Geral

O entorno da estrada

reta

NA ESTRADA sempre funciona o dispositivo mental que acessa as saudades mais enraizadas. Enquanto os olhos se guiam pelos sinais verticais e horizontais, o coração vai recolhendo do asfalto e da luz solar intensa aquelas memórias do fusquinha branco do meu pai, que nos levava de férias para João Pessoa ou para o Seridó Potiguar. Eram esses os destinos contumazes. Eram as terras que as férias escolares permitiam conhecer. Em João Pessoa, a avó e os tios e primos por parte de pai. No Sertão do Seridó, familiares de mamãe. A Capital da Paraíba e o interior do Rio Grande do Norte: tão diferentes e tão assemelhados no desejo idílico. Passei muito tempo viajando para esses dois centros das minhas aventuras e sonhos infantis. Depois, quase ingressando na adolescência, conheci Recife. Posso dizer que essa tríade constituiu o primeiro capítulo do meu pequeno livro de viagens, hoje mais ampliado, porém com muitas páginas em branco, que eu pretendo preencher antes da última e maior das viagens (cujo relato não me será possível).

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É A TRANSIÇÃO o que se busca na estrada. Há uma mudança de sentimento, de visão, de percepção das coisas, do momento, das pessoas, da realidade. Há mesmo a mais pura manifestação de desejo. Busca-se algo que está lá adiante, além da linha do horizonte, a canção do Rei já dizia.

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O QUE A ESTRADA PEDE é que nos mantenhamos nela, com alguma prudência, até porque o grande lance de ousadia e de coragem é persistir na viagem. E cantar alto quando pudermos, para espantar os maus espíritos que em toda estrada há. Vale sempre prosseguir, como se estivéssemos no velho fusquinha branco do pai, em segurança, aguardando a terra sempre prometida, que a qualquer momento surgirá lá adiante. E é óbvio que, à chegada, os sorrisos mais puros e sinceros se abrirão. E a transição estará completa.

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SABER OBSERVAR o entorno da estrada: eis um talento. Mesmo que os olhos estejam atentos ao que existe adiante, há como captar a essência das coisas ao redor. O segredo é desacelerar. E seguir firme, sem deixar que a sensibilidade o retire do rumo. Vez ou outra, alguns sustos, algo que provoque ligeiro temor. Um erro do motorista descuidado lá adiante. E você pratica a direção defensiva em sua viagem. E se livra dos perigos, dos desastres alheios. Na maior parte das vezes, são só insetos que explodem, minúsculos, no seu pára-brisa. É seguir adiante, com as mãos na direção de sua vida. E nada temer. Nada há a temer, a não ser a perda dos sentidos, do sentido que há na viagem.

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Lívio Oliveira

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