O livro tardio de Zedelfino

15 de dezembro de 2009 às 8:32 - Comentar
Por Nelson Patriota

A literatura norte-rio-grandense é rica em exemplos de autores de um livro só (quase escrevíamos: autores “unilivros”). Auta de Souza com Horto; Jorge Fernandes com o Livro de Poemas de Jorge Fernandes; Miguel Cirilo, com Os elementos do Caos; Bosco Lopes, com Corpo de Pedra são assim alguns casos bem conhecidos desse fenômeno literário tão caracteristicamente nosso. Coincidentemente, esses quatro poetas escreveram seus livros ainda jovens e, por razões distintas, não tornaram a publicar. A brevidade da vida de Auta de Souza impediu-a de prosseguir com sua obra literária. Jorge Fernandes, embora continuasse a escrever depois de lançar seu livro em 1927, não teve motivação suficiente para voltar a publicar, dadas circunstanciais diversas que têm a ver tanto com as idiossincrasias do poeta como com a baixa recepção crítica ao seu livro na década subsequente ao seu lançamento. Miguel Cirilo, após publicar seu bem-avaliado Os elementos do Caos, deixou a literatura e embarcou numa viagem de busca existencial que o levou a recorrer lugares e modelos culturais alternativos, mas o impediu de reencontrar o caminho da escritura poética, embora voltasse a ler poesia nos últimos anos de vida. Bosco Lopes, após publicar seu livro com relativo sucesso e não poucas dificuldades, não conseguiu resistir aos falsos brilhantes da vida boêmia e disso resultou um divórcio irremediável da poesia.

Sabe-se bem, todavia, que a poesia não está condicionada a fatores etários e, como Jorge Fernandes, um poeta pode ir colecionando poemas que escreva ora aqui, ora ali, e que de repente apresentem um número suficiente para compor um livro. Nem sempre, porém, essa constatação resulta em livro. Daí que tantos poetas ficam conhecidos apenas entre seus amigos mais próximos, espécies de confidentes da poesia “renegada”.

Foi assim com o poeta Zedelfino, durante um tempo relativamente longo. Até que ele decidiu que era chegada a hora de dar à poesia norte-rio-grandense deste fim de ano e de década seu Almas nuas, que tem prefácio do cronista Vicente Serejo. Trata-se de um conjunto de poemas vindos à luz na época da maturidade quando, segundo Drummond, “os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme” (“Campo de flores”) e que, no entanto, dialogam em perfeita harmonia entre si. Semelhanças vocais ou formais, polissemias, aliterações se atropelam por assim dizer na sucessão dos versos de Zedelfino, cristalizando imagens, reiterando similaridades sonoras, brincando com o duplo sentido de um substantivo/verbo, provando mais uma vez das possibilidades ilimitadas que poesia e língua comungam e de que parecem nunca se fatigar. Não admira que nesse processo pelo menos uma alma finde por se desnudar: a do próprio poeta. Ou será o de sua persona poética?

A uma segunda leitura desse pequeno volume poético, o leitor logo se dará conta de que assiste a uma reedição daquela ingente e vã luta com as palavras, naquele exato sentido que lhe atribuiu o já citado Drummond em outro poema famoso (“O lutador”).

Com efeito, em “Fraturas”, o autor está alerta para as vicissitudes que a palavra pode oferecer, cerceando-o e escamoteando sentidos, construções, imagens. Poesia em fraturas, diz o poeta: “ah, as palavras/ num vai e vem/ em minha mente/ se abrem e fecham/ em copas como lábios/ como portas/ como dedos de mãos/ que vagas imitam/ em arco envergam-se/ sobem e descem/ às folhas de papel/ se curvam se rendem/ e escrevem/e não dizem [...] é que elas se escondem/ nos vãos da casa/ na janela no telhado/ debaixo da escada/ nas frestas do chão/ em utensílios de pouco/ ou nenhum valor/ esquecidas em armários [...]”.

O poema resume, portanto, essa busca pelo que as palavras efetivamente expressam e aquilo que elas poderiam de fato expressar, traço que fica muito patente na própria composição do longo poema, entremeado de pausas e reticências sinalizadoras dos limites verbais em que o poema naturalmente chega, seja pela necessidade de anunciar seu fecho, seja pelo fato de o poeta renunciar a prosseguir em seu propósito.

Tal como comprovou o poeta de Itabira, Zedelfino também tirou a prova dos noves do embate com as palavras e recolheu o poema; a luta não foi, portanto, de todo vã.

Comentários fechados.

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    08-02-2012 às 22:17 - 7 Comentários
    Por Jairo Lima

    Chegaste a mim não como lume
    Mas como Pergunta exposta na toalha sobre a mesa
    E com olhos irônicos fitaste o Vazio dos meus olhos
    E nos meus olhos te atiraste como um predador na rota de sua presa

    Na boca um sorriso zombava de futuros e certezas

    E eu te vi.
    Te vi como se vê mares e dunas
    Como coisas que são sem oráculos nem seitas
    Que não se anunciam, nem aguardam, nem ficam, nem se vão:
    Ali estavas de pé em frente aos panos da noite
    E parecia que contigo aquela noite estava feita

    Te vi coxas, riso, ombros e mãos
    Perdidos entre afago e maldição

    Enquanto o sol ainda se esconde tua mão me marca a pele e impõe fronteiras de posse
    Num corpo que já não é mais o meu e se entrelaça no teu e se contorce

    Os lábios se encontram e vão em busca dos vapores quentes da alma
    Se colam, se penetram, se invadem;
    Não são asas de pássaros, são patas de cavalo
    Destruindo colheitas

    Aquela noite só prometia suores
    Conquistados a cada beijo
    Os latifúndios do desejo
    Eram cada vez maiores

    (———–)

    Vim de longe
    Em hora incerta
    Vim de lunas
    Vim de céus perfurados de estrelas
    Vim de amores submersos em dores e desfeitas
    Para que celebrasses a consagração bizarra
    Que faz a carne virar pão
    O sangue virar vinho
    E a cama virar mesa
    Onde a fome dispõe as suas facas
    Para cortar as carnes e sugar a seiva

    (—————–)

    ******

    Tácito, aqui vai um pequeno FAQ para explicar porque voltei a enviar poemas:
    1. Porque JL parou de mandar poemas para o SP?
    Não sei
    2. E porque voltou a envia-los agora.
    Sei lá.

    COMENTÁRIOS

    • Fernando: Nossa, nunca li um artigo tão fraco como esse, nunca vi tantas falácias coligidas em um artigo de um abortista (não nos parece um jornalista, já que demonstra nada ter lido efetivamente sobre o aborto). Vejamo-las: 1) Aborto não é questão de controle populacional: mentira. Basta ver a origem da defesa do aborto nos EUA e basta ver quem financia o aborto ainda hoje. Para quem nada sabe do assunto, estudar a história das fundações Rockefeller, MacArthur e Ford pode ajudar. 2) Aborto é "direito reprodutivo". Direito??? Que absurdo! Além do absurdo, o termo maldosamente forjado para induzir a erro é incoerente: como pode um "direito reprodutivo" tirar uma vida? Ah, tem dúvida se é vida humana? Por favor, dá uma olhadinha aqui: abort67.com.uk 3) Ó loucura... "atendimento de qualidade" e "sem preconceito" do Estado para ajudar uma mulher a matar o próprio filho. Quanto amor, quanta bondade! Quer saber? Chega de ironia, falemos a verdade: que nojo, quanta hipocrisia! Por que não propor educação sexual para valorização da mulher, do corpo, do próprio sexo, ao invés de louvar o sexo irresponsável que gera vida e que deve terminar em assassinato "de qualidade" e "sem preconceito"? Repito, gritando: QUANTA HIPOCRISIA, QUANTA HIPOCRISIA ASSASSINA MENTIROSA travestida de luz. Típico de quem quer fazer o mal. 4) Ah, o velho conceito da luta de classes para transformar o assassinato de bebês em "questão de saúde pública": mulher rica aborta com segurança, mulher pobre aborta e morre. MENTIRA HORROROSA!! Uma simples consulta ao SUS desmistifica essa mentira. O aborto como causa de morte de mulheres está LONGE, MUITO LOOOOOOOOOOONGE de ser questão de saúde pública. Mas é claro que este abortista (jornalista? Não... já não resta dúvida) está mal informado, lendo pesquisas financiadas pelas ONGs abortistas que sabidamente MENTEM para jornalistas divulgando números falsos que eles irresponsavelmente repassam para pressionar a opinião pública. Deem uma olhadinha aqui (é só uma das evidências...): http://boletimfedf.blogspot.com/2011/03/os-controversos-numeros-do-aborto-e.html 5) Como é fácil ter opinião diferente sobre o feto quando você não foi abortado, né japonesinho? Que lindo que soa aos ouvidos menos instruídos "direito sobre o próprio corpo". Que sorte a sua que sua mamãe (e seu papai, coitado! Não o reduza a nada! Ele também quis que você viesse ao mundo... Como você pode tirar dele o direito de amar você?) - que sorte que ela não pensou como você!! Afinal, seu corpinho não era nada, não é? Era uma unha encravada da mamãe, não é? Se você tem dúvida sobre "que corpo" é mutilado, se o da mamãe ou o do bebê, recomendo novamente este videozinho instrutivo: abort67.com.uk 6) Ave, e o que dizer da tese - histérica - de que "religiosos estão se intrometendo na questão!!! O Estado é laico!!" Será que não existe um ateuzinho que não concorde com a matança de bebês? Acho que existem sim. Muitos. Mas é mais fácil ser ignorante (ou maldoso) e criar uma guerra religiosa. Abjeta, como aliás têm sido todos os supostos "argumentos" até aqui para defender a matança de bebês gerados irresponsavelmente. 7) E o autor - que por sinal demonstra ter um elevadíssimo autoconceito, um amor-próprio no mínimo... doentio, para usar um eufemismo - ainda tem o fingimento de se apresentar aos leitores como alguém que está preocupado com a dignidade alheia, quando se acha no direito de decidir quais dos mais novos membros da espécie humana devem ou não viver. Como é triste a cegueira humana! É surpreendente até que ponto alguém ensimesmado consegue perder a noção da realidade! - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: É, Alex de Souza... "seus corpos" - abort67.com.uk - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • chico m guedes: coisas de Jairo eu sempre me pego lendo em voz alta; é quase táctil (quase?) - No bar
    • Daniel Menezes: Ótima reflexão. - Yoani Sánchez, a direita e a esquerda
    • Jairo Lima: Brigado, Nina, sou leitor atento e empolgado de tua poesia. - No bar
    • Anchieta Rolim: Marcos Silva, caso tenha interesse dê uma olhada nesse blog: araguaiahistoriaemovimento.blogspot.com Um abraço! - Ai Hay Hai
    • Marcos Silva: Aprendi a sentir Anne como mais que irmã, pedaço de mim, essas coisas que uns e outros consideram sentimentais mas são apenas sentimentos que nos diferenciam dos computadores. Grande beijo. - Ai Hay Hai
    • Anchieta Rolim: Gostei muito da matéria. E pra quem interessar, segue o blog do meu amigo João Carlos Wisnesky que foi um dos guerrilheiros do Araguaia e que ainda continua sua luta para esclarecer esse fato histórico. araguaiahistoriaemovimento.blogspot.com - À sombra da ditadura
    • Nina Rizzi: Gosto muito. E o meu gostar tem a pretensão dos desejos mais pungentes. Um beijo :) - No bar
    • Anne Guimarães: Marcos meu menino... Na vida só a alegria embeleza a alma. Beijocas por estes versos! :) - Ai Hay Hai