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O floco diáfano da poesia de Margarida Patriota

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Foto: Viola Júnior

A investidura da poesia requer uma ritualística própria, conforme o estilo do vate. No caso de Margarida Patriota, prosadora de grei e poeta, enfim, essa investidura se reveste de uma sequência de passos adjetivos, anunciados desde o soneto “Investidura”, poema que abre com propósito de obra programática seu novo livro “Laminário” (7Letras: Rio de Janeiro, 2017). Trata-se do verso: “Professo o avesso do falso”, seguido do dístico: “O semigrito, o semirriso solfejo / Na partitura, o peso do embarque […]”.

É raro que um poeta anuncie seu plano programático ab ovo, e se mantenha preso a este no decurso do livro. Mas é o que ocorre a Margarida Patriota fazer, sem que para isso se jacte de mais ou de menos, apenas por sê-lo, como outros podem preferir a fantasia escapista, a confissão teísta, os fumos do luto ou o saudosismo. Todos, aliás, programas poéticos válidos, se a poesia se mostra à altura do tema.

Para deixar ainda mais patente seu projeto de verdade poética, Margarida Patriota detalha, no primeiro terceto do referido soneto, coisas que renega – decorrência lógica de quem se põe a enunciar propósitos. De fato, depois de professar o avesso do falso, ela emenda: “Renego o blefe aziago / ao apelo falaz resisto / adoto o hábito monástico // No altar marmóreo das juras […]. Atentemos, enfim, para o fecho do poema: “Aceito o sólio da escrita / e os sinos tocam perpétuos”.

A poesia de Margarida Patriota é feita, à semelhança de uma boa composição musical, de gemas substantivas, como, por exemplo, esse “sólio” (assento do rei e, por derivação, poder real) que não é um assento ou poder real qualquer, posto que é o “sólio da escrita”. Cumpre observar que Margarida Patriota é autora de vasta obra em prosa, entre ficção e ensaios. Entre outros livros, publicou: “Brasília é uma festa (Projecto Editorial: Brasília, 2004), romance; “Elas por elas” (7Letras: Rio de Janeiro, 2007), contos; “Enquanto aurora: momentos de uma infância brasileira” (7Letras: Rio de Janeiro, 2011), memórias; “A lenda de João, o assinalado: Cruz e Sousa, o poeta negro” (Topbooks: Rio de Janeiro, 2012), romance.

Mas isso é só parte da história, porque Margarida Patriota comanda há vinte anos, na Rádio Senado-DF, o programa “Autores e Livros”, o que reforça a pertinência desse alegórico “sólio da poesia”, haja vista que a cada semana entrevista um novo autor sobre seu trabalho literário. Essa intensa vivência literária ¬faz de Margarida Patriota uma autora extremamente focada no seu trabalho, tornando-a, simultaneamente, autora e leitora, entrevistadora e ouvinte, numa simbiose que realimenta não só sua vasta obra literária, mas a dos seus entrevistados, com sobras generosas para os ouvintes. Admitamos, então, que a metáfora dos sinos que tocam perpétuos, no fecho do soneto “Investidura”, não se afasta um milímetro sequer dos domínios do projeto literário da autora. Pelo contrário, o substancia e o realimenta insistentemente, como o leitor crítico pode comprovar já no poema seguinte de “Laminário”: “Vinci”, cujo primeiro dístico declara: “Em reverência ao vero / Viajo de Ceca a Meca […]”. Em “Aviso”, a mesma determinação: “Desdenho visagens que causam miragens / embalam quimeras”.

A poesia é assim um exercício de reelaboração do real, como revela Margarida Patriota nos poemas citados. Mas se trata sempre e indispensavelmente de um exercício estético à sombra da palavra flaubertiana: exata, não importa se reelaborada, dissecada e em seguida enxertada de novos significados. O poema “Torque” é um bom exemplo dessa arte que é misto de prestidigitação e rigor. Lê-se aí:

Torque

Vim comprar poema
Com tração para reboque
Cavalos para carga vária

Arranque, freios
Balanceamento
Regulagem atual

Cujo som propague
O eco das eras
O grito da hora
O murmúrio do instante
O suspiro das circunstâncias sem pompas.

Cabe ainda por acolhida, nos poemas da poeta brasiliense, o emprego de ditos populares – “De ceca e meca”, e de outros que ela própria cria para adorno do poema, como: “Quem entrança / espanta os males / e trama” (“Tranças”); “A tecnologia é amiga da onça / o laboratório salva”; “Em livro fechado não entra mosca / De livro aberto, sai” (“Truísmos”); “Preto que te quero preto!” (“Café grande”). E o que dizer dos “epitáfios literários” com que a autora apostrofa algumas de suas admirações? Seguem abaixo, completos:

Epitáfios

Nasceu, cresceu, tresleu romances,
Acabou Miguel de Cervantes

Veio a lume, afiou o gume, poliu verniz
Tornou-se Machado de Assis

Mudou de nome, de sobrenome e renome
Virou Pessoa

Não foi Amado, Dourado ou dos Anjos,
Foi natimorto

Poesia quase sempre dessubjetivada, assim a autora se permite descobrir o outro, aquele que a revela para si mesmo, lacanianamente; a poesia das coisas, de que fala Drummond, é essa mesma poesia que permite a poeta brasiliense descobrir a “proeza da rubiácea” (“Café grande”) e defini-la no exato instante em que o degusta: “Preto que te quero preto! / Cor de petróleo na xícara / / combustível que sorvo ácido / soro, parceria, rito / Tinta de escrever o quanto / não expresso sem cafeína”. Às vezes, a poesia pode ser tão somente o “floco diáfano” que ela recolhe no voo de um gesto largo (“Lástima”).

À riquíssima dialética das relações de família, Margarida Patriota responde com um poema de ecos pessoanos, cortante como a navalha de que fala a poeta Diulinda Garcia:

Auxílio-família

Em me pedindo ajuda
Presto-a como posso
Não vou deixar parente na mão

Porventura ajude quando não pediu
Acusa-me de desajudar
Um consanguíneo

Se me pede como quem não
Ajudo como quem não ajuda
E passo por não ajudar um seu

Precisa de ajuda este meu!

Com forma e conteúdo em permanente mutação, de onde resultam construções estilísticas e versos despojados de qualquer excesso, redondos e coesos, plenos da leveza indispensável de que fala Calvino, a poesia de “Laminário” anuncia uma nova dicção poética na paisagem trêmula da poesia contemporânea – a de Margarida Patriota.

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