixo das árvores, no Padre Miguelinho.

– Eu tinha cinco anos. Passou uma pessoa na hora da aula recrutando nomes para participar daquela banda. Meus primos deram o nome. Eu não quis dar o meu sem falar com meus pais. Quando cheguei em casa, minha mãe que era costureira e estava sempre ao pé da máquina, ponderou e disse que eu ainda não tinha idade para tocar instrumentos. Fiquei muito decepcionado.

Mas Pedro não desistiu. E, aos sete anos voltou a perguntar e ouviu o consentimento contrariado da mãe. Não podia ela adivinhar que seu menino de cabelos vermelhos – cor herdada da descendência holandesa – nascido em Baixa Verde, vindo para Natal ainda muito pequeno, se tornaria uma das maiores referências em música erudita do Estado, do Brasil e, quiçá, sem medo de exageros, do mundo. Afinal, aquele menino que adorava música e futebol, hoje é o conhecido monsenhor padre Pedro Ferreira, regente, maestro e uma sumidade quando o assunto é música.

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Foto: Eduardo Alexandre Garcia (Dunga)

Ele é um dos únicos onze Doutores em todo o mundo – num período de 50 anos – que conquistou o título Summa cum Laude (que poderia ser traduzido do latim como “Com a maior das honras”, o nível máximo de Excelência, nota “A” tanto na Tese quanto nas provas) nos dois Doutorados distintos que fez em Filosofia e Música Sacra, quando concluiu os estudos em “Regência Monódica e Polifônica” e “Harmonia na Estética Agostiniana”, feitos nas Universidades, respectivamente, de Música Sacra e Gregoriana, ambas em Roma (Itália).

Responsável pela criação dos maiores e significativos coros (ele corrige o interlocutor, explicando que “coral” é um adjetivo, porque é uma forma de fazer um coro, a polifonia de fazer um coro. E um coro é uma forma simultânea). Como o Madrigal, em 1956 (pertencente à Escola de Música da Universidade Federal do Rio Grande do Norte), o Coral Lourdes Guilherme (do IFRN); o Coral Canto do Povo, em 1988 e, mais recentemente, a Camerata de Vozes, em 2011 (essas duas últimas pertencentes ao Governo do Estado, através da Fundação José Augusto).

Mas o que muita gente não sabe é da sua relação com as bandas de música.

– A Funarte me fazia dar cursos não só para regentes de coro, como para regentes de bandas. Porque soube da minha trajetória de menino tocando em banda. Dei muitos cursos para mestres de bandas na década de 1970 e alguns começaram a formar bandas nos seus respectivos lugares. Tem muita gente que passou por mim várias vezes.

Mestres como Bem-Bem, por exemplo, passaram pelas aulas de padre Pedro. Foi ele quem criou a Banda Sinfônica da UFRN que, posteriormente, foi transferida para a gestão da Prefeitura de Natal.

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Foto: Eduardo Alexandre

Claro, que existe um certo orgulho ao falar dessas conquistas e de sua trajetória com a música. Mas não dá para deixar de notar um certo ar de desdém, de brincadeira e de leveza no tom de sua conversa.

– Existem duas coisas que eu mais detesto na vida: coentro e estudar. Então, eu fiz esses dois doutorados em apenas seis meses. Porque, como não gosto de estudar, queria acabar logo.

Padre Pedro Ferreira, que já foi secretário do arcebispo de Natal durante nove anos, atualmente é padre auxiliar na Paróquia de Lagoa Seca. No início desse ano, ele pediu afastamento do cargo de comissão da Fundação José Augusto, onde trabalhava como regente da Camerata de Vozes, para se dedicar à concretização de um trabalho que ele desconhece se existe outro igual sendo feito, ou já feito, intitulado – provisoriamente – de “O Cantus Firmus – A Evolução das Raízes do Canto à Polifonia”. Segundo ele, não houve resistência ou desaprovação ao seu pedido de afastamento. Pelo contrário. Seu pedido foi acatado pela presidente da Fundação José Augusto, Isaura Rosado, que se comprometeu em apoiá-lo nessa pesquisa

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– Eu tinha vontade de fazer esse estudo, porque quando as pessoas se referem ao Cantus Firmus, elas se limitam a dizer que ele é “antigo”. Então, eu vou aprofundar os estudos dessas raízes – que são antigas mesmo – até a polifonia, do ponto de vista técnico e evolutivo. É disso que eu vou tratar. Eu poderia até pensar numa estrutura geral que eu vou distribuir a matéria em conceito de música sacra. E isso vai levar entre 30 a 35 páginas, só para dizer o que é música sacra. Porque todas as civilizações do mundo, quando começam a aparecer, revelam alguma religiosidade. E a música sacra pode ser erudita ou popular no sentido simples.

E, enquanto fala sobre seu objeto de estudo, mostra enormes gráficos e símbolos que ele mesmo desenhou em grandes cartazes e espalhou pela sala de seu apartamento, austero, e quase espartano.

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Foto: Eduardo Alexandre Garcia

Mesmo sendo uma boa tarde de sol, as cortinas de cor cinza permanecem fechadas. Um ventilador auxilia na ventilação do ar. Ele está sentado numa cadeira de balanço de madeira e a reportagem senta-se diante dele, num sofá bem simples. Dando para notar no canto extremo do assento que há um travesseiro e um lençol dobrado. Onde, provavelmente, o prático e solitário dono da casa dorme, após passar horas mexendo nos seus gráficos e escritos. A casa é absolutamente habitada por música. Seja na figura do dono, seja nas prateleiras espalhadas por todos os cômodos vistos, ocupadas em sua grande maioria por CD´s.

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Nesses cartazes estão a evolução da música. Dos símbolos que mais parecem desenhos rupestres até as claves de sol que conhecemos. Todos desenhados por ele.

O começo

Mas muito antes de chegar aos Cantus Firmus, quando a mãe o permitiu que fosse estudar com o professor José Martins, debaixo de um pé de fícus, no Colégio Padre Miguelinho, ao lado de cerca de 90 meninos, os quais sequer tinham instrumentos suficientes para serem tocados, a música não se separou mais dele. O talento era tão evidente que em pouco tempo, ele já foi encaminhado para o subtenente Enéas. À época, o segundo regente da Banda da Polícia, que pertencia ao Departamento de Educação.

– Eu sempre quis tocar trompete. A posição dos dedos nas três teclas do instrumento. Trompete é um nome diminutivo. O certo é trompa. Trompete é uma trompa menor. Trombone é uma trompa grande. Quando ainda não tinha o instrumento eu automatizei os movimentos. Mas ainda tinha de ajeitar a boca. Conformar a boca na cavidade do instrumento. Naquele dia do ensaio – já na Escola Industrial – um rapaz chamado Geraldo estava atrasado. O trompete estava passando de boca em boca. Quando chegou em mim, eu toquei o que sabia. Aí, o contramestre, Abdiel, disse ‘ei, tem um novato aí tocando a escala toda’. O professor pediu para eu fazer um dobrado bem simplesinho: dó-ré-dó-lá; dó-dó-ré-do-sol. Dó-si-sol-fa-mi; dó-mi-sol-mi-ré-dó.

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Não demorou muito e ele ganhou um trompete para chamar de seu, embora não pudesse levar para casa. À mãe foi entregue um corte de tecido para costurar o uniforme da banda, junto com um quepe e um par de sapatos.

A carreira de integrante da banda só foi interrompida por conta de um outro sonho: ir para o Seminário, onde chegou aos 11 anos, por iniciativa própria. Ele ficou sabendo que o capelão do Abrigo Juvino Barreto, Emerson Medeiros, era também o vice-reitor do Seminário. E ele quem tomava conta das vocações.

– Eu morava na Presidente Bandeira e fui ao vice-reitor. Ele me achou estranho, pelos cabelos vermelhos, por ser sardento, e me perguntou ‘você é assim, por que? E eu disse que era descendente de holandês. Naquele tempo todo seminarista que tinha problemas de disciplina, o reitor mandava para o psiquiatra Doutor Machado. Se o seminarista fosse até ele, o seminarista já sabia que não voltava mais. Por conta do meu cabelo, fui antes. O vice-reitor desconfiado, me mandou para Doutor Machado antes de decidir se eu deveria ir para o Seminário. Ele fez um bocado de testes comigo e fez um parecer favorável. (E dá uma risadinha). Só soube disso bem depois.

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No Seminário, como não havia instrumentos musicais e ele não podia se distrair muito jogando bola (outra grande paixão), padre Pedro ainda muito cedo passou a lidar com vozes. Tendo sido responsável por formar o Coral do Seminário, já no segundo semestre em que morava lá. E não parou mais. Depois que se ordenou, tornou-se professor do Seminário e levou o Coro para a Escola de Música da UFRN (o Madrigal), onde foi aprovado como professor, mesmo sem nunca ter entrado numa faculdade de música. Tirou em primeiro lugar naquele concurso para regente e, como não tinha documentação formal que comprovasse sua formação, a UFRN instaurou uma comissão – composta por professores de Recife – para atestar sua excelência e lhe deram o título de Notório Saber.

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– O som instrumental me fascina. Mas a beleza da voz humana é um negócio fantástico. Há quem ache que a audição é o sentido mais interior. Já no ventre da mãe, somos capazes de ouvir e de identificar determinados sons. Eu me refiro à complexidade da música sobre dois aspectos: um que nos leva a uma concepção transcendental, porque a materialidade da música é bem menor que o seu aspecto abstrativo. É exatamente por essa abstração de que ela é portadora, que há essa penetração nos sentimentos, que às vezes independe do conhecimento. Há pessoas menos preparadas academicamente com uma capacidade de absorção musical mais significativa do que quem às vezes têm um preparo formal. É porque a música além de ser uma ciência, é uma arte.

A música, o canto de Pedro vem da vitrola de corda do vizinho; do rádio que tocava os dobrados; do trompete “roubado” por talento do rapaz que chegara atrasado no ensaio; vem da polifonia das vozes contemporâneas, que nasceu dos cantos “antigos” que ele decodifica em desenhos de notas musicais, quando sequer notas musicais ainda tinham sido desenhadas.

O canto de Pedro é uma voz firme e sonora; são braços e mãos que se levantam como quem sabe reger a própria vida e seus movimentos.

 

 

A reportagem agradece a: Francisco José Marinho (coordenador de Bandas da Fundação José Augusto; Isaura Rosado, presidente da FJA e o fotógrafo Dunga, pelo apoio e acolhimento.

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Sheyla Azevedo

Comentários

1 comment

  1. Edgildo Giordano 6 junho, 2017 at 05:18

    Excelente reportagem, Sheyla..Padre Pedro foi meu professor de CANTO ORFEÔNICO (era matéria obrigatória) na Escola Industrial de Natal…Nos idos do ano 60’s!!!

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