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O casarão da Quinze de Novembro

ruinas

Foto: Canindé Soares

No emaranhando desse silêncio, teias de aranhas, poeiras, fuligens perambulam no meu amontoado, onde procuro me enroscar ainda mais, sem querer fugir, sem precisar sair do barulho que buzina lá fora.

Os fantasmas me abraçam, acolhem-me aos seus aconchegos, quando o acalanto vira música de calmaria.

Telas e molduras projetam no écran a cidade da minha infância. Antiguidades relembram a mesa posta, meu pai, meus irmãos, minha mãe servindo, porcelanas com anjos barrocos mostram a sutileza e a simplicidade do outrora de antigamente. E faço as pazes com os deuses da literatura, folheando personagens que o tempo não vivia jamais, ali, estático, jaz, páginas verticalizadas, hibernando na infinitude desacordada.

Quando as paixões se reencontram, o silêncio é ensurdecedor, unhas carcomidas, lábios trêmulos, assim, a adolescência diante da inesperada juventude.

O Casarão da Quinze de Novembro é o berço acolhedor dos anjos vagabundos que saem à procura das esquinas, vilas, vielas, becos sem saídas, digamos, os céus apócrifos, os céus profanos, de musas nuas, que bebem no mesmo copo, a saliva servida do dia anterior.

Paixões recolhidas, assim são as enciclopédias, os dicionários sem verbetes, os romances de finais infelizes, os poemas interpretados, definidos.

Adormeço, quando me dou conta do tempo, o tempo fugiu de mim, ou melhor, dorme ao meu lado, no escuro claro de breu. O escuro faz com que eu o enxergue, é uma aurora necessária.

Rascunhos em forma de necessidades, abreviam a ansiedade, o eterno possuir, desagregando das minhas posses, bolsos esmiuçados, almas lavradas à próxima safra ou saga da descontinuidade.

O Casarão da Quinze de Novembro, armazém de silos palavras, celulose maturada, desintegrando-se ao processo de planta, pinhos, eucaliptos reflorestados.

Dou um abraço no lavrador, bato a poeira da bunda e vou embora.

Adeus, Casarão da Quinze de Novembro!

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