O conto brasileiro – biblioteca básica

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– Quais os melhores livros de contos brasileiros?

Pergunta-me estudante de letras, e eu, como apreciador dessa vertente literária, respondo-lhe com a seguinte lista.

1- “Várias Histórias, “Papéis Avulsos” e “Histórias sem Data” de Machado de Assis (1839-1908.
Autor de cinco livros de contos, Machado atinge, nos três acima mencionados , a sua melhor fase. Encontram-se aí verdadeiras obras –primas, culminâncias , do gênero, em literatura lusófona.
Dentre todos os contistas brasileiros e portugueses, talvez apenas Miguel Torga possa ombrear-se com o bruxo de Cosme Velho.

2- “Vida Alheia”, de Arthur Azevedo (1855-1908). Antologia, com apresentação de Fausto Cunha.

Nenhum escritor brasileiro cultivou, com tanta verve, o conto anedótico, como o autor maranhense. Exímio crítico de costumes em suas hilárias narrativas.

3- “Pelo Sertão”, de Afonso Arinos (1868- 1916).

Obra regionalista pioneira, exemplo de oralidade literária, aproveita e recria, com autenticidade, a linguagem coloquial sertaneja, para construir vigorosas narrativas, que oscilam do humor ao drama, sempre em busca do “humano demasiado humano”

4- “No Rancho dos Bentinhos e Outros Contos”, de Afonso Bezerra (1907-1930). Coletânea póstuma , com introdução e notas de Thiago Gonzaga.

Regionalista na mesma linhagem de Afonso Arinos, o potiguar Afonso Bezerra encontra-se, injustamente, esquecido, mas, a sua obra de ficção, embora exígua, não fica nada a dever às estrelas do conto regionalista brasileiro das primeiras décadas do século XX.

5- “Urupês”, “Cidades Mortas” e “Negrinha”, de Monteiro Lobato (1882- 1948).

Quando se trata de Lobato, hoje em dia, louva-se à unanimidade, o cultor da literatura infanto-juvenil,mas subestima-se o autor de obras admiráveis como as três mencionadas.

Por não haver aderido ao movimento modernista de 1922, Lobato teve a sua obra de ficção para adultos ofuscada e relegada ao esquecimento. Felizmente, ressurge.

6- “Primeiro Andar”, “Os Contos de Belazarte” e “Contos Novos”, de Mário de Andrade ( 1893-1945).

O “Papa do modernismo” é tão bom contista quanto romancista, e sem duvidas, melhor contista do que poeta, como bem atestam essas três coletâneas de histórias curtas, nas quais encontram-se obras-primas _- “O Peru de Natal” e “Frederico Paciência”, entre outras.

7- “Insônia”, de Graciliano Ramos (1892-1953).

O melhor do conto psicológico, na celebrada linguagem do mestre alagoano- concisa, despojada, por vezes até mesmo seca e áspera. Insuperável.

8- “A Morte da Porta- Estandarte e Outros Contos”, de Anibal Machado (1894-1964)

Único livro de contos do escritor mineiro, bastante para consagrá-lo como um dos cinco melhores contistas brasileiros de todos os tempos. É de pasmar que uma obra tão importante, como esta, não tenha obtido o reconhecimento que bem merece, por parte da critica e do publico ledor.

9- “Sagarana”, de Guimarães Rosa ( 1908-1967).

Primeira obra de ficção do autor mineiro , já prenunciava o malabarismo verbal do seu romance “ Grande Sertão: Veredas”. No entanto, “Sagarana” ( que belo titulo) é de leitura bem mais fácil, extremamente prazerosa. E nem por isto menos genial.

10- “ Laços de Família”, de Clarice Lispector ( 1925-1977).

Nesta coletânea de contos , a autora abstem-se da complexidade temática e formal que tanto a caracteriza em várias outras obras de sua autoria.

Em se tratando de uma escritora tida e havida como “difícil”, as histórias aqui reunidas podem ser consideradas de grande simplicidade. Uma destas – “Uma Galinha”, narrativa situada na fronteira do conto com a crônica, é simplesmente antológica.

11- ”As Pompas do Mundo” e “O Retrato na Gaveta”, de Otto Lara Resende ( 1922-1992).
Eis, aí, mais um caso de injusto ostracismo
Otto Lara Resende notabilizou-se como jornalista e cronista, atuando em alguns dos principais órgãos de imprensa do país. Enquanto isso, o excelente ficcionista parece ter ficado em segundo plano. Trata-se, porém, de um dos escritores mais importantes da atualidade, grande não apenas no conto, mas também no romance, embora não seja extensa a sua produção literária.

12- “Seminário dos Ratos” de Lygia Fagundes Telles ( 1923)

Monstro sagrado da ficção brasileira contemporânea, a escritora paulista, ao que me parece, realiza-se melhor no conto do que no romance. Ela sabe, como ninguém, dosar realidade e fantasia, em narrativas plenas de humanidade, que deixam transparecer uma sensibilidade bem feminina, todavia sem arroubos feministas.

13- “Cemitério de Elefantes”, “Novelas Nada Exemplares”, e “O Vampiro de Curitiba”, de Dalton Trevisan (1925).

O autor curitibano cultua, como poucos, o conto minimalista.

Pode-se dizer , mal comparando, que o seu texto ficcional, extremamente lacônico, está para o gênero conto assim como o haicai está para a Poesia

Os três livros de sua autoria, acima mencionados, pertecem a fase inicial de sua carreira, por volta dos anos 1960. Com o passar do tempo, Dalton Trevisan escreveu e publicou dezenas de outros livros, no mesmo diapasão, e tornou-se repetitivo.

Ainda poderiam constar desta lista os seguintes livros: “O Crime do Estudante Batista”, de Ribeiro Couto ( 1898-1963); “Oscarina”, “Vejo a Lua no Céu” e “Estela me Abriu a Porta”, de Marques Rebelo ( 1907-1975); “Veranico de Janeiro” e “André Louco”, de Bernardo Elis ( 1915- 1997); “Contos Reunidos” de Rubem Fonseca ( 1925); “Os Mortos São Estrangeiros” de Newton Navarro ( 1928-1991), e “Rosa Verde Amarelou”, de Bartolomeu Correia de Melo ( 1945-2011).

Em seu mais novo livro – “Os Livros ( A Única Viagem)” – o escritor Hildeberto Barbosa Fiho incluiu crônica intitulada “ O Prazer das Listas”, na qual discorre sobre a gratificante e saudável mania que todo bibliófilo tem de relacionar e divulgar os livros de sua preferência. Essas listas – penso eu- sempre são bem vindas, quando menos servem de roteiros para os – com perdão da palavra – neófitos.
Motivado pela leitura do admirável texto de Hildeberto, deu-me na telha, ( como diria meu avô), fazer também a minha lista. Se você, caro leitor, não concordar com ela, que faça a sua.

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Comentários

3 comments

  1. Marcel Lúcio 11 maio, 2018 at 06:29

    Ótima lista!!! Na minha incluiria: “Contos reunidos”, de Murilo Rubião, “Morangos mofados”, de Caio Fernando Abreu, e “Os mortos são estrangeiros”, de Newton Navarro.

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