Mais

O cronista é iniciado nos deleites da Ópera renascentista

Botticelli-primavera

Conversando em casa sobre ópera e os seus entornos, contornos e retornos artísticos, logo depois de termos assistido a uma no Teatro Atheneu aqui em Aracaju, e eu ter ficado assaz impactado (sou um iniciado nessa mais que nova diletância!) com todos os trechos apresentados dos mais belos espetáculos operísticos do mundo, afirmo – convencido como uma seta no miolo do alvo -, ser a ópera fruto do gênio renascentista: como sabemos e a historiografia dos tempos nos apresenta, o renascimento singulariza uma volta ao brilho helênico nos quesitos forma e substância. Os candeeiros acendiam e ascendiam às trevas, e os pontos-cruz bordariam, no manto escuro da membrana celeste, estrelas multicoloridas determinando o término do apocalipse e a inauguração do solo moderno e alvissareiro das luzes.

Depois da verbalização “teórica-científica”, aguardo a sentença já livre da toga parda-escura que revestia o meu trapézio, e cobri-me com absoluta certeza de que daquele ovo sairia um pinto ou uma omelete, mas que minha glória de sabedor das coisas seria, finalmente, reconhecida e aclamada.

LEDO ENGANO!

Você, elemento sinantrópico que me lê, sabe aquela risadinha que surge no canto da boca como prelúdio de uma galhofa? De uma algazarra? Pois é! O riso explodiu e os fatídicos cogumelos em face japonesa eram mínimas frações nucleares perto do que vivia naquele instante. O sonoro gás do escárnio não quebrava apenas as moléculas atômicas das minhas convicções acadêmicas: também rasgavam e trituravam as células da minha fantasia de busca intelectual! E a matéria do que já tinha sido entrou para o universo paralelo da pós-verdade. Do pseudo.

Ao entregar essa crônica para minha revisora, ela, entre o exercício da docência e o riso benevolente de quem sabe das coisas, disse: “Que drama, Moreno! Não exagere nesse tema! A ópera talvez seja a manifestação artística mais completa até hoje criada pelo ser humano. Nela podemos encontrar elementos criativos para além da música; como o teatro, a literatura, as artes visuais e tantos outros. O que é relevante não é o período germinal da espécie artística! Isso é o de menor valia. O que é medular para a humanidade é o legado cantado pelos que vieram antes e que deixou indeléveis marcas nas nossas vidas. Vem! Que besteira é essa? Vamos pra rua! É hora de combatermos o golpe e os golpistas! Isso é que é deveras relevante nesse instante! Depois veremos essas outras questões!” E saiu, mais convencida do que nunca, que a hora é agora de gritarmos: DIRETAS JÁ!

Eu, que não sou besta nem nada, agarrei-me na cintura da danada e saímos pelas ruas do centro da capital sergipana, ofertando ao público das ruas, das janelas, portas e outras marquises, o nosso mais forte grito pedindo eleições diretas. O espetáculo farsesco que é apresentado ao povo brasileiro não é senão uma ópera bufa, verossímil das oficialidades que ocupam as instituições da república nacional. É improvável olhar para esse establishment e intuir qualquer avaliação estética e muito menos ética. DIRETAS JÁ, esse é o nosso refrão!

Share:
Italo de Melo Ramalho

Comentários

Leave a reply