O jardineiro infiel

22 de dezembro de 2009 às 9:03 - Comentar
Por Carlos Magno Araújo

canteiroMoleque, ouvia o sujismundo repetir na tevê: povo desenvolvido é povo limpo.

Travestida de brincadeira, era a forma de a ditadura chamar a nós outros de porcos. Eu achava engraçado.

O jardineiro era antes o pintor de hoje. Atendia de casa em casa, marcava o retorno no calendário.

Ainda é assim, verdade. Mas antigamente não havia a concorrência dos especialistas em design de ambientes. Essa, porém, é outra história.

O fato: tratar do jardim era uma arte. Ao administrador público, o correspondente era cuidar de canteiros e praças, chamados também, pomposamente, de logradouros.

Dei uma volta pela cidade, dia desses, e voltei com a constatação: estamos todos sem condições de lograr.

Em vários bairros, canteiros e praças estão sujos, em situação de abandono.

Em algumas, no lugar das gramas, só resta barro. O verde morreu seco, esturricado.

Algumas plantas parecem pedir mais água do que um visitante em Pau dos Ferros, sol do meio dia.

Natal perdeu neste ano, coincidentemente, uma função pública que nos governos passados se destacava – a ponto de um de seus ocupantes hoje sentar-se numa confortável cadeira de vereador.

Foi quando se descobriu que trocar luz e cuidar de jardim pode render, também, um carro-pipa de votos.

Com o fim da era Marilene Dantas e com a passagem quase meteórica de Ranieri Barbosa pela Secretaria de Serviços Urbanos, Natal ficou sem jardineiro oficial.

Marilene, guerreira da tropa de choque da então prefeita Wilma de Faria e depois, também por longo tempo, da equipe do prefeito Carlos Eduardo, costumava dar incertas nas praças e canteiros.

Ia ver de perto se estavam regando tudo direitinho, se as espirradeiras precisavam de podas, se a grama havia sido aparada e se, enfim, não estavam maltratando suas plantinhas.

No fim da administração de Carlos Eduardo, foi trocada por Ranieri Barbosa, cujo plano de metas era ajeitar praça e jardim, ligar ponto de luz e instalar barraca nas fei-ras.

Projetou-se nos bairros, ganhou visibilidade e acabou eleito vereador.

Sem substituto para os dois, a nova administração permanece órfã de jardineiro oficial.

Alguém poderá gritar “epa” e dizer que o jardineiro existe, sim, só não aprecia os refletores.

Ora, se houver mesmo o dito cujo, pelo que se tem visto nos canteiros, será ele, ao contrário daquele do filme, um jardineiro infiel.

Constato, enquanto venço ruas e avenidas de Natal e lembro do velho sujismundo, que ele, o próprio, nesses tempos outros e modernos, bem poderia ser o nosso jardineiro oficial. (Publicado na edição de domingo do Novo Jornal)

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    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
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POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - Comentar
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente
    • José de Paiva: Seja bem vinda Glória Braga Horta ao SP e obrigado por ler o meu texto. Obrigado também pela generosidade dos amigos de sempre. Clarissa Torres, gosto muito das obras de Schiele, elas me inspiram. - Rita louca
    • Marcos Silva: Gosto muito daquela canção de Paulinho da Viola que diz: "Faça como o velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar". - À sombra da ditadura
    • gustavo de castro: E quem disse que os valores cristãos é que devem predominar? Foi Cristo ou os cristãos? - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Anchieta Rolim: Oreny, bela poesia! - Vento nordeste
    • Anchieta Rolim: Concordo marcos, inclusive quando João Carlos voltou da guerrilha continuou sua luta junto a artistas como Gonzaguinha, Paulinho da Viola e vários outros... Fazia parte do grupo o ex-jogador Afonsinho (aquele que lutou pela lei do passe livre para os jogadores de futebol), e também o cantor e compositor Potiguar Mirabô Dantas. - À sombra da ditadura
    • Marcos Silva: Certamente, existem ONGs sérias. Infelizmente, a desqualificação geral tende a se tornar corriqueira. Lembro que ela aparece com todas as letras no filme Tropa de elite (I). - Brado retumbante