O colírio de uma lojinha de raridades

Carlos Gurgel
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Aratarda_alair e salustiano

Alair e Salustiano criaram loja nos anos 1980 de muito sucesso na cena alternativa natalense da época, com discos e livros raros

havia como um permanente burburinho na cidade quando alguém propunha visitar a Aratarda, uma linha de uma loja pocket porreta. era como se a visita representasse uma conquista, pois a cidade do Natal, início dos anos 80, se revelava órfã de espaços amigos que privilegiassem o encantamento, a satisfação de por lá se encontrarem os que compunham o coletivo aquariano, ao se depararem com objetos, artigos que estavam em sintonia com o gosto dessa clientela. o que não era pouco, pois a ausência de outras lojas afins na cidade era por demais percebível.

lembro exatamente quando a visitei pela primeira vez. Salustiano e Alair, seus proprietários, se desdobravam feito um núcleo vivo. a loja, apesar de pouca idade, já se mostrava com toda exuberância e rebeldia possíveis. me impactou de imediato, a variedade de opções de discos e livros vindos da cult Lira Paulistana, conquista de Salustiano, e que, como uma febre, de imediato despertava o interesse dos visitantes, agregados, amigos. minha primeira aquisição foi uma bolacha de Itamar Assumpção, o negro dito, e sua gang.

formava-se desde já uma febre pelo lugar. localizada naquela estreita rua no centro da cidade, que vai dar em frente ao supermercado Nordestão, na Deodoro, a loja virou um epicentro dos bichos cabeça da cidade. era uma procura que a cada novo mês, Salustiano e Alair tinham que se convencerem, de que a escolha pelo underground acervo da Aratarda, fazia com que o seu reconhecimento fosse visto como uma indiscutível brevidade . a loja de Salustiano e Alair se transformava rapidamente em um epicentro gravitacional na cidade no que se poderia conceituar como um roteiro que privilegiasse a satisfação de uma boa leitura e a audição de bolachas quentes, eleitas como aceitas por todos. a clientela exigia cada vez mais novidades e era de pronto atendida.

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a loja virou um permanente roteiro e uma explícita simpatia. amigos que até então não tinham nenhuma opção cultural, agora se viam costumeiramente fãs da Aratarda. era como uma mistura de música rebelde com a cumplicidade da leitura de um livro de um poeta beat. assim o itinerário formado, fazia das tardes de sábado, especialmente, uma celebração aquariana e repleta de incorrigíveis fãs. a Aratarda permaneceu na cidade por longos e cultuados dois anos. um raro, precioso tempo, constituído pelo único espaço de entretenimento underground da cidade, uma festiva ideia onde se vislumbrava a amizade de tantas e caras pessoas. meu acervo tem muitos títulos e gravações que remetem a aquisição que fiz, na Aratarda. foi um movimento belo, esse aparecimento dessa loja na cidade.

uma vontade agora me faz novamente estar lá. como se fosse possível usufruir da amizade de Salustiano e Alair, ao redor desse tempo, desse guardado tempo. fazendo do coração de que viveu tudo isso, uma confirmação dessa bela ebulição, formada de singulares alegrias e de uma identidade que não se perde. identidade que cada vez mais renasce, quando eu ponho para escutar os discos que na Aratarda adquiri igualmente com a leitura dos inúmeros livros. é assim mesmo que a vida se mostra como uma lojinha de surpresas, desafiando o varal dos dias, como se a consistência das novas ideias, porto por onde a riqueza da coragem habita, se fotografasse através de um simples gesto, desaguando como ruptura por uma outra leitura sensorial e literária da vida, como a desafiar o coro dos contentes. que Salustiano e Alair sejam sempre cultuados por todos aqueles que no início dos anos 80 fizeram da Aratarda, termo pinçado de uma música na rara voz de Tetê Spíndola, seu porto seguro de aventuras e outras mumunhas mais, bem mais, por onde os rios e ritos do além mar, se regozijam e nunca deixam de sonhar.

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Carlos Gurgel

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