O dia em que um astro do UFC foi atendido no Walfredo Gurgel

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Como um americano nocauteou um cabra da peste de Campina Grande e foi parar no Walfredo Gurgel, maior e problemático hospital público do Rio Grande do Norte; evento foi precursor do fenômeno UFC no Brasil, com lutadores nacionais e estrangeiros renomados

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Heat FC marcou época no MMA potiguar

Em 2004, Natal vivenciou um preâmbulo do fenômeno UFC no Brasil, com o Heat FC 2. Elevador mecânico para a apresentação dos atletas ao público, ringue padrão internacional, iluminação de show musical e hospedagem em hotel cinco estrelas à beira-mar emprestaram aura grandiosa ao evento.

No card, presença de americanos e brasileiros então renomados, como os veteranos do maior evento de lutas do mundo, Travis Wiuff, Alan Góes, Ebenezer Braga e Carlão Barreto.

A maior surpresa, entretanto, viria de uma luta secundária, entre um gringo e o paraibano cabra da peste de Campina Grande (PB), Edson Paredão – sujeito simpático e de fala mansa, quase uma piada com seu 1,90m de armadura muscular.

Indivíduo destemido e de grande força física, Paredão prometia partir pra cima do americano chamado Forrest Griffin, à época um desconhecido – pouco tempo depois ele ganhou o The Ultimate Fighter, aquele Big Brother de lutadores, que tinha versão brasileira até outro dia, e virou celebridade nos Estados Unidos; ele também foi campeão dos médios por um tempo.

Era período natalino e o americano acatou o pedido dos promotores para entrar vestido de Papai Noel, o que gerava receio de uma vaia generalizada dos cerca de quatro mil espectadores. O gorro e o saco vermelho serviriam de teste para ver o grau de empatia com uma plateia ansiosa por um confronto entre atletas locais.

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Na época da luta em Natal, Forrest Griffin (esq) era desconhecido; pouco tempo depois ganhou o The Ultimate Fighter, o cinturão meio pesado e virou celebridade.

Antes da luta entre o ianque e o sertanejo, tinha um clássico local

Nas semanas que antecederam o combate, Fábio Bolinho, da Kimura, e Sérgio Júnior, da Combate Real, se provocaram nas incipientes redes sociais. Eles fariam a preliminar mais aguardada para os nativos, sobretudo por serem das academias protagonistas de brigas antológicas, até hoje, no imaginário juvenil natalense.

Pela primeira vez jovens das duas academias sairiam na porrada sob regras, até que um dos dois desistisse. O Machadinho se encheu de bandeiras, cânticos e uma tensão coletiva inédita – hoje, quem se lembra daquela noite, pode plagiar o slogan do Rock In Rio e dizer: Eu fui!

Para quem viveu aquele período, em que as duas maiores academias de jiu jitsu de Natal romperam em federações distintas, isso era a maior adrenalina possível – entre grandes confrontos dos rivais ferozes, algumas competições de quimono serviram de aquecimento, cujo ápice talvez tenha sido a vitória de Jean Kleber (Kimura) em cima de Fábio Holanda (Combate Real), em Fortaleza.

Mas Júnior e Bolinho frustraram o já degradado Machadinho, com respeito exagerado de ambas as partes. Mais de quatro mil pessoas protestaram contra a inércia dos oponentes.

Declarado o empate, nova gritaria, agora do lado de Júnior, o mais combativo nos três rounds. O alto investimento na luta deixou os organizadores cismados com o restante da noite, ainda mais após a ideia do Papai Noel.

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Imagine sair da América do Norte e cair de paraquedas no hospital Walfredo Gurgel, onde funcionários grevistas com frequência gritam por esparadrapo e luva cirúrgica.

O nocaute terminou no Walfredo Gurgel

Imagine dois caras grandes, atléticos, no auge do vigor físico, doidos pra sair na tapa um com o outro, e o meloso Nelly nas caixas amplificadoras em volume máximo.

A luta Griffin x Paredão começou esquisita, por uma falha do operador da mesa, perdido com as músicas escolhidas pelos lutadores para suas entradas. O improviso revelou o som de Nelly, um rapper ostentação dos mais ralos da indústria pop.

O talento do lutador americano corria a boca frouxa no ginásio, o que para o valente paraibano nada significava. Tanto que, ao soar o gongo, ele cumpriu a promessa e tomou a iniciativa das ações. Numa troca desenfreada de socos, fissurou o antebraço de Griffin (motivo da ida ao Walfredo, ao término da luta).

Forrest Griffin logo fez a leitura do jogo de Paredão e o nocauteou com facilidade, para uma surpreendente vibração do público natalense – a história do gorro tinha dado certo, mesmo com Nelly da trilha, com presentes atirados à arquibancada.

Agora imagine o cara sair da América do Norte e cair de paraquedas no Walfredo Gurgel. Isso para quem tinha reclamado do cheiro de mijo nos banheiros do Machadinho deveria ser um pesadelo.

Nova surpresa: bem humorado, Forrest foi bem recepcionado no problemático hospital. O atendimento foi rápido e eficiente, com uma ou outra enfermeira de sorriso fácil para o estrangeiro bonitão (espécie de Willem Dafoe jovial e graúdo).

Ele estava sozinho com uma pessoa da produção em um hospital público brasileiro. Já pensou? Mas deu tudo certo. De quebra, ainda soltou: “Shit happens!”. Algo corriqueiro para quem tinha deixado o emprego de leão de chácara pouco antes de virar profissional de MMA.

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Comentários

1 comment

  1. André Toledo 1 março, 2017 at 21:04

    Fato histórico, hein?? Bacana! Forrest era um grande lutador mas pena que ficou mais conhecido no Brasil pela derrota pra Anderson. A luta dele contra Stephan Bonnar foi épica! Abs

    Ps: Forrest foi campeão dos meios pesados, não?

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