O dia de morrer

Edmar Cláudio
LiteraturaMais

Aconteceu que naquele dia ele decidira morrer. Há dois anos vinha alimentando pacífica e silenciosamente esse desejo fúnebre como uma solução para o desengano e a desesperança que lhe tomaram o ânimo de viver. Desde o dia que soubera do médico qual o resultado da biópsia que fizera, nunca mais teve como dormir tranqüilo. Insistentemente uma voz interior lhe atormentava o juízo: Por que aconteceu comigo? Tanta gente ruim por aí e eu, que passei a vida seguindo os ensinamentos cristãos – fazendo o bem sem ver a quem -, vejo-me agora condenado a uma doença cruel e intratável! Era uma tortura saber-se doente e não haver a cura para tal estágio da moléstia. Maquinava em seus pensamentos uma maneira eficaz de dar fim à existência de uma forma rápida e indolor. Por duas vezes esteve à beira da morte durante a sua vida. Uma, aos quinze anos, quando quase se afoga num açude de uma cidadezinha do interior; outra, quando sofreu uma parada respiratória na recuperação analgésica de uma cirurgia na coluna. Esses episódios estavam relacionados à asfixia e estas situações criaram nele uma profunda fobia, um medo desmedido de ficar sem o ar vital tão precioso.

Fumava desde os 13 anos. Fora iniciado por colegas do ginásio em incursões noturnas à procura de garotas para namorar. Era elegante e charmoso o ato de fumar. Todos fumavam. Todos que ele admirava e procurava espelhar-se. Fumar era a chave para o sucesso. Trinta anos de tabagismo e duas carteiras de cigarro por dia esburacaram os seus pulmões em dispnéico enfisema associado a uma amiga do peito, a bronquite tabágica. Dormia após longas baforadas no último cigarro do dia. Acordava cedinho e logo fazia a toalete peitoral. Tossia em salvas até expectorar uma grande quantidade de secreção espessa amarelo-esverdeada com odor fétido. Era deprimente a cena.

Fora locutor de uma rádio local e, por uns tempos, ocupou um cargo no cerimonial do Palácio do Governador, que, por coincidência, era dono da emissora em que trabalhava. Era dado a exagerar e rebuscar nos elogios durante as festivas cerimônias de apresentações dos convidados dos altos escalões do poder. Achava-se importante à época, mas o tempo e as intrigas políticas o empurraram para um certo ostracismo e distanciamento dos cenários palacianos. Resignara-se com a situação e aquietara-se no cotidiano dos programas musicais diários, os noticiários nacionais e internacionais, os aniversários, os casamentos e o obituário. Lembrava-se do início de carreira numa difusora de um parque de diversões itinerante. Nas festas paroquiais apinhadas de gente de todas as idades, impostava sua voz: – Essa música vai para a moça de laço amarelo que se encontra na barraca de cachorro-quente “O Bacurau”! E largava no ar aqueles antigos boleros lacrimejantes que marcavam, junto com os odores dos quitutes expostos à venda, a memória dos passantes.

Um dia percebeu que sua voz perdia a sonoridade e estava ficando rouco. Fez uns gargarejos de casca da romã, raspa de gengibre e nada.
–Deve ser por causa desse cigarro nojento que você não larga! Disse-lhe a mulher à mesa, na frente dos filhos.
-Vê se toma coragem e vai falar com um médico! Postergou a visita, mas, como não melhorava, viu-se obrigado a ir falar com o doutor. O clínico examinou sua garganta e, ao vê-la alterada, prescreveu-lhe antibióticos e anti-inflamatórios. Depois de uma melhora discreta os sintomas pioraram. Voltou outra vez ao consultório e o médico encaminhou-o a um especialista.
–Otorrinolaringologista! É só ele que tem os aparelhos para examinar direitinho a sua garganta.

O especialista, durante o exame óptico com o aparelho, olhou-o de uma forma preocupada e disse-lhe que precisava fazer uma biópsia de um tumor que identificara na laringe. Aquiesceu com a cabeça, fechou os olhos e aguardou temeroso pelo resultado. Uma semana depois, o veredicto.
– É um câncer. E a coisa é séria! Precisamos operar o quanto antes! Desesperou-se, chorou muito, esperneou, maldisse o vício do tabagismo, mas por fim cedeu e submeteu-se a cirurgia. Acordou no outro dia na UTI e aí percebeu que não podia mais falar. Respirava com dificuldade por um tubo inserido através do seu pescoço. De vez em quando engasgava-se com o sangue e o peito enchia-se de catarro obrigando a enfermeira a aspirar as secreções pelo dito tubo metálico que lhe atravessava a garganta. Recuperou-se penosamente daqueles padecimentos, mas, ao constatar que não poderia mais falar, um misto de revolta, desespero e tristeza lhe invadiram a alma. Respirava por uma abertura naquilo que outrora se chamava laringe. Um patético tubo oco niquelado aí se inseria e lhe fazia as vezes de boca e nariz para poder respirar. Estava um trapo. Passara-se um ano e meio em infindáveis sessões de quimioterapia e radioterapia. Caíram-lhe os cabelos. Emagreceu até se tornar caquético. Mas o pior é que ainda fumava! Sim, fumava pela cânula que lhe implantaram. Sentia-se o mais triste e indigno homem na face da terra. Não conseguia largar o vício e, se ia morrer mesmo, morreria fumando.

No dia em que recebeu a informação de que era maligno o seu tumor, cuidou de esconder o revólver cal. 38 para que não o tirassem dele. Sua mulher o olhava com um misto de pena e revolta por supor que aquele sofrimento poderia ter sido evitado. Seus filhos choravam por vê-lo naquela situação. Sofrendo com as dores que lhe dilaceravam o corpo enfermo sentiu que era chegado o momento de dar cabo à vida. Não havia mais expectativa de uma sobrevivência digna. Os antigos amigos evitavam as visitas por sentirem-se constrangidos, assim como ele, com toda aquela situação.

Pôs a arma que escondera junto a uma corda dentro de um estojo de ferramentas e rumou para a rua. Pegou um táxi e foi ter ao edifício mais alto da cidade. O porteiro, um baiano aposentado pelo INSS, abriu-lhe a porta do terraço no 18º andar ao ver suas credenciais de radialista e ao ler um documento forjado afirmando que ele estava fazendo uma inspeção à antena transmissora instalada na cobertura.

Sozinho, no último andar do prédio, ele olhou serenamente para o belo e triste panorama da cidade. Observou, às suas costas, um imenso outdoor de um conhecido plano de saúde; o mesmo que lhe negara a realização de um exame de alta complexidade para o seu tratamento. Lançou a corda por cima dele e amarrou-a nas vigas de madeira que o sustentavam. Fez um laço com a outra ponta e o amarrou em seu pescoço. Com esforço sobre-humano equilibrou-se no parapeito. Apontou a arma para a têmpora direita. Não pensou em mais nada. Estava em transe e viu-se tristemente de volta às reminiscências alegres de sua infância. Chorou um pouco. Engatilhou a arma. Ouvia nitidamente as risadas e conversas dos amigos e parentes numa longínqua época esquecida na memória. Inspirou o ar profundamente através da cânula pela última vez e, com um estampido seco, estourou os miolos. O corpo caiu inerte e foi contido subitamente em sua queda pela corda que agora enforcava o suicida.
Em sua carteira de cédulas encontraram depois o seguinte bilhete:
“Não há razão para atentar contra a minha própria vida, mas, também, não há razão para sobreviver sofrendo à espera da maldita morte. Fui! ”

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Edmar Cláudio

Comentários

7 comments

  1. DAMIRASMO MENDES DA SILVA 28 agosto, 2017 at 15:21

    Me deu medo no incio com a frase quase morre afogado no interior, mas fiquei tranquilo com os trinta anos de fumo porque sei que não foi tanto. Não chamarei de lindo o conto, mas de um impressionante conflito na ” H ” entre a vida e a morte. Saudades meu irmão, um forte abraço, te amo !

  2. Ana Cláudia Trigueiro
    Ana Cláudia 28 agosto, 2017 at 20:50

    Querido amigo,
    Seu conto é amargo como as beberagens de antigamente, seco como a paisagem desértica e cortante como a lâmina de um punhal. Eis uma trágica e muito bem contada história. Há dois anos eu teria achado que você daria ao personagem uma redenção final. Eu era ainda uma fiel entusiasta de minhas tradições religiosas: um milagre, uma decisão de lutar pela vida, enfim…. Agora que já não tenho tais ilusões, achei o final muito digno. Decidir como morrer é um privilégio. Parabéns! Você é contista de mão cheia!

  3. Maria Madalena de Almeida Dantas 28 agosto, 2017 at 21:09

    Interessante narrativa de conflitos existenciais . Inventivo e exímio contador de estórias! Parabéns!

  4. Maria Tereza 29 agosto, 2017 at 00:02

    Uma narrativa existencial de uma situação de desespero, com final lúgubre. Dois tipos de morte anunciada, onde a primeira, com toda sua indumentária poderia nem ter acontecido . A segunda, uma desisão onde morreram todas as espectativas!

  5. Maria Tereza 29 agosto, 2017 at 00:06

    Documento existencial muito bem relatado, onde entre as duas mortes anunciadas, a primeira poderia ter sido evitada , mas havendo a falta da esperança , o desespero assolou o homem levando ao fim lúgubre da sua jornada.

  6. Hiliomar 29 agosto, 2017 at 06:11

    Bela crônica. Como diria Schopenhauer “viver é sofrer”. Questionar o sentido da vida gera certa ansiedade, pois remete a morte. É algo angustiante quando não se tem um referencial sólido sobre o Soberano Criador do Universo.

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