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O Canto que Chora

A Maurício Boga Borja

Do cantante de flamenco a que dei ouvidos
No bairro obreiro de San Idelfonso
Saía-lhe uma mistura de música e lamento

Que entoava mais pra dentro que pra fora
Como se rói-rói, para ao fim libertar-se
Do grilhão que sustém a dor imensa

Extraída melodia de goela exausta
Sai cortada, aos pedaços, qual soluço
Fundo, a tirar canto anterior à linguagem

Lamentação nascida para o sincero
Que resiste ao que não signifique verdade.
Ritual, como se faina, a lustrar sentimento

Diálogo emotivo de voz e guitarra a canção
Cigana, dispensa às vezes companhia e
Aí canta nua, seu cante só, a palo seco

Impressão de que passeia às bordas da taça,
Do abismo, do nervo de fímbria exposta
Corda esticada sem temor que se rasgue

Um quê de drama, rosário de purgação?
Ímpeto na busca para chegar ao supremo?
Ou apenas aula de afinação da voz, da alma?

Ecos a abrirem incessantes a hora precisa
De apaziguar o pesar na elevação do grito
Que chega para salvar o canto sem salvação.

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