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O mendigo e o robô

Joseh Garcia_Homelessness

Diferente das máquinas, mendigos são espectros sem atenção.

Em um supermercado dos Estados Unidos, ouço o seguinte diálogo:

– Por favor, coloque seu produto na esteira – diz a voz feminina, clara e sem emoção, emitida por uma máquina-robô construída para substituir o caixa do estabelecimento.

– Por que você está tão deprimida? – diz com intensidade e certa urgência um homem mendigo maltrapilho enquanto aperta a tecla da tela da máquina.

– Retire seu produto da esteira e coloque-o na sacola – continua a voz programada, ignorando a pergunta.

– Você não pode continuar levando sua vida assim. Eu também tenho depressão. O meu problema é que… – respondeu ele com uma aparente convicção de que a máquina pudesse escutá-lo.

Observei melhor a cena e percebi que ele não tinha compra para colocar na sacola. Ele apenas apertava botões e continuava o desabafo num diálogo atravessado.

Joseh Garcia_Homelessness.3

“Como se fossem uma tecnologia antiga desprezada pela mais eficiente: a que produz mais e mais rápido.”

Desabafo solitário

Saí­ de lá me sentindo um pouco abalado com aquela interação deslocada entre a máquina- robotizada e o ser humano no seu estado mais vulnerável. A máquina fazia o que lhe foi programado, enquanto o homem, no seu aparente desespero por contato humano, procurava uma conversa significativa ansiando por calor humano.

O choque de mundos ali se escancarava – a eficiência da máquina produzida para substituir o trabalho de um caixa em encontro com a humanidade abandonada de um mendigo, sem teto e carente de contato.

Diferente das máquinas, que falam e recebem nossa atenção, mendigos são ignorados como se fossem invisí­veis, fantasmas, espectros que andam na rua a pedir ou caí­dos pelas calçadas. Como se fossem uma tecnologia antiga desprezada pela mais eficiente: a que produz mais e mais rápido.

A tecnologia presente no caixa robotizado representa um aspecto da nossa genialidade enquanto espécie capaz de transformar recursos naturais em uma vida moderna mais eficiente.

Cada vez mais presente em nossas vidas, ela assume variados papéis e se apresenta de diversas formas, com intuitos que variam de entretenimento à  ferramenta de prolongamento da longevidade da vida humana.

Nos centros urbanos constatamos facilmente sua presença eficaz tanto na forma de modernas máquinas hospitalares como na rapidez de comunicação de longa distância com o uso de Whatsapp, por exemplo.

A tecnologia nos fascina, seduz e aponta para um futuro de possibilidades abertas. Ela se tornou essencial e muito próxima de nós no nosso dia-a-dia sob a forma de computadores e smartphones.

De acordo com pesquisa realizada pela GlobalWebIndex (publicada em 2015), o Brasil é o terceiro paí­s do mundo com usuários que passam mais tempo online no smartphone: uma média de 3h40 por dia conectados com o celular. As redes sociais consomem grande parte deste tempo diário.

Joseh Garcia_Homelessness.2Clamores da humanidade abandonada

Porém enquanto brincamos com nossos mais inovadores brinquedos ignoramos que não temos sido capazes de utilizar a mesma inteligência para resolver: os problemas humanos sociais, a falta de contato e o abandono que permitimos acontecer no cotidiano, a criação da fome num planeta cuja natureza produz comida suficiente para alimentar toda a população humana, o sistema monetário desigual que cria pessoas ricas e pobres onde as vidas valem menos ou mais dependendo do paí­s ou bairro em que vivem.

Talvez por nosso próprio descuido e falta de interesse, esses problemas tenham se tornado tão gigantescos e complexos que sejam impossíveis de revertê-los. Ou talvez nos sintamos tão perdidos e incapazes diante de tamanho desafio que para evitar o contato com o sentimento de impotência, “preferimos” ignorar o problema.

Mais fácil é introduzir novas e mais avançadas tecnologias para melhorar a experiência das vidas dos que podem usufruir delas. E assim, diariamente, as vozes continuam a se atravessar: a robótica monótona e calma em contraste com o lamento emocional e urgente do mendigo enquanto continuamos fazendo compras e checando smartphones, consciente ou inconscientemente ignorando clamores da humanidade abandonada.

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Joseh Garcia

Comentários

1 comment

  1. Diulinda 27 novembro, 2017 at 11:17

    Parabéns,Joseh Garcia pelo olhar atento e pelas palavras que elucidam,chamam atenção para um cotidiano
    que grita a desigualdade brutal,componente da paisagem dos grandes centros urbanos que nós,os humanos, preferimos ignorar.

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