O cinema iconoclasta de Billy Wilder

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No cinema de Hollywood, Billy Wilder (1906- 2002) é um dos diretores mais importantes, ombreando-se com outros monstros sagrados tais como John Ford, Alfred Hitchcock, Fritz Lang, Orson Welles, John Huston, e Stanley Kubrick. Aliás, pensando bem, ele não é só uma culminância de Hollywood, mas também do cinema mundial de ontem e de hoje. Rubens Ewald Filho, que conhece cinema como poucos, considera-o “um nome para estar entre os quatro ou cinco maiores diretores de todos os tempos” (v. Dicionário de Cineastas, São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2002).

Desculpe-me, caro leitor, se estou a malhar em ferro frio. Toda e qualquer pessoa medianamente informada ( nem precisa ser cinéfilo) sabe quanto o cineasta norte-americano, de origem austríaca, significa para a História do Cinema.

Uma de suas características principais, além da proverbial irreverência, é a versatilidade extraordinária, impressionante. Com efeito, ele vai da comédia ao drama com a mesma desenvoltura, e incursiona por diversas modalidades fílmicas, como , por exemplo: suspense (“Testemunha de Acusação”), romance ( “Amor na Tarde” e “Sabrina”), film noir ( “Pacto de Sangue”), sátira política ( “ Cupido não Tem Bandeira”), musical ( “A Valsa do Imperador”), guerra ( “Inferno 17” e ”Cinco Covas no Egito”), crítica social ( “ A Montanha dos Sete Abutres” ). Ao que me consta, só não fez far west. Vale salientar que todos esses filmes mencionados, com exceção de “Cupido não tem Bandeira”, “ Amor na Tarde” e “A Valsa do Imperador”, são obras-primas.

Uma de suas realizações mais representativas, “Quanto mais Quente Melhor” foi considerada pelo American Film Institute “a melhor comédia de todos os tempos”. Nada mais justo. Que me perdoem Woody Allen, Ernst Lubitsch, Jacques Tati, Jerry Lewis, Mel Brooks…

Passou à História do Cinema a cena final, com um diálogo impagável: O velhote “milionário” (Joe E. Brown) querendo conquistar Daphne, o travesti improvisado (Jack Lemmon):

“- E eu tenho um passado terrível – diz Daphne. – Há três anos que vivo com um saxofonista

O outro, crente que Daphne é mulher, exclama:

-Eu perdoo-te.

-E nunca poderei ter filhos – rebate Daphne.

-Adotamos.

Mas não estás entendendo. Eu sou um HOMEM!

-Bem… ninguém é perfeito”.

Outra comédia engraçadíssima, “O Pecado Mora ao Lado”, estrelada por Marilyn Monroe, que, sob a direção de Wilder revelou dotes de atriz, depois confirmados em “Quanto Mais Quente Melhor”. Neste filme, como em tantos outros, predomina a nota iconoclasta, desmistificadora.

Por volta de 1950, Billy Wilder alcançou o ponto culminante de sua carreira com “Crepúsculo dos Deuses” ( “Sunset Boulevard”). O filme conta o terrível drama de uma grande estrela de Hollywood, já decadente ( interpretada por Glória Swanson) na sua turbulenta relação com um jovem roteirista desempregado ( William Holden) e o ex-amante, um ex- diretor também decadente ( Erich Von Stroheim) transformado em mordomo , fiel cão de guarda. Detalhe: Glória Swanson e Erich Von Stroheim vivenciavam, então, na vida profissional, situações idênticas às dos personagens que interpretaram.

Cena de Pacto de Sangue, de 1944

Cena de Pacto de Sangue, de 1944

Ao longo do enredo, pontuado de episódios intensamente dramáticos e trágicos, constrói-se com muita ironia e senso crítico uma quase parábola ao mito hollywoodiano. Tudo isso expresso de forma requintada por um conhecedor de todos os segredos da arte cinematográfica. “Uma visão interessante sobre o mundo fugaz do estrelato e da indústria cinematográfica”, no dizer da escritora e crítica de cinema Cara Frorst- Sharratt ( “501 Filmes que Merecem ser Vistos” – São Paulo: Larousse do Brasil, 2009). Sem dúvidas, trata-se do melhor filme já realizado sobre a Meca do cinema – seu glamour, suas misérias, enfim, seu lado mais humano e pungente.

Anos depois de dirigir esse filme, Billy Wilder tornaria a explorar essa mesma temática com “Fedora”, filme que , apesar de não ter sido bem aceito pela crítica, não fica muito a dever à obra-prima que é “Crepúsculo dos Deuses”

Em artigo divulgado pela internet (2010), o crítico Vlademir Lazo, afirma, com justeza:

“Fedora é para a geração de Billy Wilder o que Crepúsculo dos Deuses representa para os antigos ídolos do cinema dos anos vinte” E mais adiante, em sua excelente apreciação sobre o filme, observa pontos de afinidades com “ O Desespero de Veronika Voss” do diretor Rainer Werner Fassbinder, expoente do Novo Cinema Alemão. Lazo termina por dizer que “é genial ver um diretor da era de ouro de Hollywood fazendo no final dos anos setenta um filme totalmente anacrônico mas que acaba se parecendo com o cinema de um tempo futuro.” Assino embaixo, porém com a ressalva de que não me parece adequado o emprego do adjetivo “anacrônico”.

“Fedora” foi o canto de cisne do cineasta , que realizaria, a seguir, apenas um filme, aliás, sem maior importância, “ Amigos, Amigos, Negócios à Parte”, com um dos seus atores prediletos, Jack Lemmon.

Não se pode deixar de dizer que Billy Wilder colaborou, como roteirista, em alguns grandes filmes ( “Ninotchka e “ A Oitava Esposa do Barba Azul”, de Ernst Lubitsch, “ Bola de Fogo” de Howard Hawks etc.), mas criou também, roteiros para alguns dos seus próprios filmes. E foi também produtor.

Em suma, um mestre múltiplo e fecundo, somente comparável, neste sentido, a outro gênio do cinema, Charles Chaplin.

FILMOGRAFIA SELECIONADA.

“Cinco Covas no Egito” (1943) com Franchot Tone e Anne Baxter.
“Pacto de Sangue” (1945) com Fred Mac Murray e Barbara Stanwick.
“Farrapo Humano” (1945) com Ray Miland e Jane Wyman. ( Oscar de direção).
“ A Mundana” ( 1948), com Jean Arthur, John Lund e Marlene Dietrich.
“Crepúsculo dos Deuses” (1950) com Glória Swanson e William Holden.
“ A Montanha dos Sete Abutres” (1951) com Kirk Douglas e Jan Sterling.
“Inferno Nº 17” (1953) com William Holden e Don Taylor.
“Sabrina” (1954) com Audrey Hepburn, Humphrey Bogart e William Holden.
“O Pecado Mora ao Lado” (1955) com Marilyn Monroe e Tom Ewell.
“ Águia Solitária” ( 1956) com James Stewart e Patricia Smith.
“Amor na Tarde” (1957) com Gary Cooper e Audrey Hepburn.
“Testemunha de Acusação” (1958) com Tyrone Power, Charles Laughton e Marlene Dietrich.
“Quanto Mais Quente Melhor” (1959) com Jack Lemmon, Tony Curtis e Marilyn Monroe.
“Se Meu Apartamento Falasse” (1960) com Shirley Mac Laine e Jack Lemmon (Oscar de Direção).
“Irma, La Douce” (1963) com Shirley Mac Laine e Jack Lemmon.
“ Uma Loura por um Milhão” (1966) com Jack Lemmon e Walter Mathau.
“A Vida Intima de Sherlock Holmes” (1970) com Robert Stephens e Genevieve Page.
“ Avanti… Amantes à Italiana” ( 1972 ) com Jack Lemmon e Juliet Mills.
“A Primeira Página” ( 1974) com Jack Lemmon e Walter Mathau.
“Fedora” (1978) com William Holden e Marthe Keller.

Afora estes filmes, Billy Wilder realizou mais seis – menos interessantes, porém, nenhum sem qualidades, com exceção, talvez de “A Valsa do Imperador” ( 1947), que me pareceu fraquinho, água com açúcar.

– Fontes da filmografia: “Billy Wilder – O Cinema Inteligente – 1906- 2002” de Glenn Hopp (Lisboa: Taschen, 2003) e o citado “Dicionário de Cineastas”.

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