Literatura

O Engenhoso Fidalgo

Dom Quixote depois de um dia
de muito pensar

ou, quem sabe, depois de lutar
contra moinhos de vento

ou ainda, saído da batalha
com o cavaleiro da branca lua

vem no horizonte, entre a noite
e o sol, cavaleiro da triste figura

curvado pela carga da fantasia,
da lança, do mundo, nas rédeas

do velho pangaré, pra ele o mais
lindo animal da terra, patati patatá

livros de cavalaria lê, e nem se
lembra de dormir e comer

os analfas de casa maldizem:’de
tanto leer se le secou el cerebro’

enlouquecer pra depois sair por
aí dizendo umas puras verdades

endireitar o mundo, viver o amor,
missão para o casto enamorado

fiel a Dulcinéia de Toboso
a quem não vê, nunca viu

para amá-la não é preciso vê-la,
ou tê-la, apenas imaginá-la

mas, meu senhor, são moinhos de
vento, não são gigantes!

que história é essa, Sancho?
só piso em babugem de realidade

sei, amo meu, não é fácil às vezes
separar realidade e sonho

delirar ficou para os lunáticos, os
que na certa perderam o senso

não vê os do caminho a me
aplaudirem, homem sem juízo?

meu amo, abra os olhos e ouvidos
eles estão a lhe apupar

não precisa eu despertar pra saber
o que se passa sob o céu

vosmicê, sim, tem os pés atolados
nos pântanos, na terra, na lua

e por mais que tente não alça voo
pois tem bem redonda a cintura

soltem o leão, senhores, avalio
esfolá-lo sem mais demora

o bicho pula, esturra fora da
jaula, dá-lhe as costas e adormece

oh covarde, isso o que é, diz
o cavaleiro brandindo a espada

tenho os nervos em frangalhos,
a continuar baterei em retirada

cala-te, escudeiro! minhas vistas
não combatem o que têm dúvida:

as nuvens estão a passear pela
tarde, enquanto a pedra dorme

só se dentro da cabeça tivessem
ocos, e não o sentido de justiça

Sancho quer de novo acreditar:
seu amo discursa, não tresvaria

hão de se alfinetar até o fim da
distância. E os dois com razão!

do poente ao nascente sondou:
nenhuma espada mais a quebrar

a Sancho disse: de vitórias cansei!
Dulci m’espera com sabão e amor

na armadura de lata mexeu,
a lança aprumou, e a Rocinante
esporeou

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