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O dom de ser Santo

Natal teve a generosidade de nos oferecer um contemporâneo exemplar, o santo da alegria.

Dom Nivaldo Monte (1918 – 2006) era tomado por intensa alegria espiritual e com todos ele a distribuía. Por isso, intitulei a sua biografia de “O Semeador de Alegria”. Todavia, observo que a vida dele não cabe em um livro. Acho que ele estava no mundo para ensinar. Deus lhe deu sabedoria para transmitir aos seus alunos – e a quem com ele tratasse – as lições da vida, de Psicologia do saber, transmitiu sabedoria nas lições de grego e latim na formação de padres.

Um homem múltiplo de ciência e arte, foi chamado a todas as funções do seu ministério, exercendo também o jornalismo, a função de escritor e de lúcido acadêmico. Tudo porque em sua vida já havia adotado o lema do seu brasão, em latim: Viver em Cristo. Por reconhecidas virtudes, foi chamado como conferencista em muitos lugares do Brasil e exterior. O Papa São João XXIII escolheu-o seu bispo e, depois, Monsenhor Camareiro do Papa.

Botânico amador, enamorado das plantas, amante do chão, das frutas, dos pássaros, era imbatível o seu amor à natureza. Dizia que deveria ter nascido na fazenda e não na cidade, que a terra daqui era boa, porque dava mangaba, “a fruta mais deliciosa que Deus nos deu”. Na sua granja, ele se identificava com as flores escarlates de Japecanga, com as xananas, manacá, flores roxas e amarelas do pau d’arqueiro, com a grande flor da banana, o pé de mamão, o cajueiro. Usufruía da beleza da forma, do cheiro, das cores, tons e subtons. Dizia da impressibilidade de ver em cada coisa a sua beleza e ser a razão de uma nova alegria.

O nosso Dom doutrinou que Deus fez do homem um ser inacabado para que ele pudesse se autoconstruir em consciência.

Um dia, recebi em meu escritório uma senhora que chorava sem parar. Consegui, com esforço, que ela contasse a sua história. Disse que estava definitivamente condenada, não via saída. Havia traído a sua fé e a sua palavra sagrada, arranjado um amante. O marido, que frequentemente batia nela, matá-la-ia e também ao advogado, se ela tentasse desquitar-se. Consolei-a como pude, sem conseguir. Lembrei-lhe de Dom Nivaldo, ela foi e, dias mais tarde, voltou outra mulher. O bispo acalmou-a. Ela não cansava de repetir algumas frases dele, à época, revolucionárias para um religioso. Talvez, agora, o Papa Francisco fizesse a mesma coisa. Foram lições: “O amor é superior ao casamento”. E mais: “Saiba que amor sacrifica. Só depois é que salva”. Foi dada a sua absolvição.

No primeiro ano do reconhecimento dos trinta santos de Cunhaú e Uruaçu, será comemorado o centenário do Santo da Alegria. A Arquidiocese, a Academia Norte-rio-grandense de Letras e o Parque Dom Nivaldo Monte participarão das comemorações.

O escritor-acadêmico Padre João Medeiros pontificou: “No silêncio do Mosteiro de Sant’Ana, onde a natureza reina placidamente como um sorriso de Deus, repousa nosso inesquecível Dom Nivaldo. Os pássaros alçam seu voo realizando a dança da alegria, o cheiro das plantas e da terra espargindo no ar, velando a sepultura simples de um sábio e santo”.

Com outros fiéis, darei toque de sino tenor em seu louvor.

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Diógenes da Cunha Lima

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