O filho pródigo (conto)
26 de julho de 2010 às 14:10 - ComentarPor Lucas Feat
Até os oito anos acho que eu era um pouco covarde. Mil novecentos e noventa e quatro, eu acho. As pessoas aqui dizem que eu sempre fui muito precoce, sabe como é. Tenho certeza que acham isso porque já me viram falar sozinho algumas vezes. Poucas, mas precisas vezes. Eu sempre gostei de ficar horas a fio, solitário, tentando decifrar códigos e metáforas em letras de música: “Vamos usar um extintor como lençol”; ou seja, quer dizer que as pessoas podem usar um cobertor na falta de instrumento para apagar o fogo. Ou então elas devem fazer amor sem um cobertor, porque ele acaba por apagar o fogo. Na verdade aprendi a gostar de onde estou, (um quarto só meu com televisão colorida) porque quando eu cheguei por aqui resolveram me deixar na pior sala do lugar, uma jaula quente e mofada, infestada de ácaros nas camas, as paredes chapiscadas e faltando reboco, cheia de pernilongos chatos bem no meio do mato insolente do cerrado, quase à beira de uma morte tediosa e in sólita. O que me preocupa mais, é saber os reais motivos da minha vinda para a clínica. Não todo mundo, mas a mim mesmo. Engraçado é que tudo parece que aconteceu numa vida inteira. Quando eu completei oito anos, bem no dia do meu aniversário, bem na hora que eu assoprava oito velas azuis enterradas em cima de um bolo branco e enorme cheio de cerejas médias (eu sempre odiei cerejas, mas mentia para minha mãe) eu quis ficar invisível pela primeira vez. Eu não me lembro de ter passado despercebido antes, porque eu era muito pequeno. O lance é que, naquele dia eu estaria invisível e aquilo de fato marcaria minha vida para sempre. Todos estavam ao redor da minha mesa e eu, sendo o protagonista do dia, estava feliz porque era o meu dia. Já passavam das sete da noite e todo mundo batia palmas e assobiava e gritavam meu nome, eu tinha um bolo, amigos e minha mãe. Quando todos terminaram de cantar parabéns eu apaguei minhas velas e minha mãe acendeu a luz, foi quando eu vi l

