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O frio no miolo do osso

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Para Christina Bielinski Ramalho

Ato I: Manhã. O sol rasga a veste dos meus olhos. De súbito, encontro-me de pé a observar o barulho baixo e fino que vem do mundo aquariano de Aracaju. O barulho, que pela falta em si, faz muito mais eco pela ausência do que pela existência. O silêncio retilíneo risca em linha uniforme aquilo que poderia medir espaço, velocidade e temperatura externa ao corpo e interna à atmosfera.

Ato II: Manhã. As pálpebras dilaceradas por polegares e indicadores esculpem, pintam e reproduzem o primitivismo do corpo, além da série ordenada em fotografias da película “Ilha da fantasia”. A teologia aqui dada é representada pelo que consome em labaredas aquilo que toma de ardência o espólio noturno da realidade. Assalta o chão da matéria homem e, num ato puramente alquímico, rompe o limite do asilo inviolável do palácio da vida.

Ato III: Manhã. O rubor se estende por todo o circo. Piruetas, malabares, ilusionismos… o balé dos artistas é a fonte que jorra e alimenta com leite a criança taciturna que se inaugura quotidianamente. A reprodução dos passos e saltos institui uma nomenclatura particular aos acrobatas da alcova circense.

Ato IV: Manhã. Segue o espetáculo espionado pelo rei. Ele, que burlou a vigilância dos atores, se pôs como espectador privilegiado do desenrolar das cenas: emaranhado de braços e abraços; mãos e nucas; pernas e lábios; línguas e pés; e boca na boca. Ele, que se arroga de ser a luz máxima dos campos de Gaia, resolveu, num ato solene e de respeito, fechar o cortinado e resguardar-se dos segredos alheios antes do frio que dá no miolo do osso.

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Italo de Melo Ramalho

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