O ceramista que decidiu viver de arte em suas várias possibilidades

Sheyla Azevedo
Artes VisuaisDestaque

Como seria a arte de falar através das mãos? Sentir os fragmentos da terra se transformando numa narrativa?

Escultura da série "Mulheres sentadas"

Escultura da série “Mulheres sentadas”

Cerâmica com pigmentação que parece cobre

Cerâmica com pigmentação que parece cobre

Conversando com o ceramista Luiz Menezes, 50, dá para compreender, sem muito esforço, a dimensão do trabalho de um escultor. Inicialmente tímido e de poucas palavras, a coisa muda de figura quando ele começa a falar sobre o ofício que o chamou há dez anos e o fez largar de vez a profissão de administrador de empresas e abraçar por definitivo o conceito de “viver de arte”.

Ele estava tão determinado que assim que decidiu ser artista, para poder largar o trabalho na empresa familiar de construção civil, foi fazer Artes Plásticas na UFRN (atual graduação em Artes Visuais) e também fez especialização em Arte Terapia. Logo após se formar, tornou-se professor substituto no mesmo Departamento de Artes onde estudou e foi onde começou a se familiarizar com as teorias, pesquisas, grandes mestres e técnicas de escultura. Sendo assim, dez anos depois daquela reviravolta, além de ceramista, Luiz Menezes é arte terapeuta no Centro de Atenção Psicossocial infanto-juvenil (CAPSi) e professor de Artes da Educação de Jovens e Adultos (EJA), ambos na Prefeitura de Natal. “Hoje eu posso dizer que vivo da arte. Seja ela através do trabalho em instituições, seja nas minhas pesquisas e trabalho como ceramista. Não é fácil. Mas foi a minha escolha”, diz decidido.

Dentro de dois dias ele será um dos convidados participantes da famosa escultora e sua mestra, Ana Antunes, na Exposição “Catedrais da Luz” encabeçada por ela, que será aberta na UFRN. A vernissage será próxima quinta-feira, 6 de julho, ficando aberta ao público até o dia 21 desse mês, na Galeria Conviv´arte, no Centro de Convivência, com visitações das 9h às 17h, de segunda a sexta.

Agora vivendo uma nova fase em sua vida, ele está cheio de projetos e planos. Embora tenha participado de diversos salões e exposições e de estar sempre envolvido com arte, designe e produção de imagens, inclusive ganhando prêmios em fotografia e curtas de um minuto, Luiz Menezes admite que passou esse tempo produzindo sua arte de uma maneira mais intimista e, digamos, low profile. Agora, mais amadurecido, ele decidiu abrir um atelier em Ponta Negra, que será aberto para visitação, apreciação e compras das obras, que ficam espalhadas por todos os cantos do espaço, todo o tempo, numa permanente exposição. “Sempre que faço uma peça nova, eu vou mudando de lugar. Experimentando novas possibilidades de exposição”, explica ele, acrescentando que não se sente apegado às obras a ponto de não querer que elas circulem e façam parte da vida de outras pessoas.

Peça em cerâmica do artista

Peça em cerâmica do artista

cerâmica na parece

 

Archote

Para inaugurar oficialmente o atelier Luiz pretende criar a exposição “Archote” – que vai simular uma espécie de cortejo, por onde os visitantes passarão e se depararão com as peças cerâmicas, responsáveis por “contar a história” faladas pelas mãos do artista. O projeto está pronto e o artista pretende colocá-lo em editais artísticos.

 

 

Mãos que falam

Quando lecionava sobre técnicas de pintura e escultura no DEART, Luiz Menezes se envolveu com essa atividade artística de transformar a terra (barro) em algo palpável e tridimensional. “Com os conhecimentos adquiridos eu passei a me interessar pela prática. Geralmente, quando resolvo produzir uma peça (ou série) eu pesquiso os grandes mestres, como Rodin, Picasso, o paraibano Miguel dos Santos, a artista Maria dos Mares e a própria Ana Antunes, que é uma referência para mim. Vejo como eles representaram suas obras”.

Artista costuma mudar sempre de lugar suas peças no atelier.

Artista costuma mudar sempre de lugar suas peças no atelier.

Luiz não desenha as peças antes. Prefere que elas surjam na própria modelagem. “Vou deixando que a mão tome conta do cérebro, que pensa de uma maneira, mas a mão faz de outra. A imaginação vai muito mais além, então nesse momento eu me entrego às possibilidades que a argila me traz. As placas também têm suas próprias vontades”, diz ele, explicando que é assim que é chamada a matéria-prima com que trabalha. São placas de barro, encomendadas na região, compradas em grandes galões.

Mesmo tentando resumir em palavras o processo de construção de uma peça cerâmica a atividade não parece simples: primeiro vem a modelagem inicial em que as primeiras formas vão surgir, daí é preciso espera secar totalmente para se começar a esculpir em cima dessa primeira modelagem. Envia a primeira vez para o forno. Depois disso, é que começa o processo de pigmentação da peça, com aplicação dos vidrados (as tintas minerais, oriundas do cobalto, cobre, dolomita, quartzo, ferro, dentre outros). As cerâmicas que vão para fornos cujas temperaturas ultrapassam os mil graus só podem ser “pintadas” pelos vidrados, porque são capazes de suportar essas altas temperaturas. Diferente, segundo ele, das pinturas em porcelana, que são mais voláteis e, logo, não resistem a temperaturas tão altas. Depois da aplicação dos vidrados, forno novamente. “Uma peça pode ir até a três queimas. E às vezes o forno é temperamental, foge da previsão do artista. Por isso que a gente nunca trabalha somente com uma peça por vez”, diz o artista. E aí, cai muito bem a noção de gerenciamento e organização de tempo, escolha dos materiais, pesquisa e prática. Um escultor, um ceramista precisa ser organizado. Sobretudo se for ele quem, literalmente, coloca a mão na massa, no forno, nas tintas, como é o caso de Luiz.

matéria prima

Essas pequenas peças são testes de cores que vão ao forno

Essas pequenas peças são testes de cores dos vidrados que vão ao forno

Embora não seja algo programado, o ceramista – que ainda encontra tempo para gerenciar a  fanpage no Facebook “Professor de Artes Visuais” que conta com mais de mil professores de artes de todo o país – percebe que numa média de a cada dois anos trabalhando com determinados materiais, surge uma inquietação e ele sai em busca de novos processos e pesquisas. “Escultura é uma tentativa. Você vai repetindo aquela mesma forma, até achar que ali está satisfatório. Eu me dou por satisfeito, geralmente, em torno de dois anos com a mesma técnica, depois vou procurando novas formas de criar”.

Essas inquietações e busca por novas técnicas também o levaram para a pintura. “Fiz pesquisas e escolhi a cera da carnaúba, porque é da região, para fazer os quadros”. Luiz Menezes nasceu no Rio de Janeiro, mas é “potiguar de coração” desde meados dos anos 1980, quando se mudou para cá com toda sua família, e procura trabalhar com materiais que evidenciem essa relação que ele tem com o Estado onde mora. “Uso uma técnica (encáustica) que não tem pincel, é bem difícil de manusear. Não dá para fazer, por exemplo, coisas miúdas. A gente trabalha com a cera quente e vai espatulando para criar o desenho. Busquei materiais que suportassem essa cera quente e atualmente aplico a técnica em placas brancas de mdf”, explica o processo de sua pesquisa pessoal.

Obras feitas com cera de carnaúba

Obras feitas com cera de carnaúba

Luiz informa que a massa cerâmica pode ser preparara e guardada por anos. “Os chineses preparavam massas e deixavam para os netos trabalharem nelas”, diz e acrescenta ele, “A cerâmica é uma arte que perdura” e ilustra essa informação, lembrando da existência milenar das esculturas chinesas em terracota, os Guerreiros de Xian. Uma coleção de esculturas em tamanho real que foi encontrada na China, intacta e que representa o exército de Qin Shi Huang, o primeiro imperador daquele país. “O único problema é a fragmentação (quebra). Mas é uma arte muito durável. O barro tem essa questão de energia. Escultura é uma arte da tentativa. É uma matéria que você vai modificando. Encontrando algo que não existia e você transforma em espaço. Em algo que se vê, toca. Algo com volume”.

 

Atelier Luiz Menezes

Rua Jose Francisco de Figueiredo, 92 – Ponta Negra, Natal/RN

Contatos: 84 99974.0276 ou e-mail: luizmnzs@gmail.com.br

 

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Sheyla Azevedo

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