O conto de fadas de Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre

Wilson Coêlho
Crônicas e Artigos

por Fernando Arrabal*
(Trad. Wilson Coêlho)

Simone de Beauvoir?: Castor! Não por causa do roedor semiaquático, senão pelo seu sobrenome “Beaver”.

Em 1929, Castor tinha 21 anos e Sartre 23. Ambos, por certo, se trataram sempre por vós. Para alguns foram os Romeu e Julieta do Saint-Germain de Paris. E, para os mais entusiastas, o casal mais anticonformista do século XX? Para ela, ele era “o mais feio, o mais horroroso”. E, para ele, ela vestia “pessimamente mal, com seu capacete”. Chapéu!

Os dois se apresentaram ao exame mais arrevesado e comprido da Sorbonne: “a agrupação de filosofia”. Castor conseguiu o segundo lugar. E, Sartre, o primeiro. Suas opções nunca foram “deterministas”, senão “probabilistas”.

“Não podiam viver um sem o outro. Não podiam se separar. Era uma relação sentimental, sexual, intelectual”. Como nos filmes do cinema mudo, só se vestiam de preto e branco. Viriam a ser o protótipo e o exemplo da relação “moderna”. Obviamente, Castor e Sartre nada sabiam do gênio de Tirso de Molina/Claramonte. Nem do prodigioso mito de Don Juan. E, no entanto, converteram sua relação na ilustração mais significativa do primeiro mito (ou pelo menos, do segundo) de nossa civilização.

Sartre e Simone juraram devoção mútua com total liberdade

Sartre e Simone juraram devoção mútua com total liberdade

O conceito daquela “nova relação” foi decidida em um banco do jardim das Tullerías quando Sartre propôs a Castor um pacto de dois anos. Um convênio renovável. Para selar o “amor necessário”. Há épocas nas quais a amante parece uma espécie em vias de desaparição como a “fiel esposa”.

Sim. Castor reconheceu que Sartre era o primeiro homem de sua vida, que sua inteligência lhe fascinava, que sua lógica era implacável, que seu amor por ele era, pelo menos, “necessário”. Sartre lhe detalhou a rareza do projeto:

– Convém que vivamos um amor “necessário” e que gozemos, ao mesmo tempo, com amores “contingentes”. Os amores contingentes são uma maneira de conhecer o mundo quando se é um homem, com as mulheres. E quando se é uma mulher, com os homens. Sem transgredirmos a condição essencial: não mentirmo-nos nunca. Vamos reinventar o casal. Porque os dois sentimos uma ternura e uma confiança recíprocas. Procederemos com a estratégia da verdade. Sem adotar a dos burgueses. A dos porcos!

Castor pensava que ciúmes e raciocínio eram como tuberculose e pulmões. Estava convencida de que nunca lhe dissimularia nada. Por isso escreveria uns anos depois: “Sempre soube que estava gordo. Mas agora que o vejo de tão longe me dou conta: não está gordo; é obeso”. Prosseguiu observando-lhe de longe, enquanto o esperava em uma estação de trem parisiense, quase surpreendida: “Agora percebo que Sartre não é baixo; é um anão”. E, ainda mais detalhadamente: “De repente, noto que tem um pouco de saliva na comissura de seus lábios. Baba. Com semelhante viagem num trem de ferro ficará cansado. Certamente que não teria conseguido reter seus esfínteres. Ele terá urinado e defecado na roupa”. Mas finaliza seu comentário com esta declaração: “Nunca o amei tanto”.

Sem reparo algum, Sartre, no final de sua vida, responde ao enigma que o toca no íntimo, aceitando que o coração da hiena reside em suas aspas: “como o senhor faz para navegar com tanta felicidade e destreza sobre as águas polígamas?” com esta confissão: “lhes minto; é mais simples e mais honesto”. Incrédulo, seu amigo lhe pede: “Então, mentes a todas?”. Sartre sorri: “a todas”. “Inclusive a Castor?”. “Sobretudo a Castor”.

Sem atrever-se a fazer-lhe nenhuma censura, seu amigo admite: “O senhor é o filósofo da transparência”. Sartre se defende: “Há situações onde alguém se vê precisado de inventar uma moral provisória.” Ocultando a ética se identifica com a bonança.

Quando Castor conhece, excepcionalmente, um amor “contingente” de Sartre, pergunta-lhe: “o que faz com sua amante na cama?”. Imutável ele responde: “Já sabe que, inclusive nossas relações ‘físicas’ cessaram no final dos anos 30. Nada deve obscurecer-me”. Castor se lembra, com memórias tartamudas: “É verdade que o Senhor se reteve sempre. Não quis nunca perder sua consciência?” Sartre precisa: “Eu só sou um masturbador de clitóris”.

As “contingências” dela hoje já são conhecidas sem zumbidos nem maremotos: os amores “profundos” de Castor com suas alunas; seu romance com o jovem Claude Lanzmann; suas visitas à Chicago de Nelson Algren; Castor viverá com o americano – very bad trip? (viagem muito ruim?) – uma lua de mel méxico-guatemalteca; mas terminará com o anel de seu falso matrimônio com o grande romance em sua tumba. Só houve ponteiros em tempos de comediógrafos.

As “contingências” dele também já são públicas: desde a paixão com Lena Zonina, a agente soviética, ou com a poetisa Dolorès Vanetti com a qual acreditou viver de férias, ou com Bianca (prima de Georges Pérec) com a qual desencadeou uma passagem nauseabunda; ou com a incontrolável e caprichosa Olga, pela que Sartre, “esquelético e rechaçado”, esteve a ponto de morrer de amor.

Os dois existencialistas foram a reencarnação do Don Juan sem haver lido “O burlador de Sevilha”? Capazes, em suas diversas facetas, de tentar seduzir a todos e cada um dos aspirantes. Quatro, no caso de Tirso, inclusive fazendo-se passar pelo “sedutor”, na obscuridade, por um dos prometidos.

Castor, que tampouco conheceu as aventuras das heroínas dos livros de cavalaria, quando Sartre tentou cumprir sua própria quimera: “Quis mentir-me próximo dele, sob o lençol…” (“cuidado… a gangrena!”, me gritam).

E Castor conclui: “Há perguntas que, na verdade, nunca me fiz: meu leitor a fará, talvez”. Enquanto que as fadas já não leem contos de fadas, nem no tablet.

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* FERNANDO ARRABAL foi amigo de Jean-Paul Sartre e de Simone de Beauvoir e escreveu este artigo recentemente, enviado pelo nosso colaborador e tradutor do texto, Wilson Coêlho. Na foto de capa, estão: Thieri Foulc (escritor francês e Régistrateur de l’Ordre do Collège de Pataphysique), Fulvio Abbate (escritor, cineasta e crítico de arte italiano), Fernando Arrabal (dramaturgo e poeta espanhol), Wilson Coêlho (dramaturgo e escritor brasileiro) e Diego Bardón (toureiro pânico espanhol) entre um vinho e outro no almoço com Arrabal aos 03-02-2013, em Paris.

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Wilson Coêlho

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