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O fardão da Academia

Juscelino Kubitschek não conseguiu eleger-se Acadêmico. Justificou o insucesso: “Ganhar eleição para a Academia Brasileira de Letras é mais difícil do que virar Presidente da República do Brasil”.

A ABL foi fundada em 1897 sob modelo da Academia Francesa (1635). Os acadêmicos são limitados a quarenta cadeiras, que são disputadas, teoricamente, pelos melhores intelectuais brasileiros. Todavia, muitos que merecem não participaram da Instituição.

Lembro, apenas, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade, Érico Veríssimo, Nelson Rodrigues. Mário Quintana foi, por três vezes, negado. Câmara Cascudo recusou sucessivos convites dizendo ser provinciano.

Aos 120 anos de existência, a ABL empossou um potiguar pela quarta vez. O Ministro João Almino é legítimo orgulho brasileiro, quer na função diplomática, como professor de democracia e liberdade ou como romancista consagrado. Fez palestras em universidades norte-americanas como a de Berkeley, Stanford, Chicago. Estive na grande feira de livros de Frankfurt (2013), lá uma grata surpresa. Ouvi a brilhante conferência do mossoroense.

Quando vestiu o fardão da ABL, Fernando Henrique Cardoso testemunhou sobre valores acadêmicos: “O que importa é o culto permanente à cultura, à língua que a expressa, à paz, à liberdade e à dignidade humana”.

O fardão, de uso centenário, possui grande dimensão simbólica. Celebra a alta dignidade acadêmica. Decorado com um ramo de café, semelhante ao Brasão Nacional, sobre cambraia inglesa verde-musgo (verde simboliza a imortalidade, a natureza), bordado com fios de ouro, vindos da França (ouro é recompensa, reconhecimento, glória). A frase de Machado de Assis, sempre repetida, certifica: “Esta é a glória que fica, eleva, honra e consola”.

O fardão é admirado e, às vezes, contestado. Assim, até o agreste Ariano Suassuna confere-lhe relevância. Conta-se que um acadêmico saiu apressado de casa envergando o fardão da posse. No táxi, pelo espelho, o motorista entrevia o personagem quase todo o tempo. Ao chegar à sede da ABL, o observador não se conteve e perguntou: “Sois algum rei?”

É tradicional que o Estado de origem do acadêmico eleito doe o fardão de elevado custo (R$ 68 mil). O nosso pequeno Rio Grande não poderia faltar com a tradição. A Academia Norte-rio-grandense de Letras, da qual João Almino já era Sócio de Honra, fez campanha pedindo a contribuição voluntária. Tínhamos apenas quinze dias para conseguir a importância. Gaudêncio Torquato, um dos mais notáveis jornalistas do Brasil, pegou a bandeira. Presença da poetisa, Maria Rizolete. Mossoró compareceu com Clauder Arcanjo. Três líderes empresariais conquistaram o nosso reconhecimento e asseguraram o êxito. Marcelo Alecrim foi o primeiro, abriu a conta, seguido por Pedro Alcântara do Rêgo (Três Corações). Flávio Rocha assegurou o êxito da iniciativa.

A posse no Petit Trianon ocorreu com a apolínea ritualística própria. A simplicidade e o brilho das palavras encantaram todos os presentes. Um gesto nobre que emocionou os conterrâneos. João Almino encerrou o discurso dizendo: “Como humilde gesto simbólico de reconhecimento ao Rio Grande do Norte, quando eu me juntar à poeira de estrelas peço que encaminhem este fardão para a Academia Norte-rio-grandense de Letras”.

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Diógenes da Cunha Lima

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