O efeito da tecnologia e do nacionalismo na música

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Livro O Triunfo da Música, de Tim Blanning, parte de conflitos bélicos e culturais europeus e da mudança sofrida pela profissão de músico após a Revolução Industrial para percorrer cinco séculos de história da arte mais invasiva e apaixonante

Fotografia de capa: Andre Arment

Raros são aqueles imunes a uma melodia, a uma seção percussiva, a uma junção de acordes em uma narrativa sonora. Descobrimos cedo o poder de algo invisível, mas tão poderoso como o vento, o olfato ou o choro de uma criança na hora do aperreio.

Desde a primeira infância, as palminhas batem, o corpinho ginga, sem o menor esforço do bebê, que logo percebe a força da música, a ponto de silenciar durante as preferidas – seja Clint Eastwood, do Gorillaz, ou O Pato, de Vinícius de Morais.

UNSPECIFIED - CIRCA 1986: Franz Liszt (Raiding, 1811 - Bayreuth, 1886), Hungarian composer, pianist and conductor. Caricature, 1842. (Photo By DEA / A. DAGLI ORTI/De Agostini/Getty Images)

Franz Liszt (1811-1886) em caricatura de 1842; bonito, culto, carismático e virtuose no piano, ele protagonizou a mesma idolatria e inconsequência juvenil da Beatlemania

Notório por sua fama

A palavra Beatlemania foi usada pela primeira vez em 1963 por um crítico do jornal The Times, de Londres, ao perceber que aquele fervor em torno de quatro jovens cabeludos era uma obsessão coletiva inédita para toda uma geração.

No entanto, no século XIX, a mesma idolatria e inconsequência juvenil ocorreram em relação ao pianista e compositor austríaco Franz Liszt. Foi a Lisztmania, muito ajudada pelo romantismo como movimento artístico do momento.

Bonito, culto, carismático e virtuose no instrumento parceiro do violino na proeminência da música clássica, Liszt foi o primeiro ídolo a mexer com hormônios femininos e emprestar caráter divino ao artista.

As mulheres usavam broches com sua imagem; disputavam xícaras, guimbas de charutos, lenços e luvas com seu suor. Em seu passaporte, autoridades austríacas carimbaram celebritate sua sat notus (em latim, ‘notório por sua fama’), o que garantia livre acesso em qualquer país.

Liszt deixou sua marca na história do instrumento. Foi o primeiro a tocar de memória, com a tampa aberta, para espalhar o som por auditórios, e a coloca-lo em um ângulo visível ao público, para mostrar-se por inteiro em ação. Liszt inventou o recital, pioneiro em dedicar um concerto inteiro ao piano antes de qualquer outro compositor.

MúsicaDespotismo e nacionalismo cultural

É a partir desse momento da história que Tim Blanning inicia O Triunfo da Música, livro soberbo com um panorama da mudança que a profissão de músico sofreu a partir da Revolução Industrial – à época, um labor desprezado pela sociedade, tão vil feito escravos, mendigos e prostitutas.

Em cinco capítulos, Blanning, professor aposentado de história moderna da Universidade de Cambridge, percorre cinco séculos da arte mais invasiva e apaixonante.

O processo teve início com a emancipação conseguida por Mozart e Beethoven, primeiros a terem status de celebridade, com imagem difundida pela Europa, e a subsequente explosão de Liszt.

Mas, após a Revolução, a música ganhou propósito nacionalista com o despotismo cultural empreendido por franceses, fortemente repelido por alemães, italianos e ingleses.

Interlúdio para a Lisztmania: Segue abaixo fragmento da apresentação da ucraniana Valentina Lisitsa para Hungarian Rapsody Nº2, de Liszt. Ela já tocou em São Paulo, ao lado da Orquestra Sinfônica Brasileira.

Qual povo tem a melhor música?

A guerra ‘intelectual’ entre as quatro nações mais importantes da Europa é destaque no trabalho de Blanning. Assim como a dessacralização do artista em consonância com a popularização dos espetáculos musicais – sobretudo na Inglaterra, terra de tradição musical menos expressiva do que os rivais, mas onde mais se acumulava riqueza.

Enquanto guerras eram travadas, o sentimento nacional se desenvolvia em torno das artes, sobretudo na música. Franceses e italianos se achavam donos da melodia, sensíveis e refinados; alemães, poderosos chefões da harmonia e da profundidade.

Ditado comum entre músicos e na corte de Luís XIV (1643-1715), rei de um longo período de hegemonia cultural francesa, dizia que “a Espanha soluça, a Itália lamenta, a Alemanha brame, Flandres uiva e só a França canta”.

Trechos de críticas da época são reproduzidos em O Triunfo da Música, o que alimenta a curiosidade sobre ódios transnacionais e ‘justificaram’ conflitos bélicos posteriores – a Alemanha dominada militarmente por Napoleão, por exemplo, instigou uma forte francofobia baseada em uma rejeição cultural.

Ilustracão_Narcoscorridos_Matt Taylor

Descobrimos cedo o poder de algo invisível, mas tão poderoso como o vento, o olfato ou o choro

Música e libertação social

As duas últimas partes tratam da tecnologia e libertação social, e foram as que mais me animaram (o livro todo é de ler e reler).

Assim como hoje, a música foi a arte mais afetada com aquela revolução tecnológica. Novos instrumentos alteraram formato e conteúdo das composições, e influenciaram gestos de rebeldia política e comportamental.

Surgiu o piano, cuja estreia em público é atribuída a Bach. Na Viena da segunda metade do século XVIII, então maior cidade de língua alemã do mundo, o ápice veio com Mozart, compositor de 27 concertos para piano.

Fábricas do instrumento abriram em diversas cidades, como a londrina Broadwood, orgulhosa de servir pianos a reis e rainhas da Inglaterra desde o começo do século XVIII. Na esteira, lançaram modelos acessíveis para a incipiente classe média.

Blanning explora cânones da cultura ocidental com erudição e habilidade na escrita de jornalista literário, sempre justapondo nomes contemporâneos.

Este O Triunfo da Música é daqueles livros que poupam leitores sem conhecimentos teóricos e mostra como a dinâmica de uma arte pode se repetir séculos depois. De quebra, conta a história de gêneros, instrumentos e práticas de escuta e execução.

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